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X EMLA - Palestras

São Bernardo e a Beata Pacis Visio

Em primeiro lugar, gostaria de expressar a minha gratidão aos organizadores deste encontro por seu convite para refletir com vocês sobre São Bernardo como testemunha da paz. Embora eu tenha passado toda minha vida monástica imerso nos escritos de São Bernardo, até o ano passado eu conseguia me limitar ao Bernardo moralista monástico e teólogo místico. Seu convite me levou a um longamente adiado confronto com o Bernardo homem de estado, o político, e o “negocista”. Obrigado, pelos anos de trabalho mental e espiritual à minha frente na integração destes dois Bernardos!

A base destas reflexões é um estudo do corpus das cartas de São Bernardo. Enquanto é comprovado que Bernardo as retrabalhava extensivamente e provavelmente (como Jean Leclercq afirma) as destinava a funcionarem mais como um panorama da vida eclesiástica do seu tempo do que como história pura, não há dúvida de que em suas linhas gerais as cartas descrevem acuradamente a atividade de Bernardo nos mundos intensamente interconectados da Igreja e do Estado. Certamente elas nos permitem ver, melhor que em qualquer outro documento primário, como o próprio Bernardo visualizava seu engajamento pastoral além dos muros de Clairvaux.

Para dizer a verdade, após estudar aproximadamente as primeiras cinqüenta destas cartas, uma questão irresistivelmente se me apareceu: O que exatamente fez com que CIMBRA olhasse para São Bernardo como uma testemunha clássica de promoção cristã da paz? Muito provavelmente foi em grande parte a influência residual do retrato tradicional de São Bernardo derivado da Vita Prima e da subseqüente hagiografia cisterciense. Aí, Bernardo aparece como um milagreiro incrivelmente fértil e um mediador carismático. Neste contexto, os grandes deste mundo de bom grado dão espaço à força do caráter de Bernardo e sua inegável santidade, reconhecendo em suas propostas a manifestação da vontade de Deus e pondo de lado suas diferenças. Os estudiosos modernos, entretanto, seriamente questionam a historicidade da Vita Prima, afirmando, por exemplo, que, além dos textos hagiográficos cistercienses, escritos com um evidente interesse na canonização de Bernardo e na reputação da Ordem, não há corroboração contemporânea de qualquer milagre que seja, operado durante a vida de São Bernardo. As mesmas dúvidas foram levantadas em relação ao seu papel como mediador.

De fato, o envolvimento de Bernardo em algumas das principais disputas teológicas, eclesiásticas e políticas de seu tempo tem levado muitos estudiosos a rejeitarem a imagem de um Bernardo pacificus. O renomado medievalista francês, Jacques Le Goff, descreve Bernardo como um “provinciano”, alheio à vida urbana emergente, que por toda a sua vida basicamente mantinha o ponto de vista de um militar. “Quando diante de uma heresia ou de um infiel, Bernardo só conhece um recurso: força”. Le Goff chega a chamar Bernardo, “um Grande Inquisidor avant la date” (1).

Há uma certa justificativa aparente para a avaliação negativa de Le Goff. A carreira pública de Bernardo “decola”, por assim dizer, com a sua participação num concílio local a respeito dos cavaleiros templários. Ele é nomeado nesta reunião a ser um dos autores de sua regra e mais tarde compõe um encômio dos templários (Em Louvor à Nova Cavalaria), onde ele afirma que em conflito com os sarracenos é glorioso ser morto por Cristo e não há culpa em matar por ele. Seus anos finais são marcados por sua pregação internacional da segunda cruzada, começando em Vézelay e se estendendo à Alemanha e aos Países Baixos. Pode até ser, como ele mesmo afirma, que ele só tenha aceitado pregar a cruzada “por obediência” a Eugênio III. Uma vez aceitada, todavia, ele certamente desempenhou sua tarefa com elã, perseguindo o Sacro Imperador Romano Conrado III de cidade em cidade na Alemanha até que fosse capaz de obrigá-lo a comprometer-se a “tomar a cruz”. Ainda mais revelador é o interesse que Bernardo demonstrou na possibilidade que foi levantada de uma terceira cruzada, após o fim trágico da segunda, na qual ele figuraria como organizador principal, ao invés de ser meramente seu pregador oficial.

Bernardo também era um dos litigantes principais - o da acusação, poderíamos dizer - numa série de disputas acrimoniosas e extensas sobre sedes episcopais. Quando ele achava que um candidato (ou mesmo um titulado) era indigno, ele se mostrava disposto a passar anos numa campanha de cartas e de encontros pessoais, fazendo pressão até que o bispo eleito fosse posto de lado ou o bispo que presidisse fosse removido. Nos dois casos mais famosos (Langres e York) há uma questão de interesse privado: os dois substitutos dos bispos indignos eram ambos cistercienses - no caso de Langres, o substituto era o próprio prior de Bernardo. E, embora Bernardo também obtivesse êxito em York, após a sua morte, o bispo deposto foi reinstalado... e depois canonizado!

O mais difícil de reconciliar com a noção de Bernardo como reconciliador é sua parte na condenação de Abelardo. Há um certo consenso de que Bernardo tenha dedicado pouco tempo em estudar Abelardo, provavelmente se contentando com o estudo da lista de proposições heréticas que Guilherme de St-Thierry lhe compilou. Ele não era um dialético experiente no mesmo sentido de Abelardo e é provável que uma boa dose do pensamento de Abelardo tenha ultrapassado a sua compreensão. Isto, em si, não é culpável; simplesmente indica o tempo limitado de Bernardo e sua formação monástica, e não escolástica. A dificuldade está em seu comportamento no Concílio de Sens (1140/41) onde foi designado a debater publicamente as mencionadas proposições com Abelardo diante de uma assembléia de bispos e de abades. Antes da sessão, Bernardo se encontrou com todos os bispos e obteve deles uma garantia de que suas proposições seriam de fato condenadas. Aparentemente, Abelardo ouviu tudo isto, pois no dia da reunião ele só se levantou para deixar a assembléia e insistir em seu direito de apelar para o Papa. As proposições foram, portanto, condenadas na ausência de Abelardo. Inocêncio II, sabendo da condenação, expressou o seu descontentamento, insistindo que, desde que Abelardo apelara para ele, o julgamento lhe competia mais que a um concílio provincial. Bernardo explicou que o concílio não condenara a pessoa de Abelardo, senão somente as suas afirmações heterodoxas e que uma tal condenação não excedia os direitos de um concílio local. Na mesma carta, entretanto, ele continuou a urgir Inocêncio a completar o processo iniciado e a decretar a condenação de Abelardo - que Inocêncio o fez. Tudo isto levou o medievalista C. Leonardi a afirmar que Bernardo estava agindo por razões de estado mais que por uma preocupação genuinamente teológica e que em toda a questão ele se mostrou “intolerável” (2).

Bernardo, homem de paz? O ponto de exclamação se transformou em interrogação, talvez vários pontos de interrogação. Todavia, na medida em que eu dava continuidade a uma tarefa que eu também tomei por obediência, cheguei a ver que a atividade de Bernardo no cenário europeu não deve ser considerada de frente. Ela deve ser compreendida à luz de sua visão da paz. Toda a ação política de Bernardo deriva de sua filosofia política.

Qual é a visão de Bernardo? Qual é a paz pela qual ele está sempre lutando? É a paz própria de uma sociedade cristã única, unificada e santa. Uma análise das cartas revela as facetas desta visão:

1. A interconexão orgânica entre Igreja e Estado. Numa série de ocasiões, Bernardo emprega uma frase de três palavras que constitui para ele uma única realidade: regnum et sacerdotium, e asperamente critica aqueles que desejam dividir aquilo que o próprio Deus juntou. O Sacro Imperador Romano, os reis da França, Inglaterra, Sicília e os vários duques e condes são, acima de tudo, governadores cristãos. Eles são filhos da Igreja, e num certo sentido eles recebem sua autoridade da Igreja e sua principal obrigação é a de trabalhar de maneira harmônica com a Igreja hierárquica a fim de ajudar os seus súditos a obterem a salvação eterna. Esta é a razão pela qual eles foram investidos de poder político.

2. A necessidade de uma contínua e consistente implementação da Reforma Gregoriana. A fim de ser verdadeiramente fiel a si mesma, esta sociedade necessita ser purificada da mediocridade e da imoralidade, particularmente em seus oficiais eclesiásticos. Bernardo criticou oportuna e inoportunamente as práticas enraizadas da simonia e do nepotismo (ele segue fazendo isto em grande estilo em seu último grande trabalho, o De Consideratione). Ele consistentemente se opôs a quaisquer pretensões de investidura laical, como sendo ao mesmo tempo uma violação dos direitos da Igreja e uma mais que provável ocasião de instalação de bispos desqualificados. Ele podia ser pungentemente direto a candidatos à promoção eclesiástica que pediam a sua opinião sobre sua possível elevação ao episcopado (a um prior alemão recém convertido, Bruno de Colônia, que Bernardo não conhecia pessoalmente, mas cuja má fama o precedeu e estava sendo considerado a chefiar uma diocese alemã, Bernardo disse com absoluta franqueza: “Dada a suavida passada de imoralidade como monge, seria um salto demasiado grande elevar-se à condição de bispo. Fique grato por haver recuperado a sua vocação monástica”. O monge aceitou a nomeação, não obstante. Bernardo, ouvindo da decisão, se encarregou de lhe escrever uma segunda vez, dizendo para que se comportasse).

A implementação desta Reforma ia além da conversão de indivíduos. Freqüentemente, significava a adaptação de uma regra mais estrita por toda uma comunidade, ou a aceitação de uma regra religiosa por uma comunidade de cânones seculares (a propósito, isto podia ser um negócio perigoso. O rei da França desaprovou uma decisão semelhante por parte de uma comunidade parisiense e, a seu mando, o novo prior foi assassinado). Seu favoritismo pelo modelo cisterciense do monacato beneditino, seu entusiasmo pelos cartuxos, sua amizade de longa data com S. Norberto e os premonstratenses, devem ser interpretadas no contexto de sua advocação da reforma gregoriana e sua convicção em relação ao papel que os monges deviam tomar nela.

3. Esta sociedade é encabeçada pelo Vigário de Cristo, o sucessor de Pedro. Para Bernardo, o Papa era o pai de toda a cristandade, tal como o seu próprio pai (o título mais comum que Bernardo aplica a si mesmo em sua correspondência com os Romanos Pontífices é puer suus, “seu filho”). Era impensável que uma tal sociedade pudesse funcionar ou mesmo existir a não ser sob a autoridade de um único, devidamente eleito Papa. Nada horrorizava mais a Bernardo que a possibilidade e a realidade do cisma e como sabemos, foi à resolução do cisma de Anacleto que ele dedicou dez anos de sua vida entre 1130 e 1139, cinco destes anos passados inteiramente fora do seu mosteiro.

4. As estruturas sacramentais e hierárquicas da Igreja são os meios ordinários e eficazes de se construir, santificar e unificar esta sociedade. Talvez surpreendentemente para nós, a época de Bernardo foi um tempo de questionamento radical acerca da natureza e da validade de instituições políticas e eclesiásticas. Assim como havia revoltas de comunas, especialmente na Itália, contra a autoridade política da aristocracia, também havia teólogos (Arnoldo de Brescia) e pregadores populares itinerantes (Henri de Lausanne) que negavam a necessidade do sacramento da reconciliação, o direito da Igreja de possuir quaisquer bens temporais, a relevância de um sacerdócio ordenado. Para Bernardo, sacramentos e episcopado eram a cola e a fonte da vitalidade da sociedade cristã.

5. De maneira semelhante, uma teologia ortodoxa é indispensável para o fim último dos membros de uma tal sociedade-união com Deus. As doutrinas da Trindade e da graça que levaram Guilherme de St-Thierry e Bernardo a dar cabeçadas com Abelardo eram infinitamente mais que a “linha partidária” para eles. Uma verdadeira compreensão precisamente destas duas doutrinas constituía a base dogmática para conseguir uma participação na vida divina. Como Bernardo deixa claro em seu comentário sobre o Cântico dos Cânticos (8,6), união de amor com Deus, se é para ser autêntica, é inseparável de uma reta percepção teológica do mistério. (um parêntese interessante: o estudioso bernardiano alemão Peter Dinzelbacher se questiona porquê Bernardo era tão livre em suas afirmações afetivas - a respeito da onipotência e da suprarracionalidade do amor - e tão tradicional em suas posições dogmáticas. Para mim parece uma combinação natural: a ortodoxia dogmática garante um quadro seguro de referência dentro do qual o místico se sente livre para explorar, certo de que ele está sempre “em casa” (3)).

6. Os lugares santos, os lugares onde Cristo viveu e sofreu, fazem parte da cristandade. Não somente é questão de se garantir salvo-conduto a peregrinos que desejam visitar a Palestina, protegendo-os dos ataques dos bandos de assaltantes sarracenos e oferecendo-lhes a hospitalidade e atenção médica necessárias durante a sua peregrinação. Jerusalém, geograficamente distante, ainda é o lar espiritual e o centro da sociedade cristã (cf. o mapa-múndi medieval aonde o cartógrafo coloca Jerusalém como sendo o ponto focal do mundo). Constitui uma parte essencial desta sociedade e como tal deve se encontrar sob o governo de autoridades cristãs. Em sua carta na qual convoca o Duque Ladislaw da Boêmia e seu povo a se engajarem na Segunda Cruzada (Ep 461,3), Bernardo escreve: “Sua terra, a terra que ele honrou com seu nascimento... Sua terra, a terra que ouviu a voz da pomba, a voz do Filho da Virgem chamando os homens a uma vida pura... Esta terra começou a ser invadida por homens maus e, a menos que se encontre alguém a os combater, eles engolirão os sagrados santuários de nossa religião... e profanarão os lugares santos adornados com o sangue do Cordeiro Imaculado”.

A visão de Bernardo era certamente multicolorida mas não era pluralista. Sua sociedade cristã era una. Nela estavam unidos imperium e Ecclesia, bispos, nobres e monges, ocupações temporais, estudos seculares, ocupações espirituais e estudos divinos. Era uma visão de uma sociedade harmônica e hierárquica, na qual o temporal era inseparável do espiritual, aonde o temporal era santificado pelo seu contato com o espiritual. Não havia atividade, e muito mesmo qualquer pessoa, que fosse simplesmente secular. Os membros desta sociedade eram eo ipsos membros do corpo de Cristo. São Bernardo não era Harvey Cox!

Se você está se perguntando: “O que é que tudo isto tem que ver com paz?”, eu me arriscaria a dizer que a resposta de Bernardo seria: “Tudo”. Paz para ele não é a mera ausência de conflito, e promoção da paz não é essencialmente a resolução de conflitos. Paz é a construção, manutenção e defesa contínuas desta sociedade cristã unificada. Há um importante corolário a isto, que explica a veemência e incansabilidade de Bernardo como escritor, orador, pregador e propagandista em sua variada atividade pastoral. Esta visão da paz não é uma visão no sentido de um sonho inatingível ou no sentido de uma esperança futura. Sua visão representa sua compreensão da identidade verdadeira (isto é, teológica) de uma sociedade cristã e das obrigações decorrentes para se permanecer fiel a esta identidade. É por esta razão que ele não pode estar contente em simplesmente pensar sobre a sua visão ou rezar pela realização desta visão. Ele a experimenta como uma tarefa que lhe é imposta, assim como a todos os cristãos. Ele acredita nas possibilidades reais do que nós chamaríamos ação política direta e portanto ele se vê compelido a se engajar nela.

Mas como podemos explicar tão abrangente e constante participação na esfera pública por parte de um abade cuja Ordem recém fundada tinha como um dos princípios motivantes uma maior separação do mundo? Para começar, podemos dizer que para Bernardo e seus companheiros abades, “deixar o mundo” não significava, de modo algum, deixar a Igreja. Era óbvio aos prelados do século XII que encontros importantes como concílios locais deviam incluir os abades das dioceses envolvidas assim como os bispos. Na maioria das vezes Bernardo participou de tais encontros na companhia de outros abades cistercienses, tais como o próprio abade de Cîteaux ou o abade de Morimond.

Em segundo lugar, como o acadêmico francês Jean Richard explica, a tradição mais primitiva do monge como um homem santo (muito estudada por Peter Brown) estava ainda em vigor. Quando nobres, clérigos e comerciantes se encontravam fechados em conflito, eles naturalmente recorriam a um monge tido em alta estima espiritual, a quem eles apresentavam a sua disputa, submetendo-a a ele como árbitro. Neste sentido, muitas das “intervenções” de Bernardo não são intervenções como tal, mas clássicas respostas monásticas a um urgente apelo dirigido a um homem de comprovada oração e santidade.

Ao mesmo tempo, não é possível negar o que Dinzelbacher denomina a Einmischungswille de Bernardo, uma quase irresistível necessidade de “meter a colher”. Dentre as primeiras cartas de Bernardo, há uma famosa (Ep 48) que o mostra embirrado e indesejoso de participar de uma importante reunião de dignitários da Igreja porque numa ocasião anterior ele havia sido avisado a ser menos veemente em suas contribuições. “Sim”, ele diz, “nós monges devemos ficar enfiados em nossos pântanos como sapos que somos e limitar-nos a coaxar”. Não precisa dizer: Bernardo acabou aceitando o convite.

Entretanto, este ativismo de S. Bernardo tem melhores e mais profundos motivos que seus próprios mecanismos psicológicos ou a autoconfiança de um nobre com uma rede de bons contatos. Bernardo diz repetidas vezes em suas cartas que ele é obrigado a atuar porque “a questão é de Deus” - Deus in causa est. Ele vai tão longe a ponto de reescrever a famosa frase de Cícero: “Eu sou um ser humano e portanto, nada de humano me pode ser indiferente” a fim de se ler : “Eu sou um cristão e nada de divino me pode ser indiferente” (Nihil divinum alienum me duco). É esta convicção que explica uma atividade totalmente infatigável a serviço de sua beata pacis visio desde o final da década de 1120 até a sua morte. Uma tabela cronológica simples, mostrando somente os seus envolvimentos mais importantes, mostra-nos o seguinte: 1128: Bernardo no Concílio de Troyes a respeito dos templários; 1130-39: Bernardo no Concílio de Étampes sintetiza as deliberações a respeito da conflitada eleição papal e declara válida a eleição de

Inocêncio. Este assunto vai ocupá-lo pelos próximos dez anos; 1140-41: Bernardo no Concílio de Sens a respeito do ensinamento de Abelardo; 1142-44: Bernardo como mediador entre Luís VII, o Conde Teobaldo de Champagne e a Cúria Romana; 1145-49: Bernardo prega e “acompanha” a segunda cruzada; 1147-48: Bernardo prepara e participa no Concílio de Rheims, sobre a teologia trinitária de Gilbert de la Porré; 1153: próximo de morrer, Bernardo deixa Clairvaux pela última vez para mediar entre os cidadãos de Lorraine e seu Duque, Matthias.

Neste ímpeto de atividade, Bernardo seguiu o conselho do santo que mais admirava, o apóstolo Paulo, “corrigindo, ameaçando, admoestando”. Poderíamos dizer que toda a Europa cristã era a sua abadia e que Bernardo, de acordo com o capítulo 2 da Regra de São Bento, alternava entre a ternura de um pai e a austeridade de um mestre. Seu tom não dependia da dignidade do destinatário de suas cartas; algumas das mais violentas invectivas são dirigidas contra o rei Luís VII da França e mesmo seu tão-apoiado Papa Inocêncio algumas vezes teve de sentir o lado áspero da língua de Bernardo. Além de verdadeiras campanhas epistolares - uma vez que Bernardo tomava uma causa, ele nunca parava de escrever àqueles que tinham o poder de levá-la à sua devida conclusão (certa vez isto lhe fez merecer a resposta acre de Inocêncio: “Chega de cartas sobre este assunto!”) - e inumeráveis reuniões privadas e semiprivadas, Bernardo mostrava-se o mestre da “aparição dramática”. Quando tudo falhava, Bernardo dispunha de um gesto sagrado que, dada a fé católica essencial de seus oponentes, não poderia falhar em subjugá-los. O caso mais conhecido é o do Duque Guilherme de Aquitânia, que passou anos oscilando entre as reivindicações papais conflitantes de Inocêncio e de Anacleto. Finalmente excomungado por Inocêncio, Guilherme estava presente (embora do lado de fora da catedral) para a Missa que Bernardo celebrou na sua cidade principal. Bem ciente disto, e totalmente senhor de si mesmo, Bernardo, no momento do Ecce Agnus Dei desceu do santuário com a Hóstia consagrada, deixou a igreja e, segurando o Santíssimo Sacramento diante de Guilherme, desafiou-o a resistir a Cristo na sua frente como ele estava resistindo a Ele em seu vigário. Guilherme cedeu.

Não há dúvida de que Bernardo podia ser violento. Ele prontamente o admite em várias de suas cartas e não demora em pedir perdão. Seus contemporâneos reconheceram que, por natureza, ele era iracundus, impatiens e praecipitatus. Penso que não seria errado, entretanto, de considerar esta violência como uma expressão - um expressão profética - de sua caridade mística. Por um lado, como já foi indicado, Bernardo sentia com uma rara imediatez - uma imediatez mística - qualquer coisa que ele considerava uma ofensa contra Deus e sua Igreja, seja em sua hierarquia, seja em seus leigos. Ele mesmo era diretamente tocado por o que quer que diminuísse a honra de Deus ou que ameaçasse rasgar a inconsutilis tunica que era a Igreja. Lendo suas cartas, é impossível negar o choque e a dor que ele experimenta em sua própria alma sempre que a Igreja sofra ou decaia para a mediocridade. Aonde quer que Deus in causa erat, aí também estava Bernardo. Como seu modelo Paulo, ele era “consumido de solicitude por todas as igrejas” (2 Cor 11,28; cf. SC XII,2). Do mesmo modo, sua violência denota uma tremenda coragem moral. Ele era incapaz de dissimular - fechar seus olhos a abusos que requeriam correção - independentemente das conseqüências pessoais às quais poderia levar - e não era capaz de suportar dissimulação por parte de outros oficiais da Igreja. Num sentido simbólico, pelo menos, a Vita Prima é inteiramente acurada ao recontar o sonho da mãe de Bernardo durante a sua gravidez, na qual ela dá a luz a um cachorro preto e branco que nunca pára de latir.

A intensidade da preocupação de Bernardo se entendia ao bem-estar espiritual de seus oponentes. Sem dúvida, ele se opôs, com o máximo de suas forças, à teologia heterodoxa de Abelardo (tal como ele a considerava), à eclesiologia herética de Henry de Lausanne, às reivindicações de Luís VII em favor do controle laical de ofícios eclesiásticos. Para ele, estas posições constituíam feridas e perigos objetivos à sociedade cristã, e como tais, necessitavam ser combatidos e superados. Mas o fim desejado do conflito não era a eliminação de Abelardo, Henry ou Luís da sociedade cristã. Ao contrário, o objetivo de Bernardo era a plena reconciliação de seus oponentes - reconciliação no sentido de conversão à verdade e de restauração à plena participação nesta sociedade.

Bernardo sempre afirma nas suas cartas (quanto piores fossem elas, mais ele afirmava) que ele era movido por amor em tudo o que ele dizia. Ele também era movido por medo, um medo que constituía uma dimensão deste mesmo amor. Para ele, o Juízo Final não era um pedaço de imaginação medieval - ou, se era, ele mesmo estava dentro e não fora desta paisagem imaginária. Era o real, decisivo e eterno encontro com a justiça de Deus ao qual cada ser humano estava irrevogavelmente se movendo. Bernardo estava totalmente convencido que aqueles que se opunham obstinadamente contra a lei de Deus e da Igreja estavam destinados à condenação. Ele via suas cartas como sendo medicinais, como advertências - difíceis de engolir, talvez, porém muito mais suaves do que os castigos que inevitavelmente adviriam se estas advertências não fossem ouvidas. Assim ele pôde citar o livro dos Provérbios a Luís VII ao final de uma carta especialmente forte: “As varadas de um amigo são melhores que os abraços enganosos de um inimigo”. Talvez este seja o significado essencial da avaliação gnômica de Bernardo pelo Bem-aventurado Issac da Estrela: “Para todos,sem exceção, Bernardo era temível - terribilis - em seu amor e amável ao incutir o temor” (Sermão 52,15).

Eu propositadamente expus os casos em que Bernardo aparece fantasiado de “wheeler dealer”. Deve-se afirmar que as cartas também revelam uma atividade mediadora mais suave do abade de Clairvaux - encorajando um bispo a renunciar a suas reivindicações por uma área disputada de terra, recordando a um jovem abade de uma casa filha que os monges que lhe estão causando dificuldade e fazendo-o considerar a possibilidade de uma resignação precoce são seus filhos: “Se há alguém tão espiritualmente saudável que o ajude ao invés de necessitar ser ajudado por você, você não é tanto seu pai senão seu páreo, não tanto seu abade senão seu colega” (Ep 72).

Enquanto preparava esta conferência, vinha-me continuamente à mente a figura de um contemporâneo de S. Bernardo, outro abade beneditino, que é como um contraste a Bernardo: Pedro o Venerável. Aonde Bernardo é impulsivo, Pedro é reflexivo; aonde Bernardo é decidido, Pedro ainda está pensando; aonde Bernardo julga, para depois reconciliar, Pedro deixa de julgar e assim obvia a necessidade de reconciliação. Eles são famosos pelas posições divergentes numa série de disputas famosas. No caso de Abelardo, Pedro considera as dificuldades teológicas de Abelardo mais como imprecisões que heresias e obtém do papa a permissão de acolher Abelardo em sua própria abadia de Cluny após sua condenação. No caso da disputada sé de Langres, Pedro acredita que as acusações contra o bispo que foi nomeado são em grande parte exageradas e que não há necessidade de removê-lo do seu cargo. Com relação à cruzada, quando Pedro fica sabendo da intensidade com a qual Bernardo está nela engajado pregando, lhe escreve, sugerindo que Bernardo primeiro estude o Alcorão antes de convocar uma guerra contra os infiéis. Esta é uma das poucas cartas dirigidas a Bernardo que sabemos que nunca obteve uma resposta. Eles eram tão diferentes, que a visão revisionista de Adriaan Bredero está provavelmente correta ao afirmar que a grande amizade entre os dois abades era uma piedosa ficção mais que algo real. Certamente para nós, modernos, Pedro nos atrai de imediato enquanto que Bernardo, neste aspecto de sua vida, é um “gosto adquirido”. Gostaria de declarar publicamente minha preferência pessoal por Bernardo. Mas recomendo Pedro como o objeto de um futuro EMLA.

Mesmo com toda sua convicção, zelo e infatigabilidade, Bernardo perdeu muitas de suas batalhas no decorrer da vida. Teologia, relações entre Igreja e Estado, o controle da Terra Santa, todas foram em direções contrárias às que ele propôs. Os historiadores dizem que sua grande atividade reformadora só deu frutos dentro de sua própria Ordem. Le Goff, concordando em ver em Bernardo “o maior intérprete espiritual do feudalismo”, o caracteriza como “o campeão das causas que já estavam perdidas” mesmo enquanto as defendia (4). Todavia, Bernardo tem algumas lições fundamentais a nos comunicar a respeito da paz e da promoção da paz.

    1) A paz tem um conteúdo. É o fruto e a glória de uma sociedade harmoniosa e ordenada, fundada sobre os valores do Evangelho. Neste contexto podemos pensar na primeira mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, “Na Verdade a Paz”, e sua referência à definição de Agostinho da paz, tranquilitas ordinis.
    2) O trabalho da paz requer contínua reflexão sobre a inter-relação entre diversos aspectos da nossa sociedade: Igreja e Estado, universidade e seminário, cultura cristã e cultura secular. Estas realidades estão em relação entre si e não são simplesmente encostadas umas com as outras. Como fazê-las funcionar juntas?
    3) Os monges fazem parte da societas christiana. Nós também não deixamos a Igreja ao deixar o mundo. Se Bernardo pode ser tomado como exemplo, alguns contemplativos são chamados a envolvimento social e político direto. O que nós pensamos a este respeito na América Latina?
    4) Mediação inclui desafio, oposição, correção e não fracassa por estes elementos se fazerem presentes. O que não pode estar ausente são uma expressão genuína da própria posição e uma identificação real com o bem espiritual de seu oponente.
    5) Nós, como cristãos, estamos envolvidos no destino da Terra Santa. O locus geográfico da Encarnação não é um detalhe acidental. Por causa disto, cristãos devem se tornar uma “terceira parte interessada” no laborioso e difícil diálogo entre muçulmanos e judeus na resolução do conflito entre Israel e Palestina.

São Bernardo viveu em 4 Jerusaléns: a Terra Santa, seu próprio mosteiro de Clairvaux, a sociedade crista de seu tempo, e “a Jerusalém do alto, nossa mãe”. Ele, grande expositor patrístico das Escrituras que era, sabia que os três primeiros são somente prefigurações, imagens. Mas para ele eram imagens verdadeiras, imagens do Novo Testamento (como diria Orígenes) que pertencem à beata pacis visio. Se Bernardo tem uma contribuição a fazer a esta EMLA como uma testemunha da paz, é a de nos desafiar a fazer as três primeiras Jerusaléns - nosso mosteiro, nossa sociedade, a terra santa - sacramentos da quarta. Bernardo pode não ter sido um homo pacificatus, mas sem dúvida alguma ele era um pacificus: o agente incansável de uma paz que pretendia abraçar e informar toda a sociedade de seu tempo.

Bernardo Bonowitz, OCSO
Mosteiro N. Sra do Novo Mundo
Campo do Tenente (PR) Brasil


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