Página en español    

X EMLA - Palestras

A Figura Dos Irmãos De Atlas

Foi-me pedido uma apresentação breve que ajude aprofundar a reflexão acerca da figura dos irmãos do mosteiro de Atlas, como expressão viva da paz beneditina.

Um problema na maneira de abordar o tema é se devemos pensar no singular ou no plural, isto é, falamos da figura dos irmãos ou das figuras dos irmãos? O dilema nos introduz de cheio no próprio caráter da paz beneditina.

Podemos inspirar-nos no seguinte texto da Regra, para dar o contexto adequado; São Bento nos diz, no final do capítulo 72,11-12: Nada absolutamente anteponham a Cristo, e que Ele nos conduza juntos, para a vida eterna. Aqui está a medula da paz beneditina: Cristo como centro de comunhão na comunidade monástica e na comunidade humana, e nesta comunhão completa e muito matizada, se dá a paz e a vida eterna.

Consideremos então a figura dos irmãos.

Começarei com um breve resumo histórico, retirado da carta circular de Dom Bernardo Oliveira, Abade Geral O.C.S.O., intitulada “Tibhirine Hoy”, datada de 21 de maio de 2006.

Depois, a partir do testamento do P.Christian de Chergé, esboçarei a conexão entre comunidade, compromisso e paz, e por último, apontarei a realidade global da paz como visão de Deus em paralelo com a de São Bento, no final de seus dias.

História:

No transcorrer do ano 1996, a situação sócio-política da Argélia era difícil para qualquer cidadão e estrangeiro, por causa da insegurança do país. Nesse ano e nos três anos precedentes, entre uma multidão de vítimas da repressão e do terrorismo, 19 religiosos e religiosas cristãos deram testemunho com o próprio sangue de amor evangélico ao povo e a muitos muçulmanos abertos à convivência e ao valor do diferente.

Nossos Irmãos de Atlas foram raptados na noite de 26 a 27 de março, e se perderam na obscuridade das trevas. Só um mês mais tarde, a 26 de Abril, o comunicado 43 do Grupo Armado Islâmico (GIA), datado de 18 de abril e assinado pelo Emir Abou Abdel Rahman Amin (aliás: Djamel Zitouni) é publicado no diário Al Hayat de Londres. Em tal comunicado se explicam os motivos “teológicos” do rapto. Poucos dias mais tarde, a 30 de abril, uma pessoa de nome Abdullah é delegada para deixar na embaixada da França, no Argel, uma fita cassete com as vozes dos sete monges, registradas na noite de 20 de abril. Tal gravação, desconhecida por nós até aquele momento, é imediatamente autenticada pelo Arcebispo de Argel, Mons. Henri Teissier.

Várias semanas de incertezas se passam. Finalmente, a 23 de maio, a Rádio Medi 1 (rádio franco-marroquina) difunde um novo comunicado da GIA (o nº 44), dando a conhecer assim, a morte dos monges e o sentido da mesma para os raptores, a execução teve lugar na manhã de 21 de maio.

A comunidade, o compromisso e a paz

O testemunho da paz beneditina surge de uma prática muito concreta, não é uma teoria, mas uma vida. Sabemos por experiência, e pelo que nos indica a Regra, que a paz se dá em meio a um árduo trabalho. Temos que buscar a paz e correr atrás dela, harmonizando as diferenças na vida com a verdade de Cristo que buscamos juntos.

O caminho da comunhão e da paz é o do compromisso nesta busca em conjunto. Isso ressalta no testemunho dos irmãos de Atlas. Fizeram um caminho comunitário que implicava o compromisso dos monges entre si e com o povo argelino, baseado no amor de Cristo.

O compromisso está na entrega, disse o Pe.Christian: Eu quisera que minha comunidade, minha igreja, minha família, recordasse que minha vida foi ENTREGUE a Deus e a este país. A entrega é uma sementeira, e o que se realiza no coração, semeia-se na comunidade e nas relações da comunidade com o ambiente.

Esta entrega implicou, para eles, viver a vida monástica na Argélia, na contra-corrente, assumindo os riscos da violência que os rodeava e promovendo a paz em todas as relações.

E estejamos certos de que essa entrega não é a do cordeiro inocente, mas a daquele que sabe que sua vida “não tem mais valor que a outra vida, mas, tampouco tem menos. De qualquer maneira, não tem a inocência da infância. Vivi bastante (diz o Pe.Christian) para saber-me cúmplice do mal que parece, desgraçadamente, prevalecer no mundo, inclusive do que poderia golpear-me cegamente”.

No coração da entrega e, portanto, do compromisso, está o conhecimento de si mesmo como cúmplice, como pecador, como alguém necessitado de perdão; tudo isto é essencial para a paz. Por isso nos diz Christian: ”Desejaria, chegado o momento, ter esse instante de lucidez que me permitisse pedir o perdão de Deus e o de meus irmãos (todos) os homens, e perdoar, ao mesmo tempo, de todo coração, a quem me tivesse ferido”.

O compromisso tem que ser realista, com respeito a si mesmo e ao próximo. Requer o perdão e a conversão.

Resumindo: não há paz sem uma entrega que implica um compromisso-base firme de comunidade, vivida não em forma ideal, mas enfrentando as diferenças; esta vivência exige o perdão e pode requerer a perda da própria vida.

A visão:

Mas a perda da própria vida nos altares do compromisso com a vida e com a paz é uma porta aberta para a contemplação e a vida eterna. O Pe. Christian nos diz: ”Minha morte, evidentemente, parecerá dar razão aos que me trataram, à primeira vista, de ingênuo ou de idealista: Digam agora o que pensam disto!. Porém, estes têm que saber que por fim será liberada minha mais pungente curiosidade. Então poderei, se Deus quiser, fundir meu olhar no do Pai, para contemplar com Ele Seus filhos do Islã, tal como Ele os vê, inteiramente iluminados pela glória de Cristo, frutos de Sua Paixão, inundados pelo Dom do Espírito, cujo gozo secreto será sempre, o de estabelecer a comunhão e restabelecer a semelhança, jogando com as diferenças.”

Para mim, esta contemplação que Christian desejava, e que de alguma maneira já experimentava, pois o mostra com sua vida, implica uma visão global da realidade em que se harmonizam as diferenças: isto evoca para mim a visão de São Bento, no final de sua vida: “E eis que, enquanto dormiam os irmãos, o homem de Deus, Bento, solícito em velar, se antecipava para a hora da oração noturna de pé, à janela, e orava ao Deus onipotente. De repente, àquelas altas horas da noite, viu projetar-se no alto uma luz que, difundindo-se em torno, afugentava todas as trevas da noite e brilhava com tal fulgor que, resplandecendo em meio à obscuridade, era superior à do dia. A esta visão, seguiu-se um fato maravilhoso; porque... apareceu ante seus olhos todo o mundo, como que concentrado em um só raio de sol” (São Gregório Magno, livro II dos “Diálogos”).

Esta é a visão de paz que recolhe tudo na luz de Deus e afugenta assim as trevas. A partir de sua entrega radical os irmãos de Atlas viram também esta luz, e a partir disto pôde Christian dizer:

Por esta vida perdida, totalmente minha e totalmente deles, dou graças a Deus que parece tê-la aceitado inteiramente para esse GOZO contra e apesar de tudo. Neste “Graças!” em que tudo está dito, de agora em diante sobre minha vida, eu os incluo, supostos amigos de ontem e de hoje; bem como a vocês, amigos daqui, junto a minha mãe e meu pai, minhas irmãs e meus irmãos, cêntuplo a mim concedido, como foi prometido! E a ti também, amigo do último instante, que não terás sabido o que fazias. Sim, para ti também pronuncio este GRAÇAS! e esse A-DEUS, em cujo rosto te contemplo. E que nos seja concedido reencontrar-nos, como ladrões felizes, no paraíso; assim o queira Deus, nosso Pai, teu e meu.
AMEN! IM JALLAH!.

A paz requer contemplação e desemboca na contemplação, e está associada à ação de graças. Deus queira que, monges e monjas, possamos ser, com nossa entrega, semente de paz, semeada neste mundo turbulento, visão de uma nova irmandade gozosa!

Sugiro algumas perguntas para ajudar a reflexão:
Vemos na entrega radical, pessoal e comunitária, a semente da paz que queremos partilhar em nossas sociedades?
Entendemos a paz como tarefa de vida na diversidade?
Como trabalhamos o perdão para que dele flua a paz?
Entendemos a paz como visão de Deus?

Pe. Plácido Álvarez, O.C.S.O
Mosteiro Trapista Nossa Senhora dos Andes.
Mérida, Venezuela,
ABECCA


« retornar à página anterior


página inicial  .  contato  .  topo da página