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Um Testemunho da Paz

Falar de Dom Matthias Schmidt, para quem conviveu com ele, ainda que por pouco tempo, é algo muito prazeroso, sobretudo porque ele faz parte do rol daqueles que deixaram marcas profundas nos caminhos da evangelização no Brasil e em toda a América Latina.

Dom Matthias nasceu a 21 de abril de 1931, em Nortonville, uma pequena e aconchegante cidade do Kansas, nos Estados Unidos. Era criança quando seu pai, Leo Peter Schmidt, faleceu, e ele seguiu com a mãe, Ana Weishaar Schmidt, e os irmãos Leon, Jerome e Lucy, para a cidade de Atchison, onde iniciou os estudos, fez a primeira comunhão e, mais tarde, quando terminava a faculdade, ingressou na Abadia de São Bento. Ali ele fez sua primeira profissão monástica no dia 11 de julho de 1952, e sua profissão solene no dia 11 de julho de 1955. E no dia 30 de maio de 1957 recebeu a ordenação sacerdotal.

Um ano após, o cardeal Angelo Roncalli foi eleito papa com o nome de João XXIII, e, logo que eleito, ele fez um forte apelo para que as congregações religiosas da Europa e dos Estados Unidos marcassem presença nos países mais pobres, entre os quais os da América Latina.

Com a inauguração de Brasília, o bispo Dom José Newton apelou para a Abadia de Atchison solicitando um mosteiro beneditino na futura cidade satélite de Gama. Foi assim que o Abade Cuthbert McDonald decidiu enviar três monges ao Brasil, para fazer, no Distrito Federal, a fundação de um mosteiro e um colégio.

O abade solicitou dez voluntários com interesse nessa fundação, dos quais seriam escolhidos três: Dom Mathias Schmidt, Dom Otho Sullivan e Dom Estevan Burns.

Dom Matthias era um jovem muito talentoso e a Abadia tinha um plano de transformá-lo num proeminente professor da Saint Benedict’s College. Por isso ele havia se especializado em biologia marinha e lecionava nessa Faculdade da Abadia de Atchison. Mas Deus tinha um outro plano para ele. E para que esse plano fosse realizado, ele foi enviado ao Brasil como Prior da nova comunidade.

Ao chegar ao Brasil, D. Matthias e os dois outros monges tiveram que enfrentar um problema: o bispo da nova Capital Federal tinha mudado de idéia e não se interessava mais pelo que ficou acertado com o Abade. Sem sequer ser devidamente acolhidos em Brasília, os três, a convite de D. Benedito Cóscia, foram parar na Diocese de Jataí, no Sudoeste de Goiás, onde podiam escolher qualquer uma das cidades da diocese para instalarem o mosteiro. Não lhes faltaram o acolhimento e o convite do Arcebispo D. Fernando Gomes dos Santos para se fixarem em Goiânia. Eles receberam também um convite para assumirem o Mosteiro de São Bento de Vinhedo, que se encontrava em crise. Mas o compromisso com o bispo de Jataí já estava assumido. E prevaleceu.

A primeira cidade a ser verificada era a de Mineiros, 430 km longe de Goiânia. Para lá seguiram com o intuito de simplesmente observá-la, para depois visitarem as demais. Mas ao chegarem àquela cidade tiveram uma grande surpresa: quase toda a população se encontrava à sua entrada, portando faixas de boas-vindas. Com isso, eles ficaram sem jeito de seguir viagem. E ali se instalaram.

No ano seguinte, 1962, chegaram D. Heriberto Hermes, hoje Bispo de Cristalândia – TO, e D. Ralph Koehler, que mais tarde se tornaria Abade, em Atchison. Nesse ano foi dado início à construção do prédio do Mosteiro São José, que seria inaugurado dois anos mais tarde, para acolher ainda diversos outros monges que seriam enviados pela Abadia, entre os quais D. Eric J. Deitchman e D. Lucas Wenzl, que chegariam em 1965.

D. Matthias, além de Prior até 1965, ocupou o cargo de Pároco por dez anos. Em 1972 ele deixou Mineiros para se tornar Bispo Auxiliar de Jataí, por quatro anos, até ser chamado para ocupar o cargo de bispo diocesano de Ruy Barbosa, no sertão da Bahia, e dar início, ali, a uma nova história.

Mas antes, convém ressaltar que o acolhimento aos monges em Mineiros transformou a vida dos mineirenses. O acolhimento àqueles que trazem a paz sempre transforma a vida de quem acolhe. Foi assim com Zaqueu que recebeu Jesus em sua casa (Lc 19,1-9), foi assim com Barnabé que acolheu Paulo em Jerusalém (At 9,26-28) e com a comunidade de Antioquia que acolheu Barnabé e Paulo (At 11,19-26). Dom Matthias era um homem de Deus que trouxe consigo a paz. Ele trouxe a paz infundida pela vida monástica, pela vida de um homem de oração, que tem um olhar de misericórdia, que sabe sorrir e estender os braços para afagar no peito a criança. E mais ainda, afagar as mais desprezadas criaturas, às quais já não sobraram mais nada a não ser uma grande dor sufocada no seu íntimo e um coração ainda capaz de clamar por afeto, por ternura, por amor.

Na Diocese de Jataí, em todos os lugares em que chegava, Dom Matthias era acolhido calorosamente por uma multidão formada por aqueles aos quais ele sabia acolher de coração. O curioso é que essa empatia gerada pelo carisma do bispo auxiliar, não foi fácil de ser gerida e muito menos digerida pelo bispo diocesano, mais recatado na Cúria, de onde só costumava sair para confirmar os batismos dos fiéis, nas paróquias, ou para dar encerramento aos seus movimentos de cristandade.

A verdade é que os anos 70 eram anos difíceis para os que se movimentavam na busca pela liberdade. A ditadura, com braço militar, tornou o Brasil pequeno para a maioria dos brasileiros. Os que tomaram o poder pela força viam em qualquer questionamento aos seus propósitos uma “subversão”, e eram levados, apressadamente, a tachar de “comunistas” ou de “inimigos” todos os que consideravam subversivos.

Esta visão não deixou de perpassar também a Igreja no Brasil. O Papa Pio XII tinha excomungado, anos antes, todos os comunistas e também os que colaborassem com eles, enviando às dioceses e paróquias uma circular comunicando esse fato. E como, nessa época, diversos missionários tinham vindo dos Estados Unidos sob o argumento de que iriam livrar esta terra do comunismo, a ditadura veio de encontro aos seus interesses. Por isso, alguns bispos ficaram quietos diante do que estava acontecendo e incomodados com um pouco mais de movimentação de seus padres e até mesmo de seus fiéis.

O fato é que Dom Matthias, ainda sem ter muita consciência daquilo que estava acontecendo, talvez porque vivíamos numa região sem grandes conflitos, era um bispo que se movimentava muito e ia atrás das comunidades e com elas celebrava.

Em 1976, foi nomeado Bispo de Ruy Barbosa, no sertão da Bahia, e ao se transferir para lá, deparou-se com uma realidade bem diferente da de Goiás. Era uma realidade gritante que o transformaria num testemunho vivo de paz, uma vez que ali vivia um povo do qual já se tinha roubado quase tudo e do qual se tentava roubar até mesmo a esperança.

Como este novo bispo do sertão era um homem que aprendeu com São Bento a escutar os preceitos do Mestre e a dar ouvidos aos irmãos, ele começou sua nova missão visitando todas as comunidades e a elas escutando. E assim, escutando as comunidades, ele foi estreitando os mais firmes laços com os pobres. Tocou-lhes o coração e deu-lhes a segurança daqueles que se sentem tranqüilos diante de seu pastor.

Dom Matthias sabia falar tão bem quanto escutava. Era um excelente comunicador, pregava com grande carisma e as suas homilias eram bem entendidas pelo povo. Suas palavras eram claras e chegavam ao mais íntimo daqueles que tinham fome e sede de justiça.

Com tais palavras denunciavam-se estruturas iníquas. Com elas se fazia a defesa da verdade e da vida e se tornou possível vislumbrar as necessidades de uma reforma agrária, da participação do povo nas decisões e de uma luta pela educação.

Mas suas palavras também incomodavam os coronéis que exploravam e oprimiam o povo no sertão e davam o nome de “paz” à própria subjugação dos pobres enquanto esses permaneciam sem se mexer. Tais coronéis, muitas vezes agindo como “filhos das trevas”, distribuíam, sob as portas das casas, pela madrugada, panfletos com teor falso e assinatura também falsa de D. Matthias, como se ele fosse defensor do comunismo e instigador da violência (Cf. Ser Semente, p. 113- 129).

Indignado com as manipulações dos governantes, que se beneficiavam da seca, e da mídia, que escondia o fato de que as pessoas estavam morrendo de fome, ele não poupou palavras para apontar a seca como “problema político” e denunciar a fome como “o maior problema do nosso povo” (Cf. Ser Semente, p. 134-139).

Em suas viagens pelo mundo, em Roma, ele expôs sobre a espiritualidade beneditina no congresso internacional dos abades (1984), apontando o acolhimento dos irmãos sofredores como forma de servir ao Cristo.

Juntamente com outros bispos do Brasil, ele prestou uma solidariedade constante aos povos da América Central, do Caribe e do México, participando ativamente de jornadas internacionais. Também expôs nos Estados Unidos e Canadá os problemas específicos dos povos da América Latina e os problemas comuns, com a mesma raiz, vivenciados pelos povos da América do Norte e da América do Sul, especialmente os relacionados à terra.

Este homem que um dia foi preparado por uma comunidade monástica para lecionar biologia marinha foi preparado por Deus para doar sua vida aos povos do mais seco sertão do Brasil – sertão que muitos acreditam que um dia irá virar mar. Conforme suas palavras, naquele sertão nordestino, onde falta água, o valor de ser biólogo marinho “está mais perdido do que uma criança no mato”. Ele disse isso para arrematar em seguida: “Todavia aqui encontrei um valor maior: ser pastor do povo de Deus” (Ser semente, p. 49). E que grande pastor foi esse que Deus enviou ao sertão e chamou para si, na manhã de 24 de maio de 1992, enquanto fazia o que sempre fez – e que um beneditino sempre faz – na vida: rezar!

Don Josias Dias da Costa, OSB.
Prior del Monasterio San José
Mineiros – GO


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