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X EMLA - Palestras

...e nunca deseperar da misericordia de Deus (RB 4,76)

Em setembro de 1958, realizou-se no Mosteiro de Montserrat, a primeira Semana de Estudos Monásticos da Península Ibérica e, em 1961, teve lugar a quarta no Mosteiro de Poblet. As conferências apresentadas nesta última foram publicadas em um volume intitulado Los Monjes y los Estudios .

A evolução posterior das reuniões, tanto no que se refere aos participantes quanto aos trabalhos apresentados , mudou de maneira considerável o rumo inicial. Mesmo não tendo participado de nenhuma delas, sempre houve uma representação da comunidade de Poblet, meu mosteiro de profissão.

Recebi o convite do Presidente da UMLA – União Monástica Latino-americana – para participar deste X Encontro Monástico Latino-americano. Vi na convocação que também me pediam para fazer uma intervenção. Uma vez que meu programa de trabalho para este ano exigia diversas viagens à América Latina, pude participar um pouco de vossas sessões e usufruir de vossa companhia. Entretanto, não apresento nenhum trabalho de investigação, pois não disponho do tempo requerido para tanto. Se, por acaso, foi publicado algum escrito de minha autoria, trata-se quase sempre de intervenções ocasionais que, por motivo de meu serviço, tive que fazer, primeiramente como abade do Mosteiro de Poblet, e depois, devido ao lugar que atualmente ocupo na Ordem de Cister: homilias, alocuções, cartas de visita e cartas às comunidades etc.

Minha intervenção não será diferente nesta ocasião, uma vez que poderei apenas expor brevemente algumas vivências e impressões decorrentes do exercício de minha função; pode-se, pois, considerá-las como minha contribuição indireta ao tema proposto: A paz beneditina: dom e desafio para a América Latina.

Já no Prólogo de sua Regra, São Bento recomenda ao monge: E procurando o Senhor o seu operário na multidão do povo, ao qual clama estas coisas, diz ainda: “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?” Se, ouvindo, responderes: “Eu”, dir-te-á Deus: “Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e segue-a” . Se fizemos a profissão segundo a Regra de São Bento, parece evidente que nossa vida deve ser pautada por ela. Com efeito, a Regra apresenta o monge como alguém que procura Deus , mas também como alguém que procura a paz e segue-a . Por isso, uma comunidade de tradição beneditina, se é conseqüente com sua profissão, será um desafio não somente para a América Latina, mas em qualquer lugar onde esteja situado um mosteiro no qual ela habite.

Cada um pode se perguntar acerca do significado que tem para si mesmo a Regra de São Bento e também recordar que práticas encontrou em seu mosteiro com relação à leitura diária de um capítulo da Regra. Se numa comunidade que faz profissão de viver sob a Regra de São Bento, ela não é lida nem comentada, como poderá tal comunidade ter sua identidade monástica definida? No dia de sua bênção abacial, o abade recebe um exemplar da Regra com a fórmula: Recebe a Regra dos Mosteiros transmitida pelos Santos Padres, para dirigires e guardares os irmãos que Deus te confiou, na medida em que ele te sustentar e a fraqueza humana permitir . Porém, se logo depois o restitui ao bibliotecário – talvez um belo exemplar! – sem jamais tê-lo de volta em suas mãos e nunca comentando o seu conteúdo, como poderá formar sua comunidade e que identidade monástica lhe comunicará?

O Capítulo Geral especial da Ordem Cisterciense, convocado para ser celebrado em duas partes (1968-1969), ao término do Concílio Vaticano II, e como aplicação do Decreto Perfectæ Caritatis por ele promulgado, deu às comunidades uma Declaração sobre os principais elementos da vida cisterciense atual. Nesse documento, se fala das fontes de nossa vida, colocando-se como a primeira delas o Evangelho e o Magistério da Igreja, seguidos da Tradição monástica, citando a Regra de São Bento no seguinte texto:

Entre os documentos da vida monástica, tem e terá sempre o primeiro lugar a Regra de São Bento, insigne testemunha das idéias e experiências do monaquismo antigo. Os monges beneditinos e cistercienses aprofundavam o conhecimento da Regra por contínua meditação, interpretavam-na e muitas vezes a adaptavam aos fins necessários do tempo em que viviam. Em conseqüência disso, as idéias principias da Regra perpassaram toda a história do Ocidente e até hoje são parte essencial da nossa herança monástica. Para nós, porém, ela não é somente a fonte permanente que orienta a autêntica organização da nossa vida, mas essa Regra de São Bento, em seus elementos essenciais e permanentes, tem autoridade absoluta, quando se trata da linha fundamental da nossa vida espiritual ou dos elementos constitutivos da vida cenobítica.

A Regra é também um documento histórico, intimamente dependente das condições de seu tempo. A sua observância e interpretação sofreram, através dos séculos, com as condições e a mentalidade dos tempos. Portanto, na prática, ela nunca foi observada “ad litteram” (ao pé da letra), mas conforme as diversas interpretações e adaptações. Em nossos dias, porém, visto que as condições da vida humana se transformaram muito mais profundamente do que em qualquer época passada, a Regra escrita no século VI ainda menos poderá legislar sobre as particularidades de nossa vida. Uma tal fidelidade material não corresponderia às intenções de São Bento e nem à liberdade com que os monges dos séculos passados dela se serviram.

De modo mais imediato, a Regra encarna-se na tradição e na vida atual de cada mosteiro que, sob a luz do Espírito Santo e a reta direção do Abade, guarda a Regra como uma inspiração sempre atual e viva. Por isso, sob esse aspecto, devemos também estudá-la e vivê-la, a fim de que, desprezando os elementos obsoletos ou contingentes, ela permaneça sempre para nós a verdadeira mestra da vida.

Neste sentido, portanto, a Regra seja fonte e norma de vida, que usamos com filial reverência e liberdade cristã para realizar a atualização de nossa vida, e não uma coletânea de preceitos materiais que nos inibe e impede de encontrar soluções verdadeiramente adequadas para os nossos problemas.

Infelizmente nem sempre se lê esse documento dentro de um ato especialmente reservado para ele. Algumas comunidades o fazem no refeitório, durante o jantar. Entretanto, sabemos por experiência que tal leitura escutada naquele momento equivale a uma música de fundo. Ultimamente, e com a intenção de recuperá-la, uma ou outra comunidade decidiu escutar o texto em silêncio, depois de os serventes terem retirado os pratos e antes dos monges se levantarem da mesa. Em alguns mosteiros se lê antes das Completas, como Lectio collationis.

Às vezes, tem-se a impressão de que alguém ambiciona chegar ao abaciado motivado pela mudança de status social que isso implica: imediatamente após a eleição abacial, aparecem o escudo heráldico do neo-eleito com o lema bíblico escolhido, as insígnias prelatícias, a mitra e o báculo pastoral. Todos esses elementos mais parecem ser marcas de opressão, ou seja, denotam a frustração que tal pessoa carregava dentro de si, aflorando agora à superfície, fato que todos aceitam sem questionar abertamente.

Ao contrário, quando a cruz peitoral é entregue ao neo-eleito, se diz: Recebe este sinal da cruz, em memória daquele cujas vezes cremos que fazes agora no mosteiro , quer dizer, sinal de que ele deve dar a vida por seus monges, coordenando os dons e talentos dos co-servos para o bem comum da comunidade . Se o sinal se esvazia do conteúdo que deve transmitir, então se converte em marca de opressão. O mosteiro é chamado de Dominici schola servitii , escola onde se ensina o serviço que o Senhor prestou dando a vida pelos irmãos. Se, pois, o abade não exerce seu ministério docente, seu ser imagem de Cristo será contestada.

Como podemos nos limitar a organizar encontros para escutar conferências bem elaboradas e estruturadas, quando na própria comunidade a Regra não tem o lugar que lhe corresponde como uma das principias fontes de nossa vida, que lhe dará identidade e segundo a qual fazemos promessa de obediência, estabilidade e comportar-se como monge? Que aplicação têm em cada comunidade as talvez belas teorias escutadas?

Ao visitar as comunidades e constatar, surpreso, que os jovens não recebiam a devida instrução sobre a Regra; que alguns ignoravam o Decreto Perfectæ Caritatis e que este Decreto fora dado pelo Concílio Vaticano II, também ignorado por eles; e que, por conseguinte, desconheciam a Declaração do Capítulo Geral sobre os principais elementos da vida cisterciense atual ; que transcorreram quarenta anos de pós-Concílio e que naqueles documentos estavam contidos os princípios para uma adequada renovação promovida pelo Concílio, vi então a urgente necessidade de pedir à Congregação para os Institutos de Vida Consagrada uma legítima explicação do art. 78 da Declaração que diz: Tudo o que segue, aplica-se também aos nossos mosteiros femininos, exceto o que, pela própria natureza do assunto, lhes for contrário. As monjas de nossa Ordem não constituem uma “segunda Ordem” ao lado da “primeira Ordem”, dos monges, mas fazem parte integralmente da mesma Ordem Cisterciense. Seus mosteiros são verdadeiramente independentes, embora no foro jurisdicional dependam, algumas vezes, do Abade imediato ou do Bispo. Além disso, muitos desses mosteiros fazem parte de nossas Congregações, regendo-se por leis semelhantes às dos monges. Por isso, deve ser promovida eficaz e constantemente, a participação gradativa das monjas nas decisões que dizem respeito a sua vida e mesmo à própria Congregação e à toda a Ordem ; e do art. 14 das Constituições: O que se diz nestas Constituições a respeito dos mosteiros de monges ou a respeito dos monges vale também para os mosteiros de monjas ou para as monjas, a não ser que se diga expressamente o contrário, ou que seja um fato evidente pela natureza do assunto .

A resposta foi que os textos são tão claros que não precisam de legítima interpretação .

À vista dessa resposta, fez-se a petição para ser celebrado um Capítulo Geral único, quer dizer, formado por Abades e monges delegados, Abadessas e monjas delegadas, o qual foi convocado para setembro de 2000. Este Capítulo releu os documentos elaborados e aprovados em 1968-1969, revisados no Capítulo Geral de 1974 e aprovados definitivamente no de 1980. Os textos, adaptados à nova situação, foram postos em votação e receberam 90% dos votos favoráveis do Capítulo Geral único. Assim terminaram os 35 anos de pós-Concílio e a Commissio pro monialibus , composta por algumas monjas observadoras que participaram somente da pré-eleição do Abade Geral, no ano de 1995, terminou sua missão ao conseguir aprovar o art. 78, para cuja finalidade fora criada: Por isso, deve ser promovida eficaz e constantemente, a participação gradativa das monjas nas decisões que dizem respeito a sua vida e mesmo à própria Congregação e a toda a Ordem .

Tal resultado foi obtido passados pouco mais de 20 anos da instituição da mencionada Commissio, já como fruto do que fora dito e aprovado no Capítulo Geral de 1995. As gestões posteriores junto à Santa Sé tornaram possível a celebração de um Capítulo Geral com a presença de todas as abadessas como membros de pleno direito. Foi o que aconteceu no Capítulo Geral de 2000. Além de mudar vários artigos das Constituições que contemplavam a nova composição do Capítulo Geral, também foram aprovados outros documentos de não pouca importância: a Ratio Institutionis na Ordem Cisterciense, um Statutum pro fundationibus in Ordine Cisterciensi, um Ordo celebrandi Capitulum Generale, além de uma Mensagem sobre a comunhão entre a Família Cisterciense como fruto do oitavo centenário da fundação de Cister. Assim entramos no Terceiro Milênio durante o Ano Santo com a identidade da Ordem clarificada .

Obtido esse objetivo, foram programados os Cursos de Formação Monástica, organizados em um triênio. Nestes Cursos constam as mesmas matérias dadas no Instituto Monástico de Santo Anselmo, ministradas pelos mesmos professores, com um total de quarenta e cinco créditos, ou seja, quinze créditos por ano, sem necessidade de que os alunos permaneçam em Roma durante dois anos completos, freqüentando o Instituto Monástico. Pois nem todos os mosteiros podem prescindir de seus professos durante tão longo período de tempo. Assim todos os monges e monjas ouvem uma mesma leitura dos documentos e têm uma mesma linguagem, sem que com isso se pretenda impor uma uniformidade.

Esta iniciativa de oferecer semelhante oportunidade às comunidades para a formação dos jovens professos, monges e monjas, é uma conseqüência lógica da evolução ocorrida na Ordem a partir do Capítulo Geral de 2000. Não é nada de novo para quem se tenha interessado pelo problema da relação entre sacerdócio e monaquismo, e acompanhado a evolução que se produziu sobre esse tema nos últimos sessenta anos. A generalização do sacerdócio de todos os professos de um mosteiro deixou de ser algo determinante: a tonsura era recebida antes da profissão solene, de modo que esta já se fazia como clérigo; em geral, nos mosteiros sem atividade pastoral, deu-se um passo adiante: durante o período em que se estuda teologia, não se exclui nem inclui a ordenação sacerdotal.

Com feito, o monaquismo, em sua dimensão leiga, recuperou o seu lugar na vida da Igreja e tornou-se evidente que, por si só, sua existência é nela plenamente justificada. O estudo da Teologia, da Bíblia e das demais ciências eclesiásticas não é privativo dos monges sacerdotes, mas é aberto para todos. Pois, o monge como alguém que procura a Deus deve, com razão, procurar crescer na fé e no conhecimento da maneira concreta de vivê-la. Por isso, o Triênio de Formação Monástica está aberto a monges e monjas, como também estão as Faculdades de Teologia e outros centros de estudo.

Neste ano de 2006, concluímos o segundo Triênio. A convivência no Colégio São Bernardo, que assume a responsabilidade pelos alunos, foi um excelente complemento para a formação monástica dos estudantes – monges e monjas. Seria desejável que todos os jovens professos dos mosteiros freqüentassem o Triênio durante o período de sua profissão simples, a fim de que, antes da profissão solene, possam clarificar sua identidade monástica, conhecendo-se a si mesmos com seus dons e talentos, mas também com os próprios defeitos. Estes últimos constituem a cruz pessoal que cada um deve carregar nos ombros para seguir o Senhor .

O Capitulo Geral, em sua Declaração sobre os principais elementos da vida cisterciense atual nos diz como se concretiza para nós este seguimento de Cristo :

A vida do monge deve ser uma imitação do Cristo humilde. Sinceramente arrependidos de nossos pecados, cônscios de nossas limitações e, ao mesmo tempo, apoiados na misericórdia de Deus, devemos procurar a sua glória e não a nossa. Com esse espírito de humildade, devemos aceitar, com serenidade, as tribulações e privações, e contentar-nos com nossos modestos meios de vida e nossos módicos resultados.

A vida monástica só pode existir sob o sinal da cruz, pois, seguindo a caridade de Cristo, que ninguém pode superar, entramos no caminho da renúncia e mortificamos o nosso corpo para servirmos o Deus vivo. Como o Cristo convidou seus discípulos a carregar a cruz, também nos convida diariamente a carregá-la.

A participação na cruz de Cristo a que somos chamados, consiste freqüentemente no seguinte: - humilhar-se, fugir da vanglória e ambições egoístas; - realizar bem o trabalho de todos os dias, que muitas vezes exige de nós tantos sacrifícios que podem, merecidamente, ser comparados com as austeridades da vida monástica antiga; - ter paciência, pois ela nos permite suportar com bom espírito, as nossas enfermidades do corpo e da alma, as fraquezas de nossas faculdades e o peso da vida comum; - amar os nossos inimigos, os que nos perseguem e caluniam; - aceitar a velhice e a morte, manifestando assim, o mais possível, a nossa fé e a esperança na vida eterna.

O programa do Triênio de Formação Monástica, no Colégio São Bernardo, da Ordem Cisterciense, compreendre matérias que contemplam a formação humanística e monástica dos estudantes. Além disso, faz com que eles tomem consciência de pertencerem a uma Ordem que se concretiza com a presença de monges e monjas das várias Congregações existentes em outras partes do mundo.

Com os trabalhos que lhes são pedidos durante o Curso, foram catalogados e informatizados o Arquivo da Cúria e a Biblioteca do Colégio, bem como o Arquivo fotográfico. Tais atividades os vinculam à Casa Generalícia, fazendo com que a considerem agora como algo que lhes é próprio.

Vertebrada a Ordem e concluídos os estudos para esclarecer a própria identidade humana, cristã e monástica, pode-se então falar em tomar parte no diálogo inter-religioso e inter-monástico, especialmente com os membros da tradição beneditina e cisterciense, orientados pela Mensagem do Capítulo Geral a todos os membros da Ordem Cisterciense para a comunhão com os demais mosteiros. Isso foi, como disse antes, o fruto do ano jubilar da fundação de Cister. Se não se tem uma clara identidade cristã e monástica, pode-se chegar a uma espécie de sincretismo folclórico que consiste em imitar hábitos e poses dos outros, porque nos parecem ser mais “monásticos” do que os próprios; ou introduzir no mosteiro correntes de espiritualidade alheias a nossa tradição, que se evidenciam pelas formas de saudação e pelas publicações expostas na sala de visitas.

Valeria a pena perguntar se por trás de frases como “purificação da memória” ou “memória histórica” não estaremos escondendo a incapacidade de reler nosso patrimônio espiritual e constitucional que tornam clara nossa identidade. Isso evitaria cairmos em ridículos “revivals” ou participarmos de movimentos eclesiais que se introduzem em nossas comunidades pelo fato de não termos recebido nada quando entramos no mosteiro. Por isso vemos comunidades cistercienses que se gabam de ser Focolares, Neo-catecumenais, ou de estarem unidas a “Comunhão e Libertação” – o que é bastante compreensível, pois deixamos de conhecer aquilo que somos e o que devemos a nós mesmos: qual é nossa identidade.

Quando desaparece o sentido do que sou, para onde vou, o que quero, então o sentido da própria qualidade humana, cristã e monástica desaparece e se perde a força para manter as distâncias devidas. É quando o caos chega à porta do mosteiro, da Congregação e da Ordem. Se tal acontece por comodidades materiais e toleramos que a confusão se aproxime em demasia, teremos então capitulado e permitido que o dilúvio do caos arrebente a barreira do dique. Somos inteiramente culpados, porque não demos a formação devida aos candidatos.

O Santo Padre tem insistido muito na importância da educação e da formação. Cito aqui um fragmento do que ele disse à Televisão alemã, em recente entrevista antes de sua viagem à Baviera:

Insistimos realmente bastante sobre a moral? Eu diria – estou cada vez mais convencido disso, como dizia em meu recente diálogo com os bispos africanos – que a questão fundamental, e queremos dar passos adiante neste sentido, se chama educação, formação. O progresso só pode ser progresso real se serve à pessoa humana e se a própria pessoa humana cresce, não cresce apenas em seu poder técnico, mas também em sua capacidade moral. E creio que o verdadeiro problema de nossa situação histórica é o desequilíbrio entre o crescimento incrivelmente rápido de nosso poder técnico e o da nossa capacidade moral, que não cresce de forma proporcional. Por isso, a formação da pessoa humana é a verdadeira receita, a chave de tudo, diria, e essa é também nossa vida .

No entanto, não fizemos uma leitura crítica do que foi nosso pós-Concílio; não reconhecemos que, com o frenesí de incorporar tudo o que era novidade, possivelmente aceitamos indiscriminadamente o quanto nos foi apresentado como desejado pelo Concílio. Abandonamos o que julgávamos caduco e pré-conciliar, sem ter a coragem de admitir que possivelmente algo do que foi abandonado deve ser recuperado e algo do que era novidade não deve ser mantido, mas deixado de lado. Em nossas ocupações e preocupações com a renovação, esta, talvez ou com certeza, se confundiu com o fato de suprimir grades e mudar de véu nos mosteiros femininos, e no uso de trajes civis e uma “determinada secularização”, que não consistia em relegar à sociedade civil o que a Igreja assumiu como suplência no passado.

Em conseqüência disso, os recém chegados aos mosteiros, nascidos depois de 1965, ignoram que a Igreja realizou um Concílio, não sabem o que ele significou e também não sabem que as Ordens celebraram Capítulos Gerais especiais para a adequada renovação promovida pelo Decreto Perfectæ caritatis. Teremos algum dia a coragem de abandonar bênçãos abaciais somente porque dão direito a ouropéis prelatícios, e faremos decididamente a opção pelos jovens para nos anteciparmos permanentemente a eles mediante o duplo exemplo da doutrina e das ações?

Conhecendo a preparação que teve o Papa Bento XVI, e vendo como o Senhor guiou seus passos há tantos anos através do estudo e de sua colaboração como teólogo no Concílio Vaticano II e nos anos posteriores, bem como sua estreita colaboração com João Paulo II durante quase 25 anos, precedidos pelos anos de experiência pastoral na arquidiocese de Munique-Frisinga, sua eleição para a Sé de Pedro bem pode ser vista como uma conseqüência lógica. Ao assumir o Sumo Pontificado, ele disse com simplicidade: Sou um humilde operário da vinha do Senhor , e o vemos exercendo eficazmente sua função.

Relendo minha história monástica pessoal, não posso vangloriar-me de nada a não ser que estou profundamente convencido de ter Deus escolhido o que é fraco no mundo, como lemos na primeira Carta aos Coríntios – onde o cristianismo começou a difundir-se pelas camadas sociais mais baixas –, e assim procedeu Jesus ao escolher seus colaboradores. Também essa deve ser a preocupação da Igreja. Além do mais, e salvo algumas exceções, é lei constante na história da salvação que Deus se revela servindo-se do que é simples, fraco e sem importância, de tal maneira que a presunção humana fique excluída.

Cada um pode examinar sua própria história sócio-econômico-cultural e religiosa, que o configurou, a fim de conservar-se humilde e abandonar a tentação de sucumbir ao uso das marcas de opressão, no intuito de dissimular sua origem modesta com as conseqüentes carências. Somos o que somos perante Deus, nem mais nem menos. Contudo, apesar disso, ele se serviu de mim. Assim pude constatar, depois de conhecer o acervo documental de Poblet, mosteiro de minha profissão, existente no Arquivo da Cúria Generalícia e ao qual tive acesso em razão do lugar que, por misericórdia de Deus, ocupo na Ordem Cisterciense. Porém, durante muitos anos não quis conhecer os documentos de Poblet.

A fim de ajudar os estudantes, li algumas cartas. Fiquei sabendo que as confidências das pessoas, feitas em seus primeiros anos de vida monástica, na linha do quinto grau da humildade – que se deve expor aos formadores as intimidades e assim praticar o nosce teipsum de Santo Agostinho – foram depois reveladas, quando, por escrúpulo ou por outros interesses inconfessáveis dos responsáveis, foram propaladas pelos que deveriam saber curar as próprias feridas e as alheias.

Sem dúvida, posso afirmar com simplicidade que, precisamente pelo que foi dito no parágrafo precedente, o texto de Paulo aos Coríntios se realiza em mim. Não me resta, pois, outro caminho que não seja o da reconciliação com o próprio contexto monástico e extra-monástico. Foi ele que configurou minha personalidade com suas grandes limitações e carências, mantendo-me em atitude de espera disponível para ser puro instrumento, sem de modo algum sentir-me o criador de qualquer coisa que possa parecer como uma obra pessoal minha. Pois foi Deus quem agiu e age através de mim, frágil vaso de barro.

Quando uma comunidade elege um irmão para ser seu abade, provavelmente o faz pensando que o candidato é mais monge que os outros e é a melhor das possibilidades existentes no mosteiro. O candidato, uma vez eleito, deve continuar sendo ainda mais monge do que antes , sabendo também que o eleitorado pode ter-se equivocado julgando pelas aparências, sem ver o interior do coração. Entretanto, confiando que Quem me conhece e sabe o que sou, permitiu a eleição, será Ele que utilizará o objeto de barro frágil e quebradiço, necessitado da misericórdia e do perdão reparador. Talvez o eleitorado estivesse procurando defender seus próprios interesses, elegendo um incompetente para gerenciar o governo do mosteiro, tendo assim diante de si um boneco conivente com suas desordens. Neste caso, não se trata da vontade de Deus, permitindo que se eleja alguém que é fraco e sem importância, no sentido da Carta aos Coríntios, ou até mesmo um pecador; aparentemente, triunfou a conspiração. Como quer que queira, cedo ou tarde o Senhor trará as águas de volta a seu leito normal.

Será que as comunidades se dão conta de que os superiores devem ser eleitos segundo os méritos da vida e a honestidade de costumes, e não por seus títulos acadêmicos ou suas habilidades diplomáticas? Os capítulos conventuais e gerais procedem de acordo com o juramento que antecede a eleição abacial, quando os eleitores dizem: Eu, Irmão N., juro e prometo a Deus todo-poderoso, que elegerei aquele que creio ser o mais capaz nas coisas espirituais e materiais de nossa Igreja. Assim Deus me ajude e estes santos Evangelhos de Deus que toco com minhas mãos ? O conhecimento da própria cruz pessoal deve evitar que apresentemos nossa indigna candidatura. A ovelha emaranhada no espinheiro é a natureza humana prisioneira de seu pecado. E o Bom Pastor é o Logos que se encarnará nela, transportando-a sobre os ombros a fim de trazê-la de volta para Deus. Ou seja, da que estava afastada e retida em seu cativeiro , se servirá dela para levar a termo seu plano de salvação.

Nós não podemos frustrar a boa vontade dos jovens e seu crescimento na fé por causa de nossas deformações. Fazer opção pelos jovens significa que eles vejam em quem preside o servidor permanente de todos; e aquele que é o primeiro se torne o último, conforme o Mestre quis dizer na última ceia ao lavar os pés dos discípulos e ainda com a resposta dada à mãe dos filhos de Zebedeu que desejava vê-los sentados um à direita e outro à esquerda do Senhor. O abade dará a vida por seus monges coordenando os dons e talentos de cada um deles para o bem da comunidade, adaptando-se ao temperamento de cada um. No entanto, para alcançar tal objetivo, é necessário que esteja disposto a doar sua vida para este serviço.

Esta linguagem será, certamente, compreendida pelos jovens e com semelhante exemplo poderemos estimulá-los a seguir pelo mesmo caminho. Pois, o exemplo é o discurso mais eloqüente que o homem possui e, em nosso caso, podemos dizer que o exemplo é o discurso mais eloqüente do abade.

Pocura a paz e segue-a . Creio que a procura da paz se concretiza com o programa que nos é fornecido pela própria Regra. E, para nós concretamente, pela Declaração do Capítulo Geral sobre os principais elementos da vida cisterciense atual, que é como um comentário da Regra, principalmente ao delinear a figura do abade. Sob o título: O abade do mosteiro e seus colaboradores - Como o abade é o eixo da vida de um mosteiro, convém que, antes, delineemos sua figura), a Declaração diz:

a) O abade, pastor das almas, mediador da Palavra de um humilde serviço, conforme a doutrina e o exemplo do Cristo, a quem representa. Convém, pois, que tenha e manifeste por seus irmãos aquele amor paterno com o qual o Pai celeste ama os monges.
O abade é, além disso, mediador da Palavra de Deus, desempenhando o ofício de intérprete das Sagradas Escrituras nas múltiplas circunstâncias da vida de cada dia. O abade nunca pode prevalecer sobre a Palavra divina, mas, ao contrário, deve ser-lhe cada vez mais submisso.

Não é de menor importância o outro ofício do abade, que o Apóstolo indica pelo nome de discernimento dos espíritos. O abade deve esforçar-se por discernir se cada um de seus monges é conduzido pelo Espírito de Deus ou se é enganado por suas aspirações de Deus, mestre em discernir os espíritos.

O abade, antes de tudo, é pastor das almas. Este é o seu múnus espiritual que, antes de tudo, visa o bem das almas. Sua autoridade é uma diaconia, tem o caráter meramente terrenas, por seu próprio eu ou pelo espírito da mentira. E para que possa discernir a voz do Espírito Santo de qualquer outra voz, é mister que ele próprio seja versado, tanto na doutrina como na experiência das realidades espirituais.

b) O abade, centro de unidade.
O abade é o centro da unidade da comunidade, promovendo a concórdia de todos em relação aos fins comuns e coordenando os esforços e trabalhos de todos os monges. Por isso, o abade deve ter em grande apreço o compreender e o tratar com o devido respeito a pessoa de cada monge. Cuide de ter tempo disponível e o coração aberto para com todos os monges; incite-os, não a uma obediência qualquer, mas a uma obediência ativa e responsável como também à cordial colaboração de cada um, para que os dons de todos dêem frutos no serviço de Deus; procure promover um diálogo sincero e aberto; ponha os monges a par das preocupações e planos da vida do mosteiro e de todas as atividades da casa, pois tudo isso lhes diz respeito. Assuma, porém, a responsabilidade do que lhe compete, por ofício, quando tiver decidido com precisão aquilo que, após diligente exame, lhe parece ser a vontade de Deus.

O abade, para suscitar a unidade, rejeite tudo o que tende a separá-lo de seus monges, leve a vida regular com os irmãos, apresentando-se como modelo de fidelidade e zelo; restrinja ao mínimo possível os encargos que exigem sua ausência do mosteiro. Mesmo sendo abade, ele permanece monge e irmão entre os irmãos e, assim, como centro de unidade e caridade, entregue-se totalmente aos irmãos no amor de Cristo.

Esta Declaração foi o fruto de um inquérito que todos os membros da Ordem, nossos pais e mães concretos no monaquismo, responderam ao término do Concílio. No referido inquérito, era clara a alusão feita por monges e monjas quanto ao uso exagerado das insígnias prelatícias etc., que não pôde ser erradicado; incusive, os que conheciam a origem da Declaração e foram delegados naquele Capítulo Geral, quando logo depois se tornaram abades, disseram que este inciso não tinha mais razão de ser o fizeram suprimir . Contudo, ignoro se tiveram coragem de recuperar o conteúdo que as insígnias haviam perdido por causa do uso abusivo que se fazia delas.

Com essa constatação, não pretendemos fazer nenhuma denúncia profética, mas apenas colocar em evidência um fenômeno curioso. Não desejo contradizer a citação da Regra de São Bento: Procura a paz e segue-a . Porém, creio que desepojar a instituição abacial das incrustrações que a desfiguram e deixá-la com o sinal evidente de estar em ato de serviço – Recebe este sinal da cruz, em memória daquele cujas vezes cremos que fazes agora no mosteiro – nada mais é do que procurar a paz.

Se o abade é “funcional”, quer dizer, se atua, segundo se acredita, como quem faz as vezes de Cristo, danto a vida pelos irmãos, coordenando os dons e talentos de cada um em vista do bem comum, estando presente no coro, sendo um ícone vivo do Mestre, sempre precedendo a comunidade a fim de ser o centro da vida do mosteiro, então ninguém contestará o uso do sinal de quem ele faz as vezes no mosteiro. Os sinais não podem ser privados de conteúdo. Por isso, quando não exprimem o que significam, são contestados, pois ofendem aos que devem tê-los de modo permanente ante os olhos com outro valor que originalmente se lhes atribui.

Os jovens são a continuidade progressiva da instituição. Sempre que nós lhes transmitirmos o que o Concílio disse a nossos predecessores em suas decisões capitulares, quando pretenderam dar prosseguimento à renovação da vida monástica, eles serão provavelmente capazes de assumirem-na melhor do que nós mesmos assumimos.

Ao contráro, enquanto vivermos ocupados e preocupado em sair de nossa opressão fazendo ostentação dos sinais da mesma, comportando-nos como prelados de arlequim para oficiar pontificais iguais a cantores de dão recitais, sem pensar em transmitir aos iniciandos, com toda retidão, o que recebemos de nossos pais no monaquismo, eles ficarão sem conhecer o Concílio Vaticano II, o Decreto Perfectæ caritatis, a Declaratio, as Constituições, a Regra. Desta forma, ignorarão sua identidade e, conseqüentemente, se tornarão vítimas do floklore monástico ou da primeira “seita” que lhes oferecer doutrinas que os desviem de completar a iniciação cristã e monástica começda no dia de seu batismo, se é que foram batizados. Com efeito, a crise é tão profunda que até já se fala de época pós-cristã.

Uma coisa é falar de cristianismo não religioso, de que se tratou no Curso de Formação deste ano, a fim de preparar os jovens para viverem seu cristianismo tomando parte na dor de Deus no sofrimento do mundo; outra coisa é que, enquanto nos convertemos em “bâtisseurs”, em mecenas das artes ou em prelados levados pela voragem do “carreirismo”, os jovens que batem às portas dos mosteiros não recebem sequer o mais elementar para ajudá-los na procura de Deus e em seu crescimento humano e cristão. Para que São Bento escreveu a Regra? Qual é a finalidade da vida monástica segundo a Regra de São Bento? Como São Bento descreve o mosteiro em sua Regra? Que perfil do abade e do monge ela nos dá? Que respostas me dão quando lhes faço estas perguntas e o que respondem aqueles que devem lhes transmitir a tradição? Já tive muitas surpresas quando lhes fiz estas perguntas.

Um bom ponto de partida para nos mantermos em um sadio realismo é meditar o texto de 1Cor 1, 26-31, concretamente quando nos diz: Entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana, nem muitos poderosos nem muitos nobres.

Falo-lhes quando estou na reta final de minha vida e me encontro com os instrumentos das boas obras gastos em minhas mãos É uma situação semelhante à que chegou Dietrich Bonhoeffer aos trinta e seis anos. Por isto, citarei literalmente mais adiante sua confissão por não ter se cristianizado até o dia em que compreendeu o Sermão da Montanha. Efetivamente, vivi vinte e cinco anos em um frenético ativismo para restaurar o conjunto monástico medieval mais importante da Europa e aplicar em sua comunidade o Decreto Perfectæ caritatis e a Constituição Sacrosanctum Concilium; imediatamente depois, sendo já Abade geral, muito trabalhei para chegar a um Capítulo Geral único, tal como já lhes expliquei e, em seguida, proporcionar os Cursos de Formação Monástica. Agora, porém, encontro-me com os instrumentos das boas obras – repito – gastos em minhas mãos, çãovazio e com o único consolo de nunca desesperar da misericórdia de Deus , que é a atitude do publicano do Evangelho. É a única esperança que me resta e em minhas alocuções aos jovens estudantes, que nós cometemos.

O futuro é dos jovens. E se quisermos trabalhar pelo futuro de nossos mosteiros, devemos optar eles e prepará-los para enfrentá-lo serenamente. Assim procurarão a paz e a seguirão. Se formos para eles transmissores da tradição, acredito que comunicar-lhes nossa própria experiência será uma boa pedagogia e estaremos exercendo nosso humilde magistério como um modesto serviço. A principal missão do abade de um mosteiro não é buscar sua promoção, mas ser centro de unidade e fazer as vezes de Cristo.

O Estatuto para a formação na Ordem Cisterciense, no número 23, nos diz que, em matéria de estudos do noviciado, se deveria começar pela Introdução ao Mistério de Cristo .

Por isso, desde 1970, em alguns noviciados, se adotou a Introdução ao Cristianismo, de Joseph Ratzinger , como nova leitura do Credo a fim de aprofundá-lo. Atualmente, se deveria começar pelo Catecismo da Igreja Católica para depois seguir fielmente o programa estabelecido establecido pela Ordem para a formação inicial e para o juniorado. Sabemos que a profissão simples não pode durar menos de três anos nem mais de nove. Pretendemos que, com as matérias do Curso de Formação Monástica, o final do triênio seja como o término do catecumenato antes de fazer a profissão solene, que fará deles, oficialmente, pessoas que permanentemente procuram a Deus, no entanto sempre apren- dizes na matéria .

Citarei o trecho de um pensador e teólogo que marcou a espiritualidade e a reflexão teológica a partir da segunda metade do século XX: Creio saber que seria verdadeiramente claro e sincero, pelo menos interiormente, se começasse a agir seriamente a partir do Sermão da Montanha... Finalmente, há coisas pelas quais vale a pena comprometer-se. E me parece que a paz e a justiça social, ou propriamente Cristo, seja alguma coisa desse tipo . Nessa mesma carta, endereçada a seu irmão em 1936, dizia: Pela primeira vez cheguei à Bíblia..., preguei muito, vi muito da Igreja, falei e escrevi sobre ela. No entanto, não havia chegado a ser cristão, porém completamente selvagem e indomitamente senhor de mim mesmo. Disto fui libertado pela Bíblia e de modo particular pelo Sermão da Montanha ... Fazia esta confissão depois de ter escrito Sanctorum Communio, Akt und Sein, Sequela, sido brilhantemente aprovado em seus exames teológicos e com a experiência de oito anos de Pastor e de professsor de teologia. O mesmo posso dizer eu depois de trinta e cinco anos de função abacial..

O Sermão da Montanha é o caminho a seguir antes que se pense em fazer a profissão solene no mosteiro; é preciso aprender a identificar Evangelho e vida pessoal, e saber que o ato religioso não faz o cristão, mas sim a participação na dor de Deus na vida do mundo. Pois, sabemos que juntamente com o esquecimento de Deus, existe um “boom” do religioso. Não quero desacreditar tudo o que existe neste contexto. Pode existir nisto também a alegria sincera da descoberta [do recém-convertido]. Mas, para dizer a verdade, não raramente a religião se torna quase um produto de consumo. Escolhe-se aquilo que se gosta, e alguns sabem até tirar proveito dela. Mas a religião procurada a seu “bel-prazer” no fim não nos ajuda. É cômoda, mas no momento da crise abandona-nos a nós próprios. Ajudai, queridos amigos, os homens a descobrir a verdadeira estrela que nos mostra o caminho: Jesus Cristo , por quem vale a pena comprometer-se. Podemos ter aprendido a nos comportar muito bem “monasticamente” sem, no entanto, termos ainda descoberto a verdadeira estrela: Jesus Cristo.

Efetivamente, em Jesus Cristo encontramos o modelo de como tomar parte no sofrimento de Deus na vida do mundo. Deus, em Cristo se fez um “com o homem”; e em seu ser “para os homens” temos o exemplo a seguir, que pode ser assim resumido: em solidariedade para com os pobres em espírito, com os humildes, com os que choram, com os que têm fome e sede de justiça, com os misericordiosos, com os puros de coração, com os que promovem a paz, com os perseguidos por causa da justiça e, porque não, em nossa opção pelos jovens, a fim de que eles cresçam e nós diminuamos, como disse João Batista .

Com efeito, no Prólogo da Regra de São Bento lemos: Com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração e, com inenarrável doçura de amor, percorre-se o caminho dos mandamentos de Deus . Dedicar-se plenamente a este labor de optar pelos jovens, para fazê-los crescer na fé que haverão de viver no século XXI, pode dar sentido à função abacial ao invés utilizá-la para outros fins que nada têm a ver com a missão própria do abade. O ministério abacial já carrega em si mesmo motivação suficiente para dedicar-se totalmente ao que ele significa, para mais tarde ouvir a voz do Senhor que dirá aos abades o mesmo que disse ao servo fiel que, em seu tempo, subministrou o trigo a seus companheiros: Em verdade, eu vos digo – afirma – ele o constituiu administrador sobre todos os seus bens .

Intervenção de Dom Mauro Esteva Alcina O.Cist.
Abade Geral da Ordem Cisterciense
no X Encontro Monástico Latino-americano


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