A «Lectio Divina»,
ou leitura espiritual (divina), é o método da oração
a partir do texto da Sagrada Escritura, sem exclusão de outros textos
religiosos. Em linhas gerais, consiste em ler atentamente a Palavra de
Deus, passando em seguida à sua meditação, contemplação
e ao diálogo com o seu Autor. Os monges ocidentais têm na
lectio o principal elemento da sua espiritualidade, cultivando-a
com fidelidade e prioridade.
Como sugestões para leitura
espiritual, oferecemos abaixo alguns textos seletos.
A
REGRA DE SÃO BENTO
Regra
de São Bento - Tradução de Dom João
Evangelista Enout, OSB, do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro,
Editora Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1980.
TEXTOS
PATRÍSTICOS
Dos Sermões de São Bernardo,
Abade - Leitura para a Solenidade de São
Bento (11/7)
Dos Sermões de Santo Agostinho,
Bispo - Comentário ao Evangelho do
XIV Domingo do Tempo Comum - ano C
Das Homilias de São Cirilo
de Alexandria, Bispo, sobre o Eevangelho de São Lucas
- Comentário ao Evangelho do XII Domingo do Tempo Comum - ano
C
Da Homilia de Anfilóquio, Bispo,
sobre a pecadora - Comentário ao Evangelho
do XI Domingo do Tempo Comum, ano C
Das Homilias de Gregório Palamás,
Bispo - Texto para a Solenidade de São
Pedro e São Paulo
Dos Sermões de Santo Agostinho,
Bispo - Comentário para a Solenidade
de Pentecostes
Do Comentário ao Evangelho
de São João, de São Cirilo de Alexandria, Bispo
- Comentário para a Solenidade da Ascensão
Dos Sermões sobre o Cântico
dos Cânticos, de São Bernardo, Abade
- Comentário ao Evangelho do VI domingo da Páscoa - ano
C (Jo 14,23-29)
Dos "Tratados sobre São João",
de Santo Agostinho, Bispo - Comentário
ao Evangelho do V domingo da Páscoa - ano C (Jo 13,31-33a.34-35)
Do Tratado "Sobre a Trindade", de
Santo Hilário, bispo - Comentário
ao Evangelho do IV domingo da Páscoa
Dos Sermões de Santo Agostinho,
Bispo - Comentário ao Evangelho do
III domingo da Páscoa - ano C (Jo 21,1-19)
Dos Sermões de Santo Agostinho,
Bispo - Comentário ao Evangelho do
II domingo da Páscoa - ano C (Jo 20,19-31)
Do Tratado de Santo Agostinho, Bispo,
sobre o Evangelho de São João -
Leitura para o Domingo de Ramos (Paixão)
Das Cartas de Santo Ambrósio,
Bispo - Leitura para o V domingo da Quaresma
- ano C
Dos Comentários de Santo Agostinho,
Bispo, sobre os Salmos - Leitura para o IV
domingo da Quaresma - ano C
Dos Comentários
de Santo Ambrósio, Bispo, sobre os Salmos
- Leitura para o II domingo da Quaresma - ano C
Das homilias de Orígenes,
presbítero, sobre o Cântico dos Cânticos
- Leitura para o I domingo da Quaresma - ano C
Dos Sermões de São
Leão Magno, Papa - texto quaresmal
Do Sermão de Teódoto
de Ancira, Bispo, no Dia do Natal do Senhor -
texto natalino
Dos Sermões do Bem-Aventurado
Guerrico d'Igny, Abade - Leitura para o 4º
domingo do Advento - ano C
Dos Comentários de Ruperto
de Deutz, Abade - Leitura para o 3º domingo
do Advento - ano C
Dos Sermões de São
Bernardo, Abade - Leitura para o 2º domingo
do Advento - ano C
Dos Sermões de São
Bernardo, Abade - Leitura para o 1º domingo
do Advento - ano C
Das Homilias de São Gregório
Palamas, Bispo - Leitura para o XXXIII domingo
comum - ano B correspondente ao evangelho do dia (Mc 13,24-32) -
Dos Sermões de São
Bernardo, Abade - Para a Festa da Dedicação
da Basílica do Latrão -
Do livro de Santo Agostinho, bispo,
"Sobre os deveres para com os mortos" - Comentário
para o Dia de Finados -
Do Tratado «Exortação
Aos Pagãos» de Clemente de Alexandria
- Comentário a Mc 10,46-52, evangelho do XXX domingo do Tempo
Comum - ano B
Das Homilias de São João
Crisóstomo, bispo (+407) - Comentário
a Mc 10,32-45, evangelho do XXIX domingo do Tempo Comum - ano B
Das Homilias de São João
Crisóstomo, bispo (+407) - texto quaresmal
Dos Tratados de Santo Agostinho
- texto quaresmal.
TEXTOS
ESPIRITUAIS
Da Homilia do Papa Paulo VI na dedicação
da igreja abacial de Montecassino no ano de 1964
- Leitura para a Solenidade de São Bento (11/7)
Do Tratado de um Autor do séc.
XII, sobre a Paixão e Ressurreição do Senhor
- Comentário para a I Semana da Páscoa (Jo 20,11-18)
Da Constituição Apostólica
«Paenitemini», do Papa Paulo VI -
Comentário a Lc 13,1-9, evangelho do 3º Domingo da Quaresma
- ano C
A Dimensão Missionária da
Vida Monástica
EDITORIAIS
DA REVISTA "PR"
Fevereiro/98: A PARÁ-OIKÍA
(PARÓQUIA) DO CRISTÃO
Setembro/97: «SENHOR, ONDE ESTÁS?»
Junho/97: «POR CAUSA DO SEU GRANDE
AMOR...» (Ef 2,4)
Maio/97: «ALEGRA-TE, CHEIA DE GRAÇA»
(Lc 1,28)
Abril/97: «CANTAI UM CÂNTICO
NOVO» (Sl 96,1)
Carta enviada para O GLOBO: O Aborto é
Homicídio
Março/97: «COM CLAMOR E
LÁGRIMAS... FOI ATENDIDO» (Hb 5,7)
Fevereiro/97: «ENQUANTO TEMOS
TEMPO...»
Dezembro/96: «PROSSIGO PARA
O ALVO» (Fl 3,14)
Novembro/96: «VIVER É
CRISTO, MORRER É LUCRO...»
Outubro/96: «SE NÃO VOS
TORNARDES COMO CRIANÇAS...»
REENCARNAÇÃO E IGREJA
ANTIGA
Setembro/96: «SEMEAR PARA COLHER»
Agosto/96: «O FIM DO MUNDO OU
A RENOVAÇÃO DO MUNDO?»
Julho/96: «A IGREJA, MINHA MÃE»
Junho/96: «O MISTÉRIO DA
INIQÜIDADE»
A
QUARESMA NA REGRA DE SÃO BENTO
CAPÍTULO 49 - DA OBSERVÂNCIA
DA QUARESMA
Se bem que a vida do monge deva ser,
em todo tempo, uma observância de Quaresma, como, porém, esta
força é de poucos, por isso aconselhamos os monges a guardarem,
com toda a pureza, a sua vida nesses dias de Quaresma e também a
apagarem, nesses santos dias, todas as negligências dos outros tempos.
E isso será feito dignamente, se nos preservamos de todos os vícios
e nos entregamos à oração com lágrimas, à
leitura, à compunção do coração e à
abstinência. Acrescentemos, portanto, nesta época, alguma
coisa ao encargo habitual da nossa servidão: orações
especiais, abstinência de comida e bebida; e assim ofereça
cada um a Deus, de espontânea vontade, com a alegria do Espírito
Santo, alguma coisa além da medida estabelecida para si; isto é,
subtraia ao seu corpo algo da comida, da bebida, do sono, da conversa,
da escurrilidade, e, na alegria do desejo espiritual, espere a Santa Páscoa.
Entretanto, mesmo aquilo que cada um oferece, sugira-o ao seu Abade, e
seja realizado com a oração e a vontade dele, pois o que
é feito sem a permissão do pai espiritual será reputado
como presunção e vã glória e não como
digno de recompensa. Portanto, tudo deve ser feito com a vontade do Abade.
DO CAPÍTULO 48
Nos dias da Quaresma, da manhã
até às 9 horas, entreguem-se às suas leituras (...)
Nesses dias de Quaresma, recebam todos respectivamente livros da biblioteca
e leiam-nos pela ordem e por inteiro; esses livros são distribuídos
no início da Quaresma.
DAS
HOMILIAS DE ORÍGENES, PRESBÍTERO, SOBRE O CÂNTICO DOS
CÂNTICOS
Homilia III in
Canticum
Jesus é tentado para
que a Igreja apreenda
que se vai a ele por meio de
muitas tribulações e tentações
A vida dos mortais está cheia
de laços de escândalos e de redes de ilusões, armadas
contra o gênero humano por aquele gigante caçador, inimigo
do Senhor, que é chamado Nemrod. Quem é esse verdadeiro gigante
a não ser o demônio, que se revolta contra o próprio
Deus? Os laços das tentações e as armadilhas das insídias
são pois chamadas redes do demônio. E porque o inimigo estendera
essas redes em toda parte e apanhara quase todos, tornou-se necessário
que aparecesse alguém mais forte e poderoso, que as pudesse romper
e abrir o caminho para aqueles que o seguiam. Eis porque o Salvador, antes
de se unir à Igreja como esposo, é tentado pelo demônio,
para que vencendo, pela tentação, as redes das tentações,
olhasse e chamasse a si a Igreja, ensinando-lhe e mostrando-lhe que não
se chega a Cristo pelo ócio e pelas delícias, mas por muitas
tribulações e tentações. Não havia,
com efeito, outro que pudesse superar essas redes. Pois todos -
como está escrito - pecaram (Rm 3,23); e de novo, como diz
a Escritura: Não há justo sobre a terra que faça
o bem e não peque (Ecl 7,20); e ainda: Ninguém está
isento de pecado, nem mesmo se sua vida tiver durado um só dia
(cf. 50,7: Jó 15,14). Somente Jesus, nosso Senhor e Salvador, não
pecou; mas o Pai o fez pecado por nós (2 Cor 5,21), para
condenar o pecado por meio do pecado numa carne semelhante a do pecado
(cf. Rm 8,3).
Entrou, pois, naquelas redes, mas foi
o único que não pôde ser envolvido por elas; pelo contrário,
tendo-as rompido, e reduzido a pedaços, faz com que sua Igreja confie,
para que ouse doravante romper os laços e ultrapassar as redes,
dizendo com toda alegria: Nossa alma escapou como o pássaro da
rede do caçador; rompeu-se o laço, e fomos libertados
(Sl 123,7).
Quem, pois, rompeu o laço a
não ser o único que não podia permanecer prisioneiro?
Embora tenha morrido, foi voluntariamente que morreu, e não como
nós, por causa do pecado. Só ele foi livre entre os mortos.
E porque só ele foi livre entre os mortos, tendo vencido quem tinha
o poder da morte, libertou os cativos que estavam retidos pela morte. Não
só ressuscitou a si mesmo dos mortos, mas também despertou,
ao mesmo tempo, os que estavam prisioneiros da morte, introduzindo-os nos
céus. Subindo, pois, ao alto, levou consigo os cativos, não
libertando apenas as almas, mas ressuscitando também os seus corpos,
conforme atesta o Evangelho, pois os corpos de muitos santos ressuscitaram
e apareceram a muitos, e entraram na cidade santa do Deus vivo, Jerusalém
(Mt 27,52.53).
DOS
SERMÕES DE SÃO LEÃO MAGNO, PAPA
Tractatus 48
Convém que todo o corpo
da Igreja
seja purificado de todas as
suas manchas
Irmãos caríssimos, entre
todos os dias do ano que a devoção cristã honra de
várias maneiras, nenhum há que supere em excelência
a festa pascal, pois esta consagra, na Igreja de Deus, a dignidade de todas
as solenidades. Com efeito, mesmo o nascimento materno do Senhor tinha
por fim este mistério e o Filho de Deus não teve outra razão
de nascer senão a de ser pregado na cruz. No seio da Virgem, de
fato, foi assumida uma carne mortal; nesta carne mortal realizou-se a economia
da paixão e assim aconteceu, por um desígnio da misericórdia
de Deus, que esta fosse para nós sacrifício redentor, abolição
do pecado e primícias de ressurreição para a vida
eterna. Ora, se considerarmos o que o universo recebeu pela cruz do Senhor,
reconhecemos que, para celebrar o dia da Páscoa, é justo
que nos preparemos por um jejum de quarenta dias a fim de podermos participar
dignamente dos divinos mistérios.
Na verdade, não são apenas
os bispos ou os presbíteros, nem somente os diáconos, mas
todo o corpo da Igreja, a totalidade dos fiéis, que devem ser purificados
de todas as manchas, a fim de que o templo de Deus, cujo fundamento é
o próprio fundador, seja belo em todas as suas pedras e luminoso
em todas as suas partes. Pois se, com razão, ornam-se com todos
os enfeites os palácios dos reis e os pretórios dos chefes
mais altos, de sorte que sejam mais belas as casas daqueles cujos méritos
são maiores, com que cuidado deve ser construída, com que
honra decorada, a habitação da própria Divinidade!
Certamente não se pode nem empreender nem terminar esta casa sem
que seu autor concorde com isso; no entanto, aquele que a edificou, lhe
concedeu também buscar seu progresso por seu próprio trabalho.
De fato, é de um material vivo e racional que se serve para a construção
deste templo e é do Espírito da graça que está
animado para unir-se voluntariamente em um único todo; material
amado, material procurado para que, por sua vez, procure - ele que não
procurava - e ame - ele que não amava - conforme a palavra do Apóstolo
São João: Nós, portanto, amemo-nos uns aos outros,
porque nosso Deus nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4,11.19).
Por conseguinte, já que os fiéis
em conjunto e em particular constituem um único e mesmo templo de
Deus, é preciso que este seja perfeito em cada um como deve ser
perfeito no conjunto.Porque, embora não seja a mesma a beleza de
todos os membros, nem em parte tão diferentes possa haver igualdade
de méritos, o vínculo da caridade alcança, no entanto,
a comunhão da beleza. Unidos assim por um santo amor, embora não
gozem de iguais benefícios da graça, alegram-se contudo mutuamente
com os seus bens e o que amam não lhes pode ser estranho, porque
aumenta a sua própria riqueza aquele que se alegra com o progresso
dos outros.
DO
SERMÃO DE TEÓDOTO DE ANCIRA BISPO, PARA O DIA DO NATAL DO
SENHOR
Edit. Schwartz,
ACO t. 3,1,157-159
Veio o Senhor de todos sob
a forma de servo
Veio o Senhor de todos sob a forma
de servo, revestido de pobreza, de modo a não afugentar os
que buscava. Em terra incerta, escolhendo um lugar desconhecido para nascer,
foi dado à luz por uma Virgem pobre, na pobreza total, para que
pelo silêncio cativasse os homens que vinha salvar. Pois se tivesse
nascido na glória, rodeado de muitas riquezas, diriam, sem dúvida,
os infiéis, que a transformação da terra fora obra
do dinheiro. Se tivesse escolhido Roma, a maior cidade, atribuiriam ao
poder dos seus cidadãos a mudança do mundo.
Se fosse filho do imperador, atribuiriam
ao poder tal benefício. Se fosse filho de um legislador, atribuiriam-no
às leis. Mas que fez ele? Escolheu tudo o que é pobre e vil,
tudo que há de mais medíocre e obscuro, para sabermos que
só a divindade transformou a terra. Por isto, escolheu uma mãe
pobre, uma pátria ainda mais pobre, fazendo-se pobre de bens terrenos.
Isto te é mostrado pelo presépio.
Como não havia um berço para reclinar o Senhor, foi colocado
numa manjedoura, e sua indigência das coisas mais necessárias
tornou-se uma ótima profecia. Foi assim posto na manjedoura para
anunciar que se fazia alimento até mesmo dos irracionais. Pois o
Verbo, Filho de Deus, nascendo pobre e jazendo num presépio, atrai
a si os ricos e os pobres, os eloqüentes e os incultos.
Vede, portanto, como a indigência
se tornou profecia, e a pobreza mostrou ser acessível a todos aquele
que por nós se fez pobre. Ninguém se deteve por medo das
esplêndidas riquezas do Cristo, nem a imponência do poder impediu
alguém de se aproximar dele; mas apareceu pobre e comum, oferecendo-se
a si mesmo para salvar a todos.
No presépio, o Verbo de Deus
se manifesta corporalmente, a fim de que tanto os seres racionais como
os irracionais possam participar do alimento da salvação.
Penso ser isto que o profeta proclamava, quando falava do mistério
do presépio: O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura
de seu senhor; mas Israel é incapaz de conhecer, o meu povo não
pode entender (Is 1,3). Fez-se pobre por nós aquele que é
rico, tornando facilmente perceptível a todos a salvação
do Verbo de Deus. Também Paulo o indica, ao escrever: Por causa
de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com
a sua pobreza (2Cor 8,9).
Mas quem era esse que enriquecia? E
de que enriquecia? Como ele se fez pobre por nós? Quem é,
dizei-me, que, sendo rico, se fez pobre por minha pobreza? Pensas que foi
o homem que apareceu? Mas este nunca se tornou rico, nascido que foi pobre
e de pais pobres. Quem era, pois, e de que enriquecia esse rico que por
causa de nós se fez pobre? A resposta é: Deus enriquece a
criatura. Foi Deus mesmo quem se fez pobre, fazendo sua a pobreza daquele
que se podia ver. Pois ele é rico pela divindade, e por causa de
nós se fez pobre.
DOS
SERMÕES DO BEM-AVENTURADO GUERRICO D'IGNY, ABADE
Leitura para o
4º domingo do Advento - ano C
Eis que o Rei está vindo!
Eis que o Rei está vindo, corramos
ao encontro do nosso Salvador! Com acerto, Salomão diz: Água
fresca em garganta sedenta é a boa notícia de uma terra longínqua
(Pr 25,25). Boa notícia é a que anuncia a vinda do Salvador,
a reconciliação do mundo, os bens do tempo que há
de vir. Notícias como estas são água fresca e bebida
de salutar sabedoria para a alma sedenta de Deus. E quem lhe anuncia a
vinda ou outros mistérios do Salvador com alegria tira água
das fontes da salvação (Is 12,3), oferecendo-lhe um brinde.
De modo que ao que lhe dá a notícia, seja Isaías ou
qualquer dos profetas, essa alma parece responder com as palavras de Isabel,
já que bebeu do mesmo Espírito que ela: «Donde me vem
que o meu Senhor me visite? Pois quando a tua saudação chegou
aos meus ouvidos, o meu espírito estremeceu de alegria em meu coração
(cf. Lc 1,43-44), ansioso por correr ao encontro do seu Deus e Salvador».
Levante-se, pois, o nosso espírito
com viva alegria e corra ao encontro do seu Salvador, e já de longe
adore e saúde o que está vindo, aclamando-o e dizendo: Vem,
Senhor, salva-me e eu serei salvo (Jr 17,14); vem, faze tua face
brilhar, e seremos salvos (Sl 79,4). Em ti esperamos; sê a
nossa salvação no tempo da angústia (Is 33,2).
Era assim que, bem antes de nós, os profetas e os justos corriam
com desejo e afeto ao encontro do Cristo que estava por vir, desejando,
se possível fosse, ver com os olhos o que em espírito previam.
Aguardamos o dia do aniversário
natalino do Cristo que, se Deus quiser, em breve contemplaremos. A Escritura
parece exigir de nós uma alegria tal que o nosso espírito,
elevando-se sobre si mesmo, trate de algum modo de sair ao encontro do
Cristo que vem; prolongando-se pelo desejo nas coisas passadas e impaciente
com a demora, consiga ver desde já as futuras. Pois eu penso que
os vários trechos das Escrituras que nos exortam a sair ao encontro
dele não se referem só ao segundo advento, mas também
ao primeiro. Como? - perguntarás. Do seguinte modo: assim como iremos
ao encontro da segunda vinda com o ímpeto e a exultação
do corpo, assim também devemos fazer na primeira, com o afeto e
a exultação do espírito.
E por certo é freqüente,
segundo o mérito e o esforço de cada um, esta vinda do Senhor
no tempo que decorre entre o primeiro e o último advento, vinda
que nos conforma ao primeiro advento e prepara para o último. Ele
agora vem a nós para que sua primeira vinda não tenha sido
em vão, e para que na última não venha irado contra
nós. Nesta vinda, ele cuida de reformar nosso espírito de
soberba, para configurá-lo ao seu espírito de humildade,
que demonstrou quando veio a primeira vez. Do mesmo modo, ele transfigurará
o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso (Fl 3,21),
que manifestará quando retornar.
Quanto a nós, irmãos,
que ainda não estamos consolados por tão sublime experiência,
para que sejamos pacientes até a vinda do Senhor, consolem-nos por
enquanto uma fé firme e uma consciência pura, que possa dizer
com a mesma alegria e fidelidade de Paulo: Sei em quem coloquei a minha
fé, e estou certo de que ele tem poder para guardar o meu depósito,
até aquele dia (2Tm 1,12), isto é, a manifestação
da glória do nosso grande Deus e Salvador, Cristo Jesus (Tt
2,13), ao qual seja a glória pelos séculos dos séculos.
Amém.
DOS
COMENTÁRIOS DE RUPERTO DE DEUTZ, ABADE
Leitura para o
3º domingo do Advento - ano C
Era a intenção
da luz que todos crêssemos
João veio como testemunha,
para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele
(Jo 1,7). Este homem tão grande, tão esperado, veio afinal,
nasceu e foi elevado às alturas, para que, visto por todos e por
todos ouvido, desse testemunho da luz contra o poder das trevas, as quais
não quiseram receber a luz que brilhava no meio delas, dizendo:
Não é ele o filho do carpinteiro? Como diz agora: «Eu
desci do céu»?! (Mt 13,55; Jo 6,42).
Contra eles, João veio dar testemunho
de que Jesus era a luz dos homens, o Filho Unigênito de Deus, por
quem tudo foi feito. Na realidade, todos os profetas haviam dado testemunho
dessa mesma luz. Porém, o testemunho de João era diferente
e muito superior, sobretudo porque os profetas falavam de alguém
que estava por vir, enquanto João não só testemunhava
que ele já havia chegado, mas, para que ninguém duvidasse,
também o apontava, dizendo: Eis o Cordeiro de Deus; é
dele que eu falei (Jo 1,29-30).
Mas que faltaria à luz dos homens,
ou que vantagem veria em providenciar para si o testemunho de um tão
grande arauto em nossas pobres assembléias? A fim de que, explica,
todos cressem por meio dele (Jo 1,7). Entenda-se: para crerem que
este, e não outro, o mesmo Jesus, filho de Maria e de José,
como se falava, era desde o princípio o Verbo de Deus, o Deus Verbo,
a luz eterna. Era esta, com efeito, a intenção de sua caridade,
que não buscava o próprio interesse, mas o nosso. Era esta
a intenção da luz: que todos crêssemos e assim nos
aproximássemos dela para sermos iluminados. Nós exultamos
e damos graças por tão grande benevolência de Deus.
DOS
SERMÕES DE SÃO BERNARDO, ABADE
Leitura para o
2º domingo do Advento - ano C
Toda a carne verá a
salvação de Deus
Repara bem no tempo em que veio o Salvador.
Pois ele não veio no início, nem no meio, mas no fim dos
tempos. Isto não foi feito de modo fortuito, mas a divina Sabedoria
dispôs sabiamente trazer o seu auxílio no momento mais necessário,
não ignorando a tendência dos filhos de Adão à
ingratidão. Já se fazia tarde e o dia declinava, o Sol de
Justiça se havia posto quase por completo, tornando-se muito fraco
o seu brilho e o seu calor na terra. Também a luz do conhecimento
de Deus se tornara fraca, e a abundância da iniqüidade havia
esfriado o ardor da caridade.
Já não aparecia nenhum
anjo, nem profeta algum falava; retiraram-se, vencidos pelo desânimo
ante a excessiva dureza e obstinação dos homens. Então
eu, o Filho, disse: Eis que eu venho (Sl 39,8). A eternidade interveio
oportunamente, quando mais prevalecia o mundo temporal. Pois, para não
falar de outras coisas, a paz do mundo era tão grande naquele tempo,
que para o recenseamento de todo o orbe bastou o edito de um único
homem.
Já conheceis tanto a pessoa
que vem, como seu lugar de origem e sua destinação; tampouco
ignorais o motivo e o momento de sua vinda. Resta saber uma coisa: o caminho
por onde vem, e isto merece ser investigado com igual diligência,
para que possamos dignamente acorrer ao seu encontro. Contudo, do mesmo
modo que veio uma vez sobre a terra, visível em sua carne, para
operar a salvação, assim também ele vem todos os dias,
invisível e em espírito, para salvar as almas, como está
escrito: o Cristo Senhor é um espírito diante de nós
(cf. Lm 4,20). E para saberes que este advento espiritual é oculto:
À sua sombra viveremos entre as nações. Por
conseguinte, convém que o enfermo, se não pode ir tão
longe ao encontro do médico, ao menos procure erguer a cabeça
e levantar-se à sua chegada.
Não te é necessário,
ó homem, atravessar mares, penetrar nas nuvens ou transpor montanhas.
Não é muito longo o caminho que te é mostrado: corre
ao encontro do teu Deus dentro de ti mesmo. Pois ao teu alcance está
a Palavra, em tua boca e em teu coração (Rm 10,8). Avança
até à compunção do coração e
à confissão dos lábios, para que ao menos saias do
lamaçal de tua mísera consciência, pois não
é lugar digno de que nele entre o autor da pureza. Estas coisas
são ditas com relação aquele advento pelo qual cada
alma é iluminada com um poder invisível.
DOS
SERMÕES DE SÃO BERNARDO, ABADE
Leitura para o
1º domingo do Advento - ano C
Esperamos o Salvador
É justo, irmãos, que
celebreis com toda devoção o advento do Senhor, cheios de
gozo por tanta consolação, admirados de tanta condescendência,
abrasados de tanto amor. Não penseis apenas no advento em que o
Senhor veio buscar e salvar o que estava perecendo, mas também naquele
no qual virá e nos levará consigo. Meditai, pois, continuamente
nestes dois adventos, ruminando em vossos corações quanto
nos deu no primeiro e quanto nos promete no segundo.
É tempo, irmãos, de
começar o julgamento pela casa de Deus. Qual será o fim dos
que se recusam a obedecer ao Evangelho? (1Pd 4,17) Qual será
o julgamento dos que neste julgamento não se mantêm de pé?
Todos os que evitam ser julgados pelo juízo que agora ocorre, no
qual o príncipe deste mundo é lançado fora, aguardem,
ou melhor, temam o Juiz pelo qual serão também eles lançados
fora com o seu príncipe. Porém, se agora nos julgamos com
exatidão, esperemos confiantes como Salvador o Senhor Jesus Cristo,
que transfigurará o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu
corpo glorioso (Fl 3,21). Então os justos resplandecerão,
de modo que doutos e indoutos os possam ver: brilharão como o
sol no Reino de seu Pai (Mt 13,43).
Quando vier o Salvador, transfigurará
o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso, se antes
o nosso coração tiver sido transfigurado e conformado à
humildade do coração dele. Por isso, dizia também:
Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração
(Mt 11,29). Considerai nestas palavras dois tipos de humildade: uma do
conhecimento e outra do afeto, também denominada «do coração».
Pela primeira, reconhecemos que nada somos, e a aprendemos de nós
mesmos e da nossa fraqueza; pela segunda, calcamos a glória do mundo,
e nos é ensinada por aquele que se humilhou a si mesmo, tomando
a forma de servo, e que, tendo fugido quando procurado para ser feito rei,
ofereceu-se voluntariamente ao ser procurado para tantos opróbrios
e para o ignominioso suplício da cruz.
DAS
HOMILIAS DE SÃO GREGÓRIO PALAMAS, BISPO
Leitura para o
XXXIII domingo comum - ano B correspondente ao evangelho do dia (Mc 13,24-32)
Oxalá também
nós na eternidade nos encontremos reunidos
com a multidão dos que
foram salvos
Vinde, benditos de meu Pai, tomai
posse do reino preparado para vós desde a criação
do mundo (Mt 25,34). Todos os ressuscitados ouvirão da boca
do próprio rei dos céus estas palavras; são os que
com fé sincera creram em nosso Senhor Jesus Cristo, manifestando
a sua fé nas obras, vigiando sobre si mesmos ou então purificando-se
das manchas do pecado mediante a confissão e a penitência,
e exercendo a temperança, a castidade, a caridade, a esmola, a justiça
e a verdade, virtudes estas contrárias aos vícios. Deste
modo, os que obtiveram por sorte o pacífico reino celeste, reinarão
com Cristo; viverão para sempre na inefável luz que desconhece
ocaso e não é interrompida pela noite; convivem com os santos
nas indizíveis delícias do seio de Abraão, onde não
há dor, nem lutos, nem gemidos.
A messe das espigas inanimadas é
feita conjuntamente por muitos segadores; a das espigas espirituais, a
humanidade, é feita por um único ceifeiro, que da incredulidade
recolhe para a fé os que recebem os arautos do evangelho. Os segadores
dessa messe são os Apóstolos e seus sucessores e os doutores
segundo as necessidades da Igreja. A respeito deles disse o Cristo: o
ceifeiro recebe o salário e ajunta frutos para a vida eterna
(Jo 4, 36). Tanto maior recompensa espiritual recebem de Deus os doutores,
quanto maior é o número dos fiéis que congregam para
a vida eterna. Mas existe também outra messe: a transferência
de cada um de nós desta vida para a futura. Neste caso, os segadores
são os anjos que, de certo modo, excedem os Apóstolos, pois,
uma vez recolhida a messe, escolhem e separam os bons dos maus, como o
trigo do joio; levam os bons ao reino e enviam os maus ao inferno.
A manifestação destas
realidades já se faz presente segundo o evangelho de Cristo, que
nos proporciona a oportunidade e as palavras. Oxalá também
nós, que já somos o povo eleito de Deus, nação
santa, Igreja do Deus vivo, segregados dos ímpios e dos sem religião,
sejamos no século futuro separados do joio e unidos à multidão
dos resgatados, no mesmo Cristo Senhor nosso que é bendito para
sempre. Amém.
DOS
SERMÕES DE SÃO BERNARDO, ABADE
Leitura para o
domingo, 9 de novembro de 1997, quando se celebra a Festa da Dedicação
da Basílica do Latrão, Catedral de Roma e, portanto, "Mãe
e cabeça de todas as igrejas". Tem esta festa precedência
sobre a celebração do domingo
É a festa da casa do
Senhor, do templo de Deus
Hoje, meus irmãos, celebramos
ainda uma solenidade, e solenidade importante. Ouçamos: é
a festa da Casa do Senhor, do Templo de Deus, da Cidade do Rei Eterno,
da Esposa de Cristo. Será que alguém duvida que a Casa de
Deus seja santa, quando lemos: À tua casa convém a santidade
(Sl 92, 5)? Assim é santo o seu templo, admirável na justiça;
esta santa cidade, também João dá testemunho de ter
visto: Vi - diz ele - a cidade santa, a nova Jerusalém,
descendo do céu de junto de Deus, preparada como uma esposa ornada
para o esposo (Ap 21,2).
Detendo-nos pelo menos um pouco nesta
alta visão, procuremos a Casa de Deus, o Templo, a Cidade, busquemos
a Esposa. Não o esqueci, é claro, mas o digo com medo e reverência:
somos nós. Mas no coração de Deus, por deferência
sua, e não por dignidade nossa. Não usurpemos o que é
de Deus, não queira o homem engrandecer a si mesmo (cf. Sl 9, 20).
Pois Deus humilharia aquele que se exaltar, atribuíndo a si o que
Deus fez.
Lembremo-nos também que ele
chama sua casa «casa de oração», o que certamente
corresponde à visão profética segundo a qual devemos
ser alimentados pelo pão dos lágrimas, e nas lágrimas,
isto é, em nossas orações, receber bebida (cf. Sl
79, 6). Aliás, conforme o mesmo profeta, a esta casa convém
a santidade, quer dizer: as lágrimas da penitência sejam acompanhadas
pela continência e a pureza, e deste modo a casa se transforme em
templo de Deus. Sede santos, diz ele, porque eu sou santo, o
Senhor vosso Deus (Lv 19,2). E o Apóstolo diz: Não
sabeis que os vossos corpos são um templo do Espírito Santo,
que habita em vós? (1 Cor 6,19). Se alguém violar
o templo de Deus, Deus o fará perecer (1Cor 3,17).
Perguntamos, porém, se esta
santidade já é suficiente. Também a paz é necessária,
como testemunha o Apóstolo dizendo: Procurai a paz e a santidade,
sem a qual ninguém verá a Deus (Hb 12,14). É esta
paz que leva os irmãos concordes a unir-se numa casa, edificando
a nosso Rei, verdadeiro e pacífico, uma cidade que seja chamada
Jerusalém, isto é, visão de paz. Por isto, meus irmãos,
se consta assim que pela abundante refeição do grande Pai
de família somos uma casa, se pela santidade somos um templo de
Deus, se pela comunhão da vida somos a cidade do Rei supremo, se
pelo amor somos a esposa do Esposo imortal, não será demasiado
que eu chame esta solenidade de «nossa solenidade»! E não
nos admiremos que esta festa se celebre na terra; pois é celebrada
também nos céus. Se, como diz a Verdade - e disto não
se pode ter dúvida - há alegria no céu, entre os anjos
de Deus, por um pecador que faça penitência (cf. Lc 15,10),
então haverá muito maior alegria pela penitêcia de
tantos pecadores. Alegremo-nos, por conseguinte, com os Anjos de Deus,
com o próprio Deus, e celebremos esta solenidade de hoje, com ação
de graças, porque quanto mais ela é da nossa casa, tanto
mais deverá ser fervorosa.
DO
LIVRO DE SANTO AGOSTINHO, BISPO, SOBRE OS DEVERES PARA COM OS MORTOS
Comentário
para o dia de Finados
Deveres prestados ao corpo
morto
Os cuidados relativos ao enterro, a
escolha da sepultura, a pompa dos funerais, são antes um consolo
para os vivos que um proveito para os mortos. Contudo não devemos
desprezar os corpos dos que morreram, sobretudo os dos justos e fiéis,
dos quais as almas se serviram santamente como instrumentos na práticas
de todas as boas obras.
Se uma veste ou anel de um pai, e outros
objetos do mesmo gênero, são tão mais caros aos descendentes
quanto maior sua afeição para com os pais, de modo algum
podemos menosprezar seus corpos, pois os corpos nos estão mais íntima
e estreitamente unidos que qualquer vestimenta. Eles não fazem parte
dos ornamentos ou dos instrumentos que nos são trazidos de fora,
mas da própria natureza do homem. Assim, sabemos com que piedosa
solicitude eram realizados outrora os funerais dos justos, a celebração
das exéquias, a preparação dos túmulos; eles
próprios muitas vezes, durante a sua vida, haviam ordenado a seus
filhos que sepultassem ou transferissem seus corpos.
Um amor que se recorda e que reza,
testemunhado aos mortos por aqueles que lhe são caros, é
sem dúvida de grande proveito para os que, durante sua vida corpórea,
mereceram que tais coisas lhes fossem úteis após esta vida.
Mas, se por motivo de força maior, não houver possibilidade
de sepultar os corpos ou de enterrá-los em lugar sagrado, não
se deve por isso esquecer as súplicas em favor das almas dos mortos.
Por todos aqueles que morreram na comunhão cristã e católica,
a Santa Igreja se encarrega de fazer essas orações, mesmo
sem mencionar o nome de cada um, numa comemoração geral,
a fim de que, como terna mãe de todos nós, preste esse socorro
aos que não tenham pais, filhos, parentes ou amigos. Mas, se omitirmos
estas súplicas, de uma fé e de uma piedade esclarecidas,
creio que nada adiantaria às almas terem seus corpos sepultados
em lugares sagrados.
Sendo assim, não imaginemos
poder atingir os mortos de que cuidamos senão pelo santo sacrifício
do altar, pelas orações e esmolas. Se bem que não
aproveitem a todos pelos quais os fazemos, mas somente àqueles que
em vida mereceram que isso lhes fosse proveitoso. Todavia, como não
podemos saber quais sejam, é preciso que façamos tais coisas
por todos os batizados, a fim de que não seja esquecido nenhum daqueles
a quem tais benefícios possam atingir. É melhor que sejam
supérfluos para aqueles aos quais não podem aproveitar nem
prejudicar, que virem a faltar àqueles que podem beneficiar-se deles.
Realizamos estas coisas com mais solicitude pelos parentes, a fim de obtermos
que também se realizem em nosso favor.
Porém, tudo o que se realiza
para o sepultamento do corpo não constitui uma ajuda para a salvação,
mas apenas um dever de humanidade, decorrente do amor que nos proíbe
odiar a própria carne. Assim, devemos cuidar, quanto pudermos, do
corpo do nosso próximo, quando partiu aquele que o ocupava. E, se
até aqueles que não crêem na ressurreição
agem desse modo, muito mais devemos fazê-lo os que cremos, para que
esses deveres prestados ao corpo morto, mas chamado a ressuscitar e a viver
eternamente, sejam como um testemunho da mesma fé.
DO
TRATADO «EXORTAÇÃO AOS PAGÃOS» DE CLEMENTE
DE ALEXANDRIA
(Comentário
a Mc 10,46-52, evangelho do XXX domingo do Tempo Comum - ano B)
Acolhamos a luz e tornemo-nos
discípulos do Senhor
O mandamento do Senhor é
transparente, ilumina os olhos (Sl 118,9). Recebe Cristo, recebe a
visão, recebe a luz para conhecer ao mesmo tempo Deus e o homem.
O Verbo pelo qual somos iluminados é mais desejável do
que o ouro, do que muito ouro refinado; mais doce do que o mel escorrendo
dos favos (Sl 18,11). Como poderia não ser desejável
aquele que proporcionou aluz à mente envolta em trevas e tornou
mais luminosos e mais vivos os olhos da alma? Se não houvesse sol,
haveria somente noite em toda parte, apesar das estrelas. Do mesmo modo,
se não tivéssemos conhecido o Verbo nem sido iluminados por
ele, seríamos como aves criadas sem luz, para depois sofrermos a
morte.
Abramo-nos, pois, à luz, para
possuirmos Deus. Acolhamos a luz, para nos tornarmos discípulos
do Senhor. Ele prometeu ao Pai: Anunciarei o teu nome aos meus irmãos,
no meio da assembléia te louvarei (Sl 21,23). Glorifica-o e
fala-me de Deus, teu Pai. Tuas palavras me trazem salvação.
Teu cântico me ensinará que até agora tenho errado
o caminho ao buscar a Deus.
Mas quando és tu, Senhor, que
me conduzes à luz e por meio de ti encontro a Deuse por ti abro-me
ao Pai, então me torno coherdeiro, contigo, porque não te
envergonhaste de me chamar irmão (cf. Hb 2,11).
Cuidemos de não esquecer a verdade,
afastemos de nós a ignorância, e, dissipadas as trevas que
ofuscam como nuvens nossos olhos, contemplemos o verdadeiro Deus, elevemos
imediatamente a voz, aclamando: Salve, ó luz! Pois a nós,
que estávamos sepultados nas trevas e envoltos na sombra da morte,
apareceu a luz do céu, mais pura do que o sol e mais cheia de alegria
do que esta vida. Essa luz é a vida eterna e dela vivem todas as
coisas que dela participam. A noite, ao contrário, fugiu da luz,
e, ocultando-se temerosa, cedeu o lugar ao dia do Senhor.Difundiu-se, por
toda parte, aquela luz que não pode extinguir-se, e o ocaso deu
lugar à aurora. Isto significa a nova criação. O Sol
de Justiça que, em seu curso, domina todas as coisas, ilumina todo
gênero humano, sem distinção, segundo o exemplo do
Pai, que faz brilhar o sol sobre todos os homens e os asperge com o orvalho
da verdade. Ele transportou o poente para o nascente e crucificou a morte
transformando-a em vida.
O divino agricultor implantou no céu
o homem arrancado à morte, transformando audaciosamente o corruptível
em incorruptível, o terrestre em celeste. Trouxe a boa nova, incitando
os povos ao bem, evocando à memória as normas de uma vida
reta, dando-nos uma herança çdivina e imensa que ninguém
pode arrebatar-nos. Com uma doutrina celeste, santificou o homem colocando
em sua mente a lei e escrevendo-a em seu coração (cf. Jr
31,33). De que lei se trata? Todos me conhecerão, desde o menor
até o maior, diz o Senhor, pois eu perdoarei sua iniquidade e não
me recordarei mais de seu pecado (Jr 31,34).
Acolhamos as lei da vida, obedeçamos
ao chamado de Deus. Acolhamo-lo para que ele nos seja propício.
Ofereçamos-lhe, embora não tenha necessidade disso, uma alma
bem disposta, como agradável ação de graças
pela sua habitação. A Deus, por cuja bondade aqui habitamos,
tributemos adoração e amor.
DAS
HOMILIAS DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, BISPO
(Comentário
a Mc 10,32-45, evangelho do XXIX domingo do Tempo Comum - ano B)
Não é tempo de
coroas e de prêmios, mas de lutas
Chegando Jesus a Jerusalém,
aproximou-se dele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos Tiago
e João, dizendo-lhe : Dize que estes meus dois filhos se assentem
um à tua direita e outro à tua esquerda (Mt 20,21). Outro
evangelista (Mc 10,35) diz terem sido os filhos que fizeram esse pedido
a Cristo. Mas não há desacordo, nem é o caso de nos
determos nessas minúcias. Tendo mandado a mãe à frente,
após ter ela falado e preparado o terreno, fizeram também
o pedido, sem saber o que diziam. Na verdade, embora apóstolos,
eram ainda muito imperfeitos, como filhotes de pássaros a girar
em torno do ninho, antes de lhes nascerem as penas.
É muito útil sabermos
que, antes da Paixão, estavam mergulhados em grande ignorância
a ponto de censurá-los o Senhor, dizendo: Nem mesmo vós
tendes entendimento? (Mt l5,16) Ainda não entendeis nem compreendeis
(Mc 8,17) que não estava falando de pão quando vos disse:
acautelai-vos do fermento dos fariseus? (Mt 16,11). E mais tarde: Tenho
ainda muita coisa a dizer-vos, mas não sois capazes de compreender
agora (Jo 16,12).
Não vemos que certamente nada
sabiam da ressurreição? E o evangelista o acentua dizendo:
Ainda não tinham compreendido que, conforme a Escritura, devia
ressuscitar dos mortos (Jo 20,9). E se não sabiam isso, com
mais razão ignoravam outras coisas, como, por exemplo, o que se
refere ao reino dos céus, à nossa origem e ascensão
ao céu. Ainda apegados à terra, não podiam elevar-se
às alturas. Esperavam, convictos, que de um dia para o outro, reconstituisse
ele o reino de Jerusalém, uma vez que não eram capazes de
compreender outra coisa. Outro evangelista também o indica, afirmando
que pensavam já estar próxima a vinda do reino, que imaginavam
semelhante aos reinos terrenos, e acreditavam estar-se preparando para
instaurá-lo e não para a cruz e para a morte. Não
conseguiram compreender essas coisas apesar de as terem ouvido muitas vezes.
Não tendo, pois, chegado a um
claro e exato conhecimento da verdade, acreditavam estar a caminho de um
reino terreno, certos de que ele reinaria em Jerusalém. E estando
perto dele, na estrada, aproveitaram a ocasião para dirigir-lhe
tal pedido. Afastando-se do grupo dos discípulos, como se tudo dependesse
de sua vontade, pedem-lhe um lugar privilegiado e que lhes fossem atribuídos
cargos importantes. Achavam que as coisas chegavam a seu fim, que tudo
estava terminado, e viera o tempo das coroas e dos prêmios. Era o
cúmulo da ignorância.
Depois do pedido que fizeram, ouçamos
a resposta de Jesus: Não sabeis o que pedis (Mt 20,22). Não
era o momento de coroas e prêmios, mas de batalha, de luta, de fadigas,
de suores, de provações e combates. A frase não
sabeis o que pedis significa tudo isto. Ainda não experimentastes
os cárceres, ainda não entrastes em campo para combater.
Podeis beber o cálice que
eu vou beber, ou ser batizados com o batismo com que serei batizado?
(Mc 10,38). Neste momento chama cálice e batismo à
sua cruz e à sua morte. Cálice porque as bebe avidamente;
batismo porque com elas purifica a terra. Não só deste
modo a redimia, mas também pela ressurreição, que
não lhe foi custosa. Do cálice que vou beber também
bebereis, e com o batismo com que vou ser batizado, sereis batizados
(Mc 10,39), diz ele, chamando assim à sua morte. Na verdade Tiago
teve a cabeça cortada pela espada e João como que passou
por várias mortes. Porém sentar à minha direita
ou à minha esquerda, não me cabe concedê-lo, mas é
para aqueles para quem foi preparado (Mc 10,40). Vós morrereis,
sereis condenados à morte e obtereis a honra do martírio.
Quanto a ser o primeiro, não me cabe concedê-lo, mas é
para aqueles para quem foi preparado.
DAS
HOMILIAS DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, BISPO
(Oratio 3 adversus
Iudaeos: PG 48, 867-868)
Por que razão jejuamos nestes
quarenta dias? Outrora, principalmente no tempo em que Cristo se entregou
à morte, muitos se aproximavam dos santos mistérios temerariamente
e sem discernimento. Por conseguinte, quando os pais compreenderam quanto
prejuízo resultaria dessa aproximação temerária,
determinaram quarenta dias de jejum, preces, escuta da Palavra de Deus
e assembléias religiosas. Isto para que nesses dias todos nós,
diligentemente purificados pela oração, pela esmola, pelo
jejum, pelas vigílias e lágrimas, pela confissão e
por outras ações, segundo a nossa capacidade, nos aproximemos
dos santos mistérios com a consciência pura.
É evidente que, por este seu
empenho, realizaram eles algo de grande e excelente ao nos inculcarem o
hábito do jejum. Com efeito, mesmo se cessarmos de pregar e proclamar
o jejum o ano todo, ninguém dará atenção a
nossas palavras. Basta porém que chegue o tempo da Quaresma e embora
ninguém exorte, ninguém aconselhe, até as pessoas
muito negligentes serão estimuladas e aceitarão o conselho
e a exortação oferecidos para este tempo.
Se, portanto, alguém te pergunta
o motivo por que jejuas, não digas: por causa da Páscoa,
nem por causa da cruz. Pois não é por causa da Páscoa,
nem por causa da cruz que jejuamos, mas por causa de nossos pecados, porque
vamos nos aproximar dos santos mistérios. A Páscoa não
é ocasião de jejum, nem de luto, mas de alegria e exultação.
Na verdade, a cruz destruiu o pecado,
foi a expiação do mundo, a reconciliação do
ódio inveterado; ela abriu as portas do céu, tornou amigos
os que eram inimigos, reconduziu-nos ao paraíso, colocou nossa natureza
à direita do trono de Deus, concedeu-nos com largueza inúmeros
outros dons. Portanto, não convém chorar ou amargurar-se,
mas alegrar-se e regozijar-se por causa de tudo isso.
Por essa razão, disse também
Paulo: Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz do nosso Senhor
Jesus Cristo (Gl 6,14). E ainda: A prova de que Deus nos ama é
que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores
(Rm 5,8).
João afirma claramente: Deus
amou tanto o mundo. Como? pergunto. E deixando tudo mais, assumiu a
cruz. Como dissesse: Deus amou tanto o mundo, acrescentou: que
deu o seu Filho unigênito para ser crucificado, para que não
morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16). Por
conseguinte, se a cruz é ocasião de caridade e de glória,
não vamos dizer que choramos por sua causa. Não choramos
por causa dela, mas, ao contrário, por causa de nossos pecados.
Por isso é que também jejuamos.
DOS
TRATADOS DE SANTO AGOSTINHO, BISPO
(Tract. 33,7-8:
CCL 36,309-310)
Estejam atentos aqueles que no Senhor
amam a sua bondade e temem a sua verdade. Realmente o Senhor é
piedade e retidão (Sl 24,8). Gostas de que ele seja bom; temes,
porque ele é reto. Em sua bondade ele disse: Calei-me, mas
porque é justo, acrescentou: Hei de calar-me sempre? (Is
42,14; cf. LXX). O Senhor é misericordioso e compassivo (Sl
85,15). Sim, é verdade. Acrescenta ainda: lento para a cólera
(Sl 85,15), e prossegue: e rico em misericórdia (Sl 85,15);
mas teme o que é dito em último lugar: e cheio de verdade
(Sl 85,15). Sim, aqueles que ele suporta agora como pecadores, ele os julgará
por terem-no desprezado. O Senhor é bom, o Senhor é lento
para a ira, o Senhor é misericordioso, mas o Senhor é também
justo e cheio de verdade.
Ele concede tempo para te corrigires,
mas preferes desfrutar dessa trégua a te converteres. Foste mau
ontem, sê bom hoje: passaste este dia no mal, ao menos amanhã
muda de conduta. Esperas sempre e prometes a ti mesmo muita misericórdia
de Deus, como se aquele que te prometera o perdão na penitência
tivesse te prometido uma vida ainda mais longa. Como saberás o que
te está reservado para amanhã? Tens razão ao dizer
em teu coração: «Quando eu me corrigir, Deus perdoará
todos os meus pecados». Não podemos negar que Deus prometeu
seu perdão aos que se corrigirem e se converterem. Mas, na realidade,
no Profeta, onde lês que Deus prometeu o perdão a quem se
corrige, não lês que ele te prometeu uma vida longa.
Os homens se acham, assim, em perigo
dos dois lados, esperando como desesperando; duas coisas opostas, dois
sentimentos contrários. Quem foi decepcionado em sua esperança?
Aquele que diz: «Deus é bom, Deus é misericordioso,
posso fazer o que quiser, o que me é agradável. Vou soltar
as rédeas às minhas paixões, vou satisfazer os desejos
de minha alma. Por quê? Porque Deus é misericordioso, porque
Deus é bom, porque Deus é cheio de benevolência».
Esse se acha em perigo por causa da esperança. Mas há os
que desesperam, os que, após terem caído em pecados graves,
acham que não podem mais ser perdoados caso se arrependam. Consideram-se
como que definitivamente destinados à condenação e
dizem em si mesmos: «Já que seremos condenados, por que não
fazer tudo o que quisermos?».
Leitura Monástica
A DIMENSÃO MISSIONÁRIA
DA VIDA MONÁSTICA
Por ocasião do Dia Mundial
das Missões, a ser celebrado no domingo, 19 de outubro - ocasião
em que o Papa João Paulo II estará proclamando a Padroeira
das Missões, Santa Teresa do Menino Jesus, Doutora da Igreja - achamos
interessante divulgar alguns trechos de recente alocução
do Santo Padre. Falando a monjas italianas de várias Ordens de clausura,
no dia 28 de setembro de 1997, na Catedral de S. Pedro, em Bolonha, por
ocasião do 23º Congresso Eucarístico Nacional da Itália,
disse o Papa:
"A vossa missão é alimentar
e sustentar a ação pastoral da Igreja com o precioso contributo
da contemplação, da oração e do sacrifício,
que continuamente ofereceis nos vossos mosteiros, cuja silenciosa presença
manifesta aos homens do nosso tempo o início do Reino de Deus.
Assim como a Igreja, também
a Comunidade monástica nasce da Eucaristia, se alimenta com o sacramento
do Corpo e do Sangue do Senhor e está para Ele constantemente orientada.
Cada dia a liturgia convida-vos a contemplar, através do lado trespassado
de Cristo na Cruz, o mistério do Amor eterno do Pai, para depois
o testemunhardes na vossa existência totalmente oferecida a Deus.
A vós Jesus revela o mistério do Seu amor, para que O guardeis
como Maria, no silêncio fecundo da fé, tornando-vos juntamente
com Ela colaboradoras na obra da salvação.
Caríssimas Irmãs, a vossa
vida, recolhida e conservada no mistério da Trindade, torna-vos
partícipes do íntimo diálogo de amor que o Verbo manteve
de maneira ininterrupta com o Pai, no Espírito Santo.
Deste modo, o vosso quotidiano "sacrificio
laudis", unido ao cântico constituído pelas vossas existências
de pessoas consagradas na vocação claustral, antecipa já
sobre esta terra algo da eterna liturgia do céu. A contemplativa,
afirmava a Beata Isabel da Trindade, "deve estar sempre ocupada na ação
de graças. Cada um dos seus atos, dos seus movimentos, cada pensamento
seu e aspiração, ao mesmo tempo que a enraizam de modo mais
profundo no amor, são como um eco do Sanctus eterno" (Escritos,
Retiro, 10,2).
A Eucaristia é o dom que Cristo
fez à sua Esposa, na hora de deixar este mundo para retornar ao
Pai. Queridas Irmãs, a comunidade cristã reconhece na vossa
vida "um sinal da união exclusiva da Igreja-Esposa com o seu Senhor"
(Vita consecrata, 59). O mistério do caráter esponsal, que
pertence à Igreja na sua integridade (cf. Ef 5,23-32), assume nas
vocações de especial consagração um relevo
particular, que atinge a sua mais eloquente expressão na mulher
con agrada: com efeito, pela sua própria natureza, ela é
figura da Igreja, virgem, esposa e mãe, a qual mantém íntegra
a fé dada ao Esposo gerando os homens para a vida nova no batismo.
Na religiosa de clausura, depois, precisamente
porque está empenhada em viver em plenitude o mistério esponsal
da união exclusiva com Cristo, "realiza-se o mistério celeste
da Igreja" (Santo Ambrósio, De institutione virginis, 24,255). Ao
mistério do "corpo dado" e do "sangue derramado", que toda a Eucaristia
representa e atualiza, a claustral responde com a oblação
completa de si mesma, renunciando completamente "não só às
coisas, mas também ao espaço, aos contatos, a tantos bens
da criação" (Vita consecrata, 59). A clausura constitui uma
maneira particular de "estar com o Senhor", participando no Seu aniquilamento
numa forma de pobreza radical, mediante a qual se escolhe Deus como "o
Único Necessário" (cf. Lc 10, 42), amando-O exclusivamente
como o Tudo de todas as coisas. Desse modo os espaços do mosteiro
claustral alargam-se para horizontes imensos, porque são abertos
ao amor de Deus que abraça todas as criaturas.
A clausura, portanto, não é
só um meio de imenso valor para conseguir o recolhimento, mas um
modo sublime de participar na Páscoa de Cristo. A vocação
claustral introduz-nos no Mistério eucarístico, favorecendo
a vossa participação no Sacrifício redentor de Jesus
para salvação de todos os homens.
À luz destas verdades manifesta-se
o vínculo estreitíssimo que existe entre contemplação
e missão. Mediante a união exclusiva com Deus na caridade,
a vossa consagração torna-se fecunda de maneira misteriosa,
mas real. Esta é a vossa modalidade típica de participar
na vida da Igreja, o contributo insubstituível para a sua missão,
que vos torna "colaboradoras do próprio Deus e apoio dos membros
débeis e vacilantes do seu inefável Corpo" (Santa Clara de
Assis, Terceira Carta a Santa Inês de Praga, 8).
Na vossa "forma de vida" torna-se visível,
também aos homens do nosso tempo, a face orante da Igreja, o seu
coração inteiramente possuído pelo amoe por Cristo
e repleto de gratidão pelo Pai. De cada mosteiro eleva-se incessantamente
a oração de louvor e de intercessão pelo mundo inteiro,
do qual sois chamadas a acolher e compartilhar sofrimentos, expectativas
e esperanças.
A vossa vocação contemplativa
constitui também um jubiloso anúncio da proximidade de Deus
e, ao mesmo tempo, a Sua presença amorosa ao lado de cada pessoa,
especialmente se for pobre e desorientada.
A vossa vida, que com a sua separação
do mundo se expressa de modo concreto e eficaz e proclama a primazia de
Deus, constitui um apelo constante à preeminência da contemplação
sobre a ação, daquilo que é eterno sobre o que é
temporâneo. Ela propõe-se, por conseguinte, como uma representação
e uma antecipação da meta, para a qual caminha a comunidade
eclesial: a futura recapitulação de todas as coisas em Cristo.
Quanto tudo isto é verdadeiro,
testemunha-o de modo significativo o exemplo de Santa Teresa de Lisieux,
da qual recordamos este ano o primeiro centenário da morte, e que
no próximo dia 19 de outubro terei a alegria de proclamar Doutora
da Igreja. A sua breve existência, transcorrida no escondimento,
continua a falar-nos do fascínio da busca de Deus e da beleza da
completa doação de si ao Seu amor. Na sua sede ardente de
cooperar na obra da redenção, ela perguntava-se, como sabeis,
qual era a sua missão específica na Igreja. Nenhuma opção
a satisfazia plenamente, até ao dia em que, iluminada interiormente,
compreendeu que a Igreja tinha um coração, e que este coração
ardia de amor: "No coração da Igreja, minha mãe -
ela decidiu então - serei o amor". Para realizar esta singular vocação
ao amor, é preciso não se deixar enganar pela sabedoria mundana;
só aos pequeninos, com efeito, o Pai revela os seus mistérios,
entrando no coração deles que, segundo uma bonita expressão
de Santa Clara de Assis, é "mansio et sedes", "morada e permanência"
da Majestade divina (cf. Tercedira Carta a Santa Inês, 21-26).
As vossas comunidades claustrais, com
os seus próprios ritmos de oração e de exercício
da caridade fraterna, nas quais a solidão é impregnada pela
suave presença do Senhor e o silêncio dispõe a alma
à escuta das Suas sugestões interiores, são o lugar
onde cada dia vos formais para este conhecimento amoroso do Verbo do Pai.
De coração faço votos por que a vossa vida seja penetrada
por esta constante tensão para Deus, por uma incessante oblação
eucarística que transforme a existência em total holocausto
de amor, em união com Cristo, para a salvação do mundo."
Papa João Paulo
II
EDITORIAL DE FEVEREIRO/98
A PARÁ-OIKÍA
(PARÓQUIA) DO CRISTÃO
O cristão utiliza os vocábulos
"paróquia, pároco, paroquiano" sem talvez se dar conta de
todo o alcance desses termos. Na verdade, são portadores de profundo
significado.
Com efeito, paróquia
vem do grego pará-oikía,o que significa "casa ou posada
(oikía) ao lado (pará)". Tal é a tenda que o viandante
ergue quando faz uma parada na estrada para repousar; não entra
na cidade, mas acampa ao lado (ou fora) da cidade, porque não é
cidadão da mesma, nem pretende ali fixar residência; ele quer
ir adiante; por isto é paróikos.
O vocábulo é muito caro
à linguagem bíblica: o povo de Deus e cada um dos seus membros
são tidos como viandantes ou peregrinos sobre a terra, em demanda
da Cidade Definitiva, cujo Arquiteto e Construtor é o próprio
Deus (Hb 11,10). O autor da epístola aos Hebreus chega a dizer:
Não temos aqui uma cidade estável, mas procuramos a futura
(Hb 13,14). Com muito acerto o cristão percebe que este mundo não
pode ser o destino supremo do homem; as contradições aqui
existentes acenam a uma realidade melhor, em que o Bem e o Mal serão
reconhecidos como tais. Consciente disso, São Pedro se refere aos
tempos da nossa paroikía, vocábulo que se traduz
geralmente por "exílio": Portai-vos com temor durante o tempo
da vossa paroikía (1Pd 1,17). Na verdade, a cidadania
do cristão está nos céus, donde ele espera ansiosamente
o Salvador, que o levará para a glória (Fl 3,20).
As mesmas convicções
se expressam nitidamente na literatura cristã dos primeiros séculos.
Assim, as Atas do Martírio de São Policarpo (+156) saúdam
os leitores destinatários com as palavras: A Igreja de Deus que
é pároca em Esmirna á Igreja de Deus que é
pároca em Filomélio. "Ser pároco", no caso,
significa "ser viandante acampado a caminho da meta definitiva". Esse mesmo
documento refere-se a todas as paróquias (assentamentos de caminheiros)
da Igreja Católica. Um pouco mais tarde, no século III,
um cristão anônimo escrevia a Diogneto, dizendo-lhe: Os
cristãos habitam a sua pátria, mas como pároikoi
(viandantes). De tudo participam como cidadãos, mas tudo suportam
como estrangeiros. Toda terra estrangeira é pátria para eles,
e toda pátria lhes é terra estrangeira (5,5).
Tal vocabulário passou para
a linguagem católica posterior, mas foi perdendo o seu significado
originário tão importante. É oportuno reavivar nos
cristãos a consciência de que tudo passa neste mundo: passa
a figura deste mundo (1Cor 7,31). Isto não dispensa os fiéis,
pároikoi de trabalhar zelosamente na construção
de um mundo melhor, mas abre horizontes, e ajuda a olhar para o futuro
que trará a resposta cabal aos anseios dos homens, resposta que
nenhuma obra meramente terrestre, por mais bela que seja, jamais poderá
propiciar.
E.B.
EDITORIAL DE SETEMBRO/97
«SENHOR, ONDE ESTÁS?»
O sofrimento é muitas vezes
o grande enigma dos homens: por que..., para que existe? Onde fica Deus?
Em vez de se deixar levar pelas emoções,
o cristão, diante de tal questionamento, põe a razão
e a fé para funcionar. Estas ensinam que Deus não pode ser
o Autor dos males que afligem os homens, pois, por definição,
Deus é o Santo e o Perfeito. O mal só pode provir das criaturas
limitadas... necessariamente limitadas, pois, se não o fossem, seriam
deuses. Cada qual é dotada da sua maneira própria de agir.
O Senhor não quis fazer um mundo
artificial, policiado a todo momento, de modo que o homem seria uma marionete
no teatro da história teledirigida por um teatrólogo todo-poderoso.
Essa peça de teatro poderia ser bonita, mas teria uma nota negativa:
a sufocação da liberdade de criaturas livres por sua própria
natureza e espontaneamente desejosas de exercer a sua liberdade.
Sendo assim, o Senhor Deus concebeu
uma outra modalidade de enredo da história. Sim; Ele deixa as criaturas
agir segundo a sua natureza: as irracionais, conforme as leis da Física;
as racionais, segundo as opções da sua liberdade. Isto é
mais nobre e magnânimo do que esmagar a liberdade de quem foi feito
para ser livre. Como se compreende, porém, a liberdade dá
sua "mancadas" ou pratica lances falsos (é claro, porém,
que nem tudo é falho, mas muita coisa estupenda ocorre por opção
das criaturas livres). O papel nobre de Deus, no caso, será o de
fazer que os próprios males das criaturas contribuam para o bem
das mesmas. É Sto. Agostinho quem diz: «Deus nunca permitiria
o mal, se Ele não tivesse recursos para tirar do mal bens ainda
maiores». Com outras palavras: Ele preferiu utilizar o mal em
favor do bem a impedir soberanamente o mal.
A Sagrada Escritura é toda perpassada
por esta concepção. Já em seu primeiro livro encontra-se
a história de José vendido por seus irmãos a estrangeiros
e condenado ao extermínio. Diz finalmente José, feito Primeiro-Ministro
do Faraó do Egito, aos seus irmãos que se lhe apresentam
como escravos: «Não tenhais medo algum! O mal que tínheis
a intenção de fazer-me, o desígnio de Deus o mudou
em bem a fim de cumprir o que se realiza hoje: salvar a vida a um povo
numeroso. Não temais; eu vos sustentarei, bem como a vossos filhos»
(Gn 50,18-21).
Estas palavras são como um clichê
que percorre toda a mensagem bíblica e culmina na figura de Jesus
Cristo. Este foi vendido por seus irmãos e condenado a morrer, mas
Ele pode dizer: «Estive morto, mas eis que vivo pelos séculos
dos séculos e tenho as chaves da região dos mortos»
(Ap 1,17s).
O mesmo clichê se aplica a cada
discípulo de Cristo. A cruz que ele carrega é parte da Cruz
de Cristo; é o lenho da vida, que faz passar da morte para a plenitude
bem-aventurada. Eis por que o cristão não se abate, mas sabe
que nada lhe acontece fora do sábio plano da Providência,
que nunca permitiria o mal se não tivesse recursos para tirar do
mal bens ainda maiores.
E.B.
EDITORIAL DE JUNHO/97
«POR CAUSA DO SEU GRANDE
AMOR...»
O mês de junho é dedicado
ao Sagrado Coração de Jesus. Esta devoção tomou
vulto especial por ocasião das aparições de Jesus
a Sta. Margarida Maria Alacoque (+1690), na época em que o jansenismo
atemorizava os fiéis, propondo-lhes um Deus que não queria
a salvação de todos os homens, mas apenas a dos eleitos.
Em réplica a esta concepção, Jesus apresentou o seu
Coração, símbolo do amor de Deus por toda a humanidade,
amor tão forte que assumiu o que é do homem para dar-lhe
o que é de Deus.
São Paulo explana esse amor
com muita ênfase ao recordar a situação de gentios
e judeus antes de Cristo: estavam mortos sob o domínio do pecado...
«Mas Deus, rico em misericórdia, por causa do seu grande
amor...» O "mas Deus" é adversativo; inverte o quadro
sombrio da morte, tornando-o luminosa perspectiva de vida. Essa reviravolta
é devida ao amor de Deus; o Apóstolo faz questão de
realçar bem o amor gratuito: «Deus que é misericordioso,
por causa do grande amor... a nós, que estávamos mortos»
(Ef 2,1-5). A morte, no caso, não era apenas ausência de vida,
mas era a revolta e a inimizade para com Deus. Nada havia no homem que
pudesse provocar a benevolência divina. Mas precisamente nisto consiste
o amor de Deus: ele não precisa de ser motivado pela amabilidade
do seu objeto; ao contrário, é esse amor que cria a amabilidade
do objeto. O homem não é amado por Deus porque seja bom e
amável, mas é bom e amável porque Deus o ama...
Amando-nos, Deus «nos tornou
vivos em Cristo» (Ef 2,5). Como nos tornou vivos? - Enviando-nos
o Filho, que assumiu o que é do homem no seio da Virgem; «trabalhou
com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com
vontade humana, amou com coração humano» (Gaudium
et Spes nº 22); a seguir, morreu na
Cruz, ressuscitou e nos deixou Batismo e Eucaristia para participarmos
da vitória de Cristo. Assim fomos salvos. Esta palavra, na
linguagem religiosa, talvez esteja inflacionada e empalidecida. Para entendê-la,
pensemos no que acontece na vida do dia-a-dia, quando alguém é
arrancado das garras da morte (morte corporal); pensemos no que ocorre
quando os bombeiros salvam alguém das chamas de um incêndio
ou quando a Defesa Civil retira vivo alguém soterrado pelos escombros
de uma casa que desabou! Como aí é claro e quase palpável
o conceito de salvação! Sem dúvida, a vida cotidiana
está cheia de parábolas ou de situações que
são imagens daquilo que acontece no plano superior ou espiritual.
Fomos salvos não para morrer finalmente, mas para uma vida ainda
mais preciosa do que a vida terrestre..., salvos para a vida eterna. E
salvos pela graça, gratuitamente.
Entende-se então que Jesus apareça
neste mês de junho sob o símbolo do Coração
a recordar a verdade básica do Cristianismo ou a extraordinária
façanha do amor de Deus, façanha esquecida ou empalidecida
na mente de muitos fiéis. Recordando-a, o Senhor pede uma resposta
à altura do dom de Deus: «Eis o Coração que
muito amou os homens, mas deles só tem recebido ingratidão».
E.B.
EDITORIAL DE MAIO/97
«ALEGRA-TE, CHEIA DE
GRAÇA»
Os fiéis católicos
têm por hábito saudar a Virgem Maria com as palavras do anjo
"Chaîre Kecharitoméne" (Lc 1,28), que são geralmente
traduzidas por "Ave Maria, cheia de graça". Todavia, o texto grego
diz literalmente: "Alegra-te..." e não "Ave" ou "Salve". A diferença
de traduções é importante, pois o convite à
alegria dirigido a Maria faz eco ao mesmo convite dirigido freqüentemente,
no Antigo Testamento, à Filha de Sião ou ao povo de Israel
(cf. Is 12,6; 44,23; 49,13; 54,1...). O motivo da alegria proposta é
a vinda do Messias e da salvação a ser realizada por Ele.
A Filha de Sião assim interpelada é tida como a Mãe
que dará à luz o Messias (Jr 4,31; Mq 4,10). De modo especial
vem ao caso o texto de Sofonias 3,14-18 como pano de fundo do anúncio
do anjo a Maria:
Sf 3,14-18: «Alegra-te,
Filha de Sião. O Senhor está no meio de ti. Não temas,
Sião. O Senhor teu Deus está em teu seio como Salvador, o
Senhor Deus de Israel».
Lc 1,28-33: «Alegra-te,
cheia de graça. O Senhor está contigo... Não temas,
Maria. Conceberás em teu seio... E o chamarás Jesus (Salvador),
e reinará».
Recolocando, pois, a saudação
do anjo sobre o seu fundo de Antigo Testamento, verifica-se algo de muito
profundo: Maria, interpelada por Gabriel, vem a ser a representante, por
excelência, da Filha de Sião; é a autêntica Mãe
do Messias. Daí a exortação à alegria, que
São Lucas tanto recomenda em seu Evangelho (cf. Lc 1,14.28.41.44.58;
2,10; 10,17-23; 15,6.9.10.23.32; 24,21.54...). Desponta a aurora da salvação;
não há porque temer (observação também
feita aos pastores em Lc 2,10). Maria, grávida, vai ter com Isabel,
cujo filho «exulta de alegria no seio materno» (Lc 1,41.44).
Assim toda a história do
Antigo Testamento conflui para Maria Santíssima. Ela é o
ponto final que compendia em si a expectativa dos Patriarcas, as angústias
dos justos à espera do Messias, a paciência do povo de Deus...
E ela responde ao Senhor que lhe fala, com as palavras "Génoitó
moi" (Faça-se em mim), verbo no modo optativo, que significa: «Oxalá
realize o Senhor em mim a sua obra conforme a palavra do anjo»
(Lc 1,38). Esta resposta exprime ardente desejo ou prece e plena disponibilidade
para o serviço do Senhor, ainda que apresentado misteriosamente.
Diante do inédito, Maria se curva, porque «para Deus nada
é impossível» (Lc 1,37). Aliás, já
no Antigo Testamento, o Senhor Deus revelou que a salvação
do homem é possível, mesmo quando parece inexeqüível
(cf. Gn 18,14; Jr 32,21).
É, pois, com razão
que a Igreja se volta para Maria neste mês de maio, venerando-a em
sua grandeza humilde, e pedindo-lhe que continue a exercer o seu papel
de Mãe do Messias, pois Este tem um Corpo prolongado, que é
a comunidade dos fiéis, ou seja, cada cristão congregado
na Comunhão dos Santos.
«Alegra-te, Filha de Sião,
cheia de graça...!»
E.B.
EDITORIAL DE ABRIL/97
«CANTAI UM CÂNTICO
NOVO» (Sl 96,1)
O mês de abril é todo
perpassado pelos ecos da Páscoa, celebrada aos 30/03 pp. Na vigília
da Ressurreição do Senhor, os cristãos renovaram as
suas promessas de Batismo, recordados de que pelo Batismo participaram
da morte de Jesus ao pecado e da sua ressurreição como novo
Adão. Ser batizado é realmente ser nova criatura, enxertada
em Cristo, feita filho de Deus no FILHO. Faz-se necessário, porém,
renovar periodicamente a consciência desta grande verdade, visto
que a natureza, lerda como é, tende a levar sempre à rotina
e à acomodação. Sto. Agostinho (+430) dirigia-se aos
cristãos recém-batizados na vigília de Páscoa
em termos que até hoje conservam pleno valor:
«Ó irmãos,
ó filhos, ó novos rebentos da Igreja Católica, ó
geração santa e celestial, que renascestes em Cristo para
uma vida nova! Ouvi-me, ou antes, ouvi através do meu convite: Cantai
ao Senhor um cântico novo. "Já canto", dir-me-eis. Sim, ouço
que cantais. Mas oxalá a vossa vida não dê tesemunho
contra a vossa língua!»
Cantai com a voz, cantai com
o coração, cantai com a boca, cantai com a vida: "Cantai
ao Senhor um cântico novo" (Sl 96,1). Perguntais-me o que deveis
cantar a respeito daquele a quem amais. Sem dúvida, é acerca
daquele a quem amais que vós desejais cantar. Quereis saber então
que louvores haveis de cantar? Já o ouvistes: Cantai ao Senhor um
cântico novo. E que louvores? Cantai os vossos louvores na assembléia
dos santos. O maior louvor do cântico é o próprio amor.
Quereis tributar louvores a Deus? Sede vós o cântico que haveis
de cantar. Vós sois o Seu maior louvor, se viverdes santamente.»
Estas palavras de Sto. Agostinho
lembra oportunamente que a riqueza do cristão consiste em sua fidelidade
incondicional a Deus; sua vida, ainda que modesta, é um cântico
ao Senhor:
«Não deixeis de
viver santamente, e louvareis sempre a Deus. Deixais de O louvar quando
vos afastais da justiça e do que Lhe agrada. Se nunca vos desviardes
do bom caminho, ainda que se cale a vossa língua, clamará
a vossa vida e o ouvido estará perto do vosso coração.
Porque, assim como os nossos ouvidos escutam as nossas palavras, assim
os ouvidos de Deus escutam os nossos pensamentos» (Sto. Agostinho).
E, cantando a Deus por uma vida
santa, o cristão canta também aos seus irmãos. Não
há dúvida, aquilo de que o mundo hoje mais necessita, é
o testemunho de vivências coerentes e corajosas, decididas a amar
a Verdade e a morrer por ela no comezinho de cada dia ou também
no páreo sangrento da perseguição. Quem assim procede
é uma flor rara, que realmente proclama a novidade da Páscoa
ou da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. - Ser arauto de
tal mensagem é a maior dignidade que alguém possa almejar
neste mundo. Seja cada cristão uma nova criatura num mundo sedento
de "novidades"!
E.B.
Carta enviada para O GLOBO
O ABORTO É HOMICÍDIO
Em resposta ao artigo publicado
sobre a Igreja e o aborto, desejo observar que toda a argumentação
em favor do aborto cai por terra desde que se considere que o aborto é
um homícidio..., e homicídio tal como não ocorria
nem mesmo nos campos de concentração nazistas (onde havia
câmaras de gás e fuzilamentos). No aborto a criança
é dilacerada, despedaçada...; tem uma tesoura fincada no
seu pescoço; o seu cérebro é sugado, de modo a causar
o colapso do bebê, que vem finalmente arrancado do seio materno.
E isto tudo é cometido geralmente a pedido da mãe ou com
o consentimento dela. Tal prática fere não somente a criança,
mas também o senso humanitário de qualquer criatura mentalmente
sadia; fere principalmente o senso maternal da mulher. Muito mais nobre,
da parte da mãe, é não matar o filho, deixá-lo
nascer e entregá-lo a um casal ou a uma instituição
(se não o quer ou não o pode educar). Aliás, quem
é contrário à pena de morte para um criminoso, com
mais razão deve ser contrário à pena de morte para
uma criança inocente. Quanto à posição da Igreja
frente ao aborto através dos séculos, o fato é que
a Igreja sempre considerou ilícito o aborto, mesmo quando se pensava
que a animação do feto se dava no 40º ou 80º dia;
seria sempre o morticínio de um ser humano em formação.
EDITORIAL DE MARÇO/97
«COM CLAMOR E LÁGRIMAS...
FOI ATENDIDO»
Março de 1997 termina com
o Tríduo Sacro ou os dias em que se comemoram a Paixão, a
Morte e a Ressurreição do Senhor Jesus. São os dias
mais densos do ano litúrgico, cujo conteúdo se encontra compendiado
nas palavras do Apóstolo: "Jesus, nos dias de sua vida terrestre,
apresentou pedidos e súplicas, com clamor e lágrimas, àquele
que o podia salvar da morte, e foi atendido por causa da sua reverência"
(Hb 5,7).
Estas palavras começam por
recordar a oração do Senhor Jesus posto em agonia no Horto
das Oliveiras pouco antes de ser preso. Então, antevendo os horrores
da Paixão que o aguardava, pediu ao Pai que o dispensasse de beber
o cálice. Os autores sagrados frisam bem o aspecto humano de Jesus;
Ele pediu, suplicou, exprimindo sua angústia mediante clamor, lágrimas
e suor de sangue (cf. Lc 22,44). Ele quis compartilhar tudo o que é
humano, inclusive o pavor do sofrimento e da morte, para poder ser o Sacerdote
perfeito, verdadeiro homem e verdadeiro Deus (cf. Hb 2,17;4,15). Ocorre,
porém, que Jesus, por mais repugnância que sentisse pelo cálice,
subordinou seu pedido à vontade do Pai: "Faça-se a tua
vontade, e não a minha" (Mc 14,36).
Continua o autor de Hebreus: "E
foi atendido por causa da sua reverência". - É espontâneo
perguntar: como foi atendido, se padeceu e morreu tão atrozmente?
A resposta não é difícil. Jesus pediu, acima de tudo,
que se cumprisse a vontade do Pai a seu respeito. Ora o desígnio
do Pai era ainda mais grandioso do que simplesmente isentar Jesus da morte
de Cruz. Consistia, sim, em fazer de Jesus o Senhor da morte e da vida.
Ele veio para morrer (cf. Jo 12,27), e morrer para ressuscitar, ou seja,
para ferir mortalmente a própria morte ou para tirar a esta o sinal
negativo de sanção devida ao pecado e torná-la um
canal para a plenitude da vida. Ele mesmo diz no Apocalipse: "Estive
morto, mas eis que vivo pelos séculos dos séculos, e tenho
as chaves da Morte e do Hades (região dos mortos)". (Ap 1,18).
O caso de Jesus é modelar
para todos os homens. O Senhor Jesus passou pelos momentos mais difíceis
de uma vida humana; soube, porém, colocar sua vontade abaixo da
vontade do Pai. Assim também todo cristão tem o direito de
pedir a Deus que o livre dos males que o afetam; peça-o, porém,
no intuito de cumprir em tudo o desígnio do Pai. Se não for
atendido como sugere, nem por isto terá sido inútil a sua
oração. Receberá mais e melhor do que sugeriu, pois
o plano de Deus é mais amplo e sábio do que os planos dos
homens. - Possa a celebração do Tríduo Sacro avivar
nos cristãos a consciência de que a Páscoa tem duas
facetas inseparáveis uma da outra: Cruz e Ressurreição.
E leve os cristãos a orar sempre com Jesus e como Jesus, para participar
da vitória de Cristo!
E.B.
EDITORIAL DE FEVEREIRO/97
«ENQUANTO TEMOS TEMPO...»
O tempo é o dom de Deus básico,
sem o qual não há outros dons. Sim, é no tempo que
nos é dado praticar o bem, trabalhar, lutar, merecer... O tempo
pode parecer insípido e até molesto para quem o vive no dia-a-dia;
há mesmo quem procure "matar" o tempo em frívolos passa-tempos.
Muito rica é a conceituação
de tempo que a Escritura Sagrada nos oferece. Ela no-lo mostra como
- caminhada de peregrinos que deixam
o relativo em demanda do Absoluto ou da pátria definitiva (cf. 1Pd
1,7; Hb 11,13-16; 2Cor 5,8s);
- semeadura, cuja colheita ocorrerá
no além, de modo que quem semeia pouco, colherá pouco, e
quem semeia muito, colherá muito (cf. Gl 6,7s; 2Cor 9,6). Cada segundo
do nosso tempo tem seu eco na vida definitiva; é no tempo que construímos
nossa eternidade.
- algo premente, porque breve e
fugidio (2Cor 7,1)... O tempo passa e não volta, de modo que é
preciso aproveitar o HOJE de Deus: «Enquanto ainda se diz HOJE»
(Hb 3,13), «HOJE se ouvirdes a sua voz...» (Hb 3,7).
O homem não sabe quantos HOJE ainda terá, pois o desfecho
terrestre é de incerta data (1Ts 5,1). Com outras palavras: o tempo
quantitativo (mais dias, mais semanas, mais meses, mais anos...) há
de ser também tempo qualitativo; exige qualidades correspondentes;
possa o cristão crescer não somente em número de anos
passageiros, mas também em méritos e valores definitivos;
- antecâmara da vida plena,
de tal modo que na terra aprontamos nossa vesta nupcial para a ceia da
vida eterna (cf. Ap 21,2). Este aprontar não pode deixar de ser
laborioso, atribulado, pois nada de grande se faz sem fadiga. Todavia,
as momentâneas tribulações desta vida não têm
proporção com o peso de glória que elas nos preparam
para a pátria definitiva (cf. Ef 5,16; Rm 8,11; 2Cor 4,17);
- exílio, que deve despertar
no cristão o anseio da mansão definitiva, pois vivemos da
fé, e não da visão face-a-face da Beleza Infinita
(cf. 2Cor 5,6s);
- moratória, que a paciência
de Deus nos concede em vista de uma conversão, sempre mais radical
(cf. Rm 2,4; 2Pd 3,9). Ele conhece a fragilidade humana e diariamente lhe
renova a sua graça e misericórdia, a fim de que o fiel hoje
proceda melhor ainda do que ontem.
Pois bem. Estas idéias voltam
à mente dos cristãos com ênfase especial no santo tempo
da Quaresma. É o Apóstolo quem escreve: «Exortamo-vos
a que não recebais a graça de Deus em vão... Eis agora
o tempo favorável por excelência, eis agora o dia da salvação»
(2Cor 6,1s). O cristão saberá aproveitar, cada ano mais conscientemente,
o chamado de Deus, lembrando-se de que o Senhor não quer corações
tristes e constrangidos, mas «Deus ama a quem dá com alegria»
(2Cor 9,7).
E.B.
EDITORIAL DE DEZEMBRO/96
«PROSSIGO PARA O ALVO»
(Fl 3,14)
Em Fl 3,7-14, São Paulo fala
da sua conversão do judaísmo ao Cristianismo. Diz então:
«Corro para ver se O (Cristo) alcanço, pois que também
eu já fui alcançado por Cristo Jesus» (Fl 3,12). Com
efeito; na estrada de Damasco Paulo foi alcançado (ou melhor, foi
agarrado) por Cristo. A imagem quer lembrar que Paulo ia, apressado, a
Damasco a fim de lá perseguir o Cristo nos cristãos (cf.
At 9,4); mas o Senhor Jesus lhe foi ao encalço, correu mais rapidamente,
agarrou-o e fê-lo mudar de mente; Paulo continuaria a procurar o
Cristo, mas não mais como perseguidor e, sim, como discípulo.
Tal episódio foi decisivo para a vida do Apóstolo: doravante
seria ele o heróico atleta de Cristo, correria para mais e mais
descobrir e possuir o Cristo.
Eis uma bela imagem da vida cristã:
o atleta no estádio esforça-se com todo o seu fôlego
em demanda da palma da vitória. Essa corrida tem um alvo transcendente,
para o cristão: chegar à visão de Deus face-a-face
(cf. 1Cor 13,12). Tal meta imprime dinâmica à marcha do atleta:
a vida cristã é essencialmente progresso em prol de uma união
com Deus cada vez mais estreita. Mais ainda do que o atleta no estádio,
o cristão não tem o direito de parar um só instante
em atitude complacente ou satisfeita; dir-lhe-ia S. Agostinho: «Si
dixeris: "Sufficit", et peristi" - Se disseres: "Basta", já
pereceste" (Sermão 169,15,18). Cada passo dado à frente é
um impulso em demanda de maior santidade ou de um amor a Deus sempre mais
íntimo. Não há estacionamento na estrada que aproxima
o cristão daquilo «que o olho jamais viu, o ouvido jamais
ouviu, o coração do homem jamais percebeu» (1Cor 2,9).
O desejo da vida eterna e a esperança da bem-aventurança
celeste são os grandes propulsores da vida do cristão.
A figura da corrida é muito
válida, mas não deve fazer esquecer que a meta almejada pelo
cristão não é apenas algo de futuro ou que esteja
pela frente; ela é também o aprofundamento de uma realidade
incompletamente possuída para chegar à posse perfeita; ainda
mais do que tendência, a vida cristã é crescimento,
e crescimento em profundidade.
Nessa demanda da perfeição,
o Apóstolo diz: «Esquecendo-me do que está para trás
e avançando para o que está à frente, prossigo para
o alvo, para o prêmio da vocação do alto» (Fl
3,13s). Olhar para o passado, no caso, não é simplesmente
recordar o passado (isto não é vedado ao cristão),
mas é o olhar que leva ao relaxamento ou ao esmorecimento do ideal.
Há, porém, um olhar para o passado que é construtivo,
pois recorda os benefícios recebidos do Senhor ao longo dos anos
e dos dias, para encontrar aí um estímulo ao progresso espiritual,
como o encontraram S.
Agostinho em suas Confissões e
S. Teresa de Lisieux em sua História de uma Alma.
Estas grandes verdades, tiradas
da Escritura e da Tradição, sejam motivo de reflexão
para nós, que terminamos mais um ano e sentimos a corrida do tempo.
Corramos com o tempo, sim, como quem procura crescer para chegar à
visão de Deus face-a-face.
E.B.
EDITORIAL DE NOVEMBRO/96
«VIVER É CRISTO,
MORRER É LUCRO...»
É com estas palavras que
o Apóstolo Paulo, feito prisioneiro e ameaçado de martírio,
encara a vida e a morte.
"Viver é Cristo"... Isto
quer dizer que, tudo o que a palavra "vida" significa, o Apóstolo
o encontra em Jesus Cristo. Se viver implica estar na verdade, Paulo encontra
em Cristo a VERDADE; se viver implica estar no amor, Paulo encontra em
Cristo o AMOR; se viver é alegria, Paulo encontra em Cristo a fonte
de sua ALEGRIA, pois é ramo da videira Cristo (cf. Jo 15,5). Por
conseguinte, também o que se chama "morte", já não
é morte; é vida mais plena, mais rica, a verdadeira vida,
pois é a entrada na alegria do Senhor (cf. Mt 25,21); é a
união perfeita com Cristo não apenas pela fé, mas,
sim, na visão face-a-face. O que o olho não viu, o que
o ouvido não ouviu, o que o coração jamais percebeu
(1Cor 2,9) o Apóstolo o antecipa na vida presente, a fim de
o usufruir plenamente na vida futura.
"Morrer é lucro"... São
Paulo dizia numa passagem em que, após exprimir a natural aversão
à morte, ele superava tal sentimento, numa visão de fé:
Enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa morada, longe
do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão...
Sim, estamos cheios de confiança, e preferimos deixar a mansão
deste corpo para ir morar junto do Senhor (2Cor 5,7s).
A consciência de que a morte
é um lucro levava Paulo ainda a confessar: Sinto ardente desejo
ou mesmo avidez (epithymía) de partir, ou melhor, (analýsai)
romper minhas amarras (como uma nave que se solta), desmontar minha
tenda (como um pelotão que desmonta seu acampamento), para
estar com Cristo (Fl 1,23). "Com Cristo"... eis duas palavras que insinuam
timidamente o inefável da outra vida e que São Paulo repete
freqüentemente, sabedor de que nada pode traduzir adequadamente o
que é o encontro face-a-face com a Beleza Inifinita (ver 1Ts 4,17;
5,10; 2Ts 2,1; Rm 14,8).
A idéia de que a morte é
vida plena já fora aventada pelo poeta trágico e teatrólogo
grego Eurípedes (480-406 a.C.), que interrogava: Quem sabe se
viver não é morrer, e morrer não é viver?.
- O pressentimento de Eurípedes foi ridicularizado pelos seus contemporâneos,
mas tornou-se plena verdade em Cristo. Já o pensador pagão
sabia que a vida presente não preenche cabalmente o que todo homem
entende por "vida"; deve haver algo mais, em que a sede de Verdade e Vida
seja saciada.
Pois bem, a atitude de São
Paulo perante vida e morte foi a dos justos cristãos de todos os
tempos. S.
Inácio de Antioquia (+107), referindo-se
ao Espírito Santo, escrevia: "Uma água viva clama dentro
de mim: "Vem para o Pai". O cristão hoje pode repetir as palavras
de São Paulo. Tenha consciência de que viver é Cristo
e morrer é lucro, é passar da fé para a visão,
das sombras para a plena luz, do exílio para a pátria!
E.B.
EDITORIAL DE OUTUBRO/96
«SE NÃO VOS TORNARDES
COMO CRIANÇAS...»
O mês de outubro, além
de ser o mês do Rosário, é também o mês
da criança.
A criança, segundo Jesus,
é um símbolo religioso muito significativo: «Se não
vos tornardes como as crianças, não entrareis no Reino dos
Céus» (Mt 18,2).
E como a criança é
símbolo e modelo?
Geralmente se pensa na pureza dos
pequenos; são inocentes em vários sentidos e, por isto, representam
um grande valor para os mais velhos. Há, porém, outro aspecto
importante na criança, talvez menos explanado: a criança
acredita... acredita naquilo que pai e mãe lhe dizem; acredita na
capacidade e autoridade dos genitores e neles confia. Ora, esta atitude
da criança é modelar para os adultos. Chamados a ser filhos
de Deus, são chamados a ouvir o Pai Celeste.
O Pai também tem a sua Palavra...
O cristão, quando ainda pequeno, dá-lhe fé, fé
tranqüila, que suscita confiança e alegria. Quando, porém,
se faz adulto, muitos começam a titubear ou mesmo perdem a fé.
Parece que crer em Deus é loucura ou escândalo (cf. 1Cor 1,23);
os desapontamentos, as decepções e os traumas da vida levam
a pensar que ilusória é a idéia de um Pai no céu,
providente e solícito. Deixam de ser crianças frente a Deus;
criticam e racionalizam, como quem sabe melhor do que o Pai.
Ora, a bom propósito o Senhor
Jesus exalta a criança, que acredita candidamente e confia. O cristão
não crê apenas em criaturas, por mais fidedignas que sejam.
Ele crê e confia em Deus, que é a Primeira Verdade e o Sumo
Bem; sem dúvida, ele crê com uma fé que vai amadurecendo
e deixando de lado fantasias e crendices. Acontece, porém, que no
decorrer dos tempos a história apresenta aparentes desajustes, que
desconcertam e levam a descrer.
Em tais momentos, lembre-se o cristão
da parábola de Mt 20,1-16: o patrão escandaliza seus operários,
porque, além de pagar a cada um o que lhe é devido, dá
gratuitamente, tirando do próprio bolso, sem lesar alguém.
A quem reclama, diz o senhor: «Não te faço injustiça...
Será que teu coração se torna mau, porque eu sou bom?»
(Mt 20,15). Deus, o Pai Celeste, por ser Deus, não pode falhar;
admitir um Deus falho é o mesmo que não crer em Deus; é
incoerência; por definição, Ele é a Suma Sabedoria
e a Santidade Perfeita. Por conseguinte, o homem não entende a Deus
não porque Ele seja menos justo do que a criatura, mas, ao contrário,
porque ultrapassa longe os limites da sabedoria e justiça das criaturas.
Disto se segue valiosa conclusão:
quem reflete sobre o problema da fé, verifica que a criança
é modelo para os adultos em todo o decorrer da vida destes. Se alguma
vez o filho se pode desiludir dos pais na terra, jamais o filho de Deus
terá fundamento objetivo para se desiludir do Pai Celeste. Este
merece a fé e a confiança incondicionais de seus filhos inteligentes
e cultos, mas também felizes por terem a candura de uma criança
que crê e confia em quem o merece.
E.B.
REENCARNAÇÃO
E IGREJA ANTIGA
Eis o teor de uma carta publicada
pelo jornal O GLOBO, edição de 18/8/96, p. 6:
Em vista de declarações
publicadas a respeito da Igreja e a reencarnação, convém
esclarecer o seguinte:
A Igreja nunca professou a reencarnação.
Existem testemunhos de Clemente de Alexandria (+215), Ireneu de Lião
(+202), Enéias de Gaza (+520) e outros autores que rejeitam peremptoriamente
a reencarnação, baseando-se aliás nas Escrituras Sagradas;
estas professam uma só passagem do homem sobre a terra (Hb 9,27).
Acontece, porém, que, a partir do século V, uma corrente
de monges do Egito, da Palestina e da Síria, pouco letrados, passaram
a acreditar na reencarnação; eram chamados "origenistas",
pois seguiam seu mestre Orígenes (+254), que propusera como simples
hipótese uma teoria próxima à reencarnacionista. Logo
os abades São Sabas e Gelásio censuraram tal corrente, cujas
idéias foram finalmente condenadas pelo Sínodo Permanente
de Constantinopla, em 543. O Papa Vigílio aprovou a rejeição
da tese, visto que esta é incompatível com a noção
de um Deus que salva o homem pela morte e ressurreição de
Jesus Cristo. A reencarnação foi ainda repetidamente rejeitada
pelos Concílios Gerais de Lião (1274) e Florença (1439),
como também pelo do Vaticano II (1965, Lumen
Gentium, nº 48).
E.B.
EDITORIAL DE SETEMBRO/96
SEMEAR PARA COLHER
A S. Escritura compara a vida presente
a uma semeadura, cujo fruto será colhido na vida futura. É
São Paulo quem o diz: «O que o homem semeia, ele o colherá
(Gl 6,7). Esta imagem é muito sugestiva. Com efeito,
1) A semeadura é essencialmente
relativa à colheita; é preparação desta e só
tem sentido em vista da colheita. Ora, o ser humano, envolvido como está
num turbilhão de coisas coloridas e sonoras, corre o perigo de ser
por estas assoberbado, de modo a considerar a vida presente como a principal,
ficando a vida futura muito vaga e insignificante; seria algo de que se
trataria quando os bens temporais já não mais satisfizessem
ao seu usuário. Sim, a cortina dos valores temporais tende a sobrepujar
a criatura humana, levando-a, por vezes, a esquecer a reta escala de valores.
Ora, a sabedoria, conforme a Escritura,
consiste em que vejamos o aquém em função do além.
O critério para julgar o aquém é o além. É
o que lembra a parábola do rico insensato: teve uma colheita de
trigo tão farta que se preocupou unicamente com a maneira de a conservar;
construiu grandes celeiros, nos quais armazen