Monge
 
 
 
 
 

A «Lectio Divina», ou leitura espiritual (divina), é o método da oração a partir do texto da Sagrada Escritura, sem exclusão de outros textos religiosos. Em linhas gerais, consiste em ler atentamente a Palavra de Deus, passando em seguida à sua meditação, contemplação e ao diálogo com o seu Autor. Os monges ocidentais têm na lectio o principal elemento da sua espiritualidade, cultivando-a com fidelidade e prioridade.

Como sugestões para leitura espiritual, oferecemos abaixo alguns textos seletos.

A REGRA DE SÃO BENTO

  • Regra de São Bento - Tradução de Dom João Evangelista Enout, OSB, do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, Editora Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1980.

  • TEXTOS PATRÍSTICOS
  • Dos Sermões de São Bernardo, Abade - Leitura para a Solenidade de São Bento (11/7)
  • Dos Sermões de Santo Agostinho, Bispo - Comentário ao Evangelho do XIV Domingo do Tempo Comum - ano C
  • Das Homilias de São Cirilo de Alexandria, Bispo, sobre o Eevangelho de São Lucas - Comentário ao Evangelho do XII Domingo do Tempo Comum - ano C
  • Da Homilia de Anfilóquio, Bispo, sobre a pecadora - Comentário ao Evangelho do XI Domingo do Tempo Comum, ano C
  • Das Homilias de Gregório Palamás, Bispo - Texto para a Solenidade de São Pedro e São Paulo
  • Dos Sermões de Santo Agostinho, Bispo - Comentário para a Solenidade de Pentecostes
  • Do Comentário ao Evangelho de São João, de São Cirilo de Alexandria, Bispo - Comentário para a Solenidade da Ascensão
  • Dos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, de São Bernardo, Abade - Comentário ao Evangelho do VI domingo da Páscoa - ano C (Jo 14,23-29)
  • Dos "Tratados sobre São João", de Santo Agostinho, Bispo - Comentário ao Evangelho do V domingo da Páscoa - ano C (Jo 13,31-33a.34-35)
  • Do Tratado "Sobre a Trindade", de Santo Hilário, bispo - Comentário ao Evangelho do IV domingo da Páscoa
  • Dos Sermões de Santo Agostinho, Bispo - Comentário ao Evangelho do III domingo da Páscoa - ano C (Jo 21,1-19)
  • Dos Sermões de Santo Agostinho, Bispo - Comentário ao Evangelho do II domingo da Páscoa - ano C (Jo 20,19-31)
  • Do Tratado de Santo Agostinho, Bispo, sobre o Evangelho de São João - Leitura para o Domingo de Ramos (Paixão)
  • Das Cartas de Santo Ambrósio, Bispo - Leitura para o V domingo da Quaresma - ano C
  • Dos Comentários de Santo Agostinho, Bispo, sobre os Salmos - Leitura para o IV domingo da Quaresma - ano C
  • Dos Comentários de Santo Ambrósio, Bispo, sobre os Salmos - Leitura para o II domingo da Quaresma - ano C
  • Das homilias de Orígenes, presbítero, sobre o Cântico dos Cânticos - Leitura para o I domingo da Quaresma - ano C
  • Dos Sermões de São Leão Magno, Papa - texto quaresmal
  • Do Sermão de Teódoto de Ancira, Bispo, no Dia do Natal do Senhor - texto natalino
  • Dos Sermões do Bem-Aventurado Guerrico d'Igny, Abade - Leitura para o 4º domingo do Advento - ano C
  • Dos Comentários de Ruperto de Deutz, Abade - Leitura para o 3º domingo do Advento - ano C
  • Dos Sermões de São Bernardo, Abade - Leitura para o 2º domingo do Advento - ano C
  • Dos Sermões de São Bernardo, Abade - Leitura para o 1º domingo do Advento - ano C
  • Das Homilias de São Gregório Palamas, Bispo - Leitura para o XXXIII domingo comum - ano B correspondente ao evangelho do dia (Mc 13,24-32) -
  • Dos Sermões de São Bernardo, Abade - Para a Festa da Dedicação da Basílica do Latrão -
  • Do livro de Santo Agostinho, bispo, "Sobre os deveres para com os mortos" - Comentário para o Dia de Finados -
  • Do Tratado «Exortação Aos Pagãos» de Clemente de Alexandria - Comentário a Mc 10,46-52, evangelho do XXX domingo do Tempo Comum - ano B
  • Das Homilias de São João Crisóstomo, bispo (+407) - Comentário a Mc 10,32-45, evangelho do XXIX domingo do Tempo Comum - ano B
  • Das Homilias de São João Crisóstomo, bispo (+407) - texto quaresmal
  • Dos Tratados de Santo Agostinho - texto quaresmal.

  • TEXTOS ESPIRITUAIS
  • Da Homilia do Papa Paulo VI na dedicação da igreja abacial de Montecassino no ano de 1964 - Leitura para a Solenidade de São Bento (11/7)
  • Do Tratado de um Autor do séc. XII, sobre a Paixão e Ressurreição do Senhor - Comentário para a I Semana da Páscoa (Jo 20,11-18)
  • Da Constituição Apostólica «Paenitemini», do Papa Paulo VI - Comentário a Lc 13,1-9, evangelho do 3º Domingo da Quaresma - ano C
  • A Dimensão Missionária da Vida Monástica

  • EDITORIAIS DA REVISTA "PR"
  • Fevereiro/98: A PARÁ-OIKÍA (PARÓQUIA) DO CRISTÃO
  • Setembro/97: «SENHOR, ONDE ESTÁS?»
  • Junho/97: «POR CAUSA DO SEU GRANDE AMOR...» (Ef 2,4)
  • Maio/97: «ALEGRA-TE, CHEIA DE GRAÇA» (Lc 1,28)
  • Abril/97: «CANTAI UM CÂNTICO NOVO» (Sl 96,1)
  • Carta enviada para O GLOBO: O Aborto é Homicídio
  • Março/97: «COM CLAMOR E LÁGRIMAS... FOI ATENDIDO» (Hb 5,7)
  • Fevereiro/97: «ENQUANTO TEMOS TEMPO...»
  • Dezembro/96: «PROSSIGO PARA O ALVO» (Fl 3,14)
  • Novembro/96: «VIVER É CRISTO, MORRER É LUCRO...»
  • Outubro/96: «SE NÃO VOS TORNARDES COMO CRIANÇAS...»
  • REENCARNAÇÃO E IGREJA ANTIGA
  • Setembro/96: «SEMEAR PARA COLHER»
  • Agosto/96: «O FIM DO MUNDO OU A RENOVAÇÃO DO MUNDO?»
  • Julho/96: «A IGREJA, MINHA MÃE»
  • Junho/96: «O MISTÉRIO DA INIQÜIDADE»


  • A QUARESMA NA REGRA DE SÃO BENTO
     
     

    CAPÍTULO 49 - DA OBSERVÂNCIA DA QUARESMA

    Se bem que a vida do monge deva ser, em todo tempo, uma observância de Quaresma, como, porém, esta força é de poucos, por isso aconselhamos os monges a guardarem, com toda a pureza, a sua vida nesses dias de Quaresma e também a apagarem, nesses santos dias, todas as negligências dos outros tempos. E isso será feito dignamente, se nos preservamos de todos os vícios e nos entregamos à oração com lágrimas, à leitura, à compunção do coração e à abstinência. Acrescentemos, portanto, nesta época, alguma coisa ao encargo habitual da nossa servidão: orações especiais, abstinência de comida e bebida; e assim ofereça cada um a Deus, de espontânea vontade, com a alegria do Espírito Santo, alguma coisa além da medida estabelecida para si; isto é, subtraia ao seu corpo algo da comida, da bebida, do sono, da conversa, da escurrilidade, e, na alegria do desejo espiritual, espere a Santa Páscoa. Entretanto, mesmo aquilo que cada um oferece, sugira-o ao seu Abade, e seja realizado com a oração e a vontade dele, pois o que é feito sem a permissão do pai espiritual será reputado como presunção e vã glória e não como digno de recompensa. Portanto, tudo deve ser feito com a vontade do Abade.

    DO CAPÍTULO 48

    Nos dias da Quaresma, da manhã até às 9 horas, entreguem-se às suas leituras (...) Nesses dias de Quaresma, recebam todos respectivamente livros da biblioteca e leiam-nos pela ordem e por inteiro; esses livros são distribuídos no início da Quaresma.

     


    DAS HOMILIAS DE ORÍGENES, PRESBÍTERO, SOBRE O CÂNTICO DOS CÂNTICOS
    Homilia III in Canticum
    Jesus é tentado para que a Igreja apreenda
    que se vai a ele por meio de muitas tribulações e tentações
     
    A vida dos mortais está cheia de laços de escândalos e de redes de ilusões, armadas contra o gênero humano por aquele gigante caçador, inimigo do Senhor, que é chamado Nemrod. Quem é esse verdadeiro gigante a não ser o demônio, que se revolta contra o próprio Deus? Os laços das tentações e as armadilhas das insídias são pois chamadas redes do demônio. E porque o inimigo estendera essas redes em toda parte e apanhara quase todos, tornou-se necessário que aparecesse alguém mais forte e poderoso, que as pudesse romper e abrir o caminho para aqueles que o seguiam. Eis porque o Salvador, antes de se unir à Igreja como esposo, é tentado pelo demônio, para que vencendo, pela tentação, as redes das tentações, olhasse e chamasse a si a Igreja, ensinando-lhe e mostrando-lhe que não se chega a Cristo pelo ócio e pelas delícias, mas por muitas tribulações e tentações. Não havia, com efeito, outro que pudesse superar essas redes. Pois todos - como está escrito - pecaram (Rm 3,23); e de novo, como diz a Escritura: Não há justo sobre a terra que faça o bem e não peque (Ecl 7,20); e ainda: Ninguém está isento de pecado, nem mesmo se sua vida tiver durado um só dia (cf. 50,7: Jó 15,14). Somente Jesus, nosso Senhor e Salvador, não pecou; mas o Pai o fez pecado por nós (2 Cor 5,21), para condenar o pecado por meio do pecado numa carne semelhante a do pecado (cf. Rm 8,3).
    Entrou, pois, naquelas redes, mas foi o único que não pôde ser envolvido por elas; pelo contrário, tendo-as rompido, e reduzido a pedaços, faz com que sua Igreja confie, para que ouse doravante romper os laços e ultrapassar as redes, dizendo com toda alegria: Nossa alma escapou como o pássaro da rede do caçador; rompeu-se o laço, e fomos libertados (Sl 123,7).
    Quem, pois, rompeu o laço a não ser o único que não podia permanecer prisioneiro? Embora tenha morrido, foi voluntariamente que morreu, e não como nós, por causa do pecado. Só ele foi livre entre os mortos. E porque só ele foi livre entre os mortos, tendo vencido quem tinha o poder da morte, libertou os cativos que estavam retidos pela morte. Não só ressuscitou a si mesmo dos mortos, mas também despertou, ao mesmo tempo, os que estavam prisioneiros da morte, introduzindo-os nos céus. Subindo, pois, ao alto, levou consigo os cativos, não libertando apenas as almas, mas ressuscitando também os seus corpos, conforme atesta o Evangelho, pois os corpos de muitos santos ressuscitaram e apareceram a muitos, e entraram na cidade santa do Deus vivo, Jerusalém (Mt 27,52.53).


    DOS SERMÕES DE SÃO LEÃO MAGNO, PAPA
    Tractatus 48
    Convém que todo o corpo da Igreja
    seja purificado de todas as suas manchas
     
    Irmãos caríssimos, entre todos os dias do ano que a devoção cristã honra de várias maneiras, nenhum há que supere em excelência a festa pascal, pois esta consagra, na Igreja de Deus, a dignidade de todas as solenidades. Com efeito, mesmo o nascimento materno do Senhor tinha por fim este mistério e o Filho de Deus não teve outra razão de nascer senão a de ser pregado na cruz. No seio da Virgem, de fato, foi assumida uma carne mortal; nesta carne mortal realizou-se a economia da paixão e assim aconteceu, por um desígnio da misericórdia de Deus, que esta fosse para nós sacrifício redentor, abolição do pecado e primícias de ressurreição para a vida eterna. Ora, se considerarmos o que o universo recebeu pela cruz do Senhor, reconhecemos que, para celebrar o dia da Páscoa, é justo que nos preparemos por um jejum de quarenta dias a fim de podermos participar dignamente dos divinos mistérios.
    Na verdade, não são apenas os bispos ou os presbíteros, nem somente os diáconos, mas todo o corpo da Igreja, a totalidade dos fiéis, que devem ser purificados de todas as manchas, a fim de que o templo de Deus, cujo fundamento é o próprio fundador, seja belo em todas as suas pedras e luminoso em todas as suas partes. Pois se, com razão, ornam-se com todos os enfeites os palácios dos reis e os pretórios dos chefes mais altos, de sorte que sejam mais belas as casas daqueles cujos méritos são maiores, com que cuidado deve ser construída, com que honra decorada, a habitação da própria Divinidade! Certamente não se pode nem empreender nem terminar esta casa sem que seu autor concorde com isso; no entanto, aquele que a edificou, lhe concedeu também buscar seu progresso por seu próprio trabalho. De fato, é de um material vivo e racional que se serve para a construção deste templo e é do Espírito da graça que está animado para unir-se voluntariamente em um único todo; material amado, material procurado para que, por sua vez, procure - ele que não procurava - e ame - ele que não amava - conforme a palavra do Apóstolo São João: Nós, portanto, amemo-nos uns aos outros, porque nosso Deus nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4,11.19).
    Por conseguinte, já que os fiéis em conjunto e em particular constituem um único e mesmo templo de Deus, é preciso que este seja perfeito em cada um como deve ser perfeito no conjunto.Porque, embora não seja a mesma a beleza de todos os membros, nem em parte tão diferentes possa haver igualdade de méritos, o vínculo da caridade alcança, no entanto, a comunhão da beleza. Unidos assim por um santo amor, embora não gozem de iguais benefícios da graça, alegram-se contudo mutuamente com os seus bens e o que amam não lhes pode ser estranho, porque aumenta a sua própria riqueza aquele que se alegra com o progresso dos outros.


    DO SERMÃO DE TEÓDOTO DE ANCIRA BISPO, PARA O DIA DO NATAL DO SENHOR
    Edit. Schwartz, ACO t. 3,1,157-159
    Veio o Senhor de todos sob a forma de servo
     
    Veio o Senhor de todos sob a forma de servo, revestido  de pobreza, de modo a não afugentar os que buscava. Em terra incerta, escolhendo um lugar desconhecido para nascer, foi dado à luz por uma Virgem pobre, na pobreza total, para que pelo silêncio cativasse os homens que vinha salvar. Pois se tivesse nascido na glória, rodeado de muitas riquezas, diriam, sem dúvida, os infiéis, que a transformação da terra fora obra do dinheiro. Se tivesse escolhido Roma, a maior cidade, atribuiriam ao poder dos seus cidadãos a mudança do mundo.
    Se fosse filho do imperador, atribuiriam ao poder tal benefício. Se fosse filho de um legislador, atribuiriam-no às leis. Mas que fez ele? Escolheu tudo o que é pobre e vil, tudo que há de mais medíocre e obscuro, para sabermos que só a divindade transformou a terra. Por isto, escolheu uma mãe pobre, uma pátria ainda mais pobre, fazendo-se pobre de bens terrenos.
    Isto te é mostrado pelo presépio. Como não havia um berço para reclinar o Senhor, foi colocado numa manjedoura, e sua indigência das coisas mais necessárias tornou-se uma ótima profecia. Foi assim posto na manjedoura para anunciar que se fazia alimento até mesmo dos irracionais. Pois o Verbo, Filho de Deus, nascendo pobre e jazendo num presépio, atrai a si os ricos e os pobres, os eloqüentes e os incultos.
    Vede, portanto, como a indigência se tornou profecia, e a pobreza mostrou ser acessível a todos aquele que por nós se fez pobre. Ninguém se deteve por medo das esplêndidas riquezas do Cristo, nem a imponência do poder impediu alguém de se aproximar dele; mas apareceu pobre e comum, oferecendo-se a si mesmo para salvar a todos.
    No presépio, o Verbo de Deus se manifesta corporalmente, a fim de que tanto os seres racionais como os irracionais possam participar do alimento da salvação. Penso ser isto que o profeta proclamava, quando falava do mistério do presépio: O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura de seu senhor; mas Israel é incapaz de conhecer, o meu povo não pode entender (Is 1,3). Fez-se pobre por nós aquele que é rico, tornando facilmente perceptível a todos a salvação do Verbo de Deus. Também Paulo o indica, ao escrever: Por causa de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com a sua pobreza (2Cor 8,9).
    Mas quem era esse que enriquecia? E de que enriquecia? Como ele se fez pobre por nós? Quem é, dizei-me, que, sendo rico, se fez pobre por minha pobreza? Pensas que foi o homem que apareceu? Mas este nunca se tornou rico, nascido que foi pobre e de pais pobres. Quem era, pois, e de que enriquecia esse rico que por causa de nós se fez pobre? A resposta é: Deus enriquece a criatura. Foi Deus mesmo quem se fez pobre, fazendo sua a pobreza daquele que se podia ver. Pois ele é rico pela divindade, e por causa de nós se fez pobre.


    DOS SERMÕES DO BEM-AVENTURADO GUERRICO D'IGNY, ABADE
    Leitura para o 4º domingo do Advento - ano C
    Eis que o Rei está vindo!
     
    Eis que o Rei está vindo, corramos ao encontro do nosso  Salvador! Com acerto, Salomão diz: Água fresca em garganta sedenta é a boa notícia de uma terra longínqua (Pr 25,25). Boa notícia é a que anuncia a vinda do Salvador, a reconciliação do mundo, os bens do tempo que há de vir. Notícias como estas são água fresca e bebida de salutar sabedoria para a alma sedenta de Deus. E quem lhe anuncia a vinda ou outros mistérios do Salvador com alegria tira água das fontes da salvação (Is 12,3), oferecendo-lhe um brinde. De modo que ao que lhe dá a notícia, seja Isaías ou qualquer dos profetas, essa alma parece responder com as palavras de Isabel, já que bebeu do mesmo Espírito que ela: «Donde me vem que o meu Senhor me visite? Pois quando a tua saudação chegou aos meus ouvidos, o meu espírito estremeceu de alegria em meu coração (cf. Lc 1,43-44), ansioso por correr ao encontro do seu Deus e Salvador».
    Levante-se, pois, o nosso espírito com viva alegria e corra ao encontro do seu Salvador, e já de longe adore e saúde o que está vindo, aclamando-o e dizendo: Vem, Senhor, salva-me e eu serei salvo (Jr 17,14); vem, faze tua face brilhar, e seremos salvos (Sl 79,4). Em ti esperamos; sê a nossa salvação no tempo da angústia (Is 33,2). Era assim que, bem antes de nós, os profetas e os justos corriam com desejo e afeto ao encontro do Cristo que estava por vir, desejando, se possível fosse, ver com os olhos o que em espírito previam.
    Aguardamos o dia do aniversário natalino do Cristo que, se Deus quiser, em breve contemplaremos. A Escritura parece exigir de nós uma alegria tal que o nosso espírito, elevando-se sobre si mesmo, trate de algum modo de sair ao encontro do Cristo que vem; prolongando-se pelo desejo nas coisas passadas e impaciente com a demora, consiga ver desde já as futuras. Pois eu penso que os vários trechos das Escrituras que nos exortam a sair ao encontro dele não se referem só ao segundo advento, mas também ao primeiro. Como? - perguntarás. Do seguinte modo: assim como iremos ao encontro da segunda vinda com o ímpeto e a exultação do corpo, assim também devemos fazer na primeira, com o afeto e a exultação do espírito.
    E por certo é freqüente, segundo o mérito e o esforço de cada um, esta vinda do Senhor no tempo que decorre entre o primeiro e o último advento, vinda que nos conforma ao primeiro advento e prepara para o último. Ele agora vem a nós para que sua primeira vinda não tenha sido em vão, e para que na última não venha irado contra nós. Nesta vinda, ele cuida de reformar nosso espírito de soberba, para configurá-lo ao seu espírito de humildade, que demonstrou quando veio a primeira vez. Do mesmo modo, ele transfigurará o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso (Fl 3,21), que manifestará quando retornar.
    Quanto a nós, irmãos, que ainda não estamos consolados por tão sublime experiência, para que sejamos pacientes até a vinda do Senhor, consolem-nos por enquanto uma fé firme e uma consciência pura, que possa dizer com a mesma alegria e fidelidade de Paulo: Sei em quem coloquei a minha fé, e estou certo de que ele tem poder para guardar o meu depósito, até aquele dia (2Tm 1,12), isto é, a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Cristo Jesus (Tt 2,13), ao qual seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

     


    DOS COMENTÁRIOS DE RUPERTO DE DEUTZ, ABADE
    Leitura para o 3º domingo do Advento - ano C
    Era a intenção da luz que todos crêssemos
     
    João veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele (Jo 1,7). Este homem tão grande, tão esperado, veio afinal, nasceu e foi elevado às alturas, para que, visto por todos e por todos ouvido, desse testemunho da luz contra o poder das trevas, as quais não quiseram receber a luz que brilhava no meio delas, dizendo: Não é ele o filho do carpinteiro? Como diz agora: «Eu desci do céu»?! (Mt 13,55; Jo 6,42).
    Contra eles, João veio dar testemunho de que Jesus era a luz dos homens, o Filho Unigênito de Deus, por quem tudo foi feito. Na realidade, todos os profetas haviam dado testemunho dessa mesma luz. Porém, o testemunho de João era diferente e muito superior, sobretudo porque os profetas falavam de alguém que estava por vir, enquanto João não só testemunhava que ele já havia chegado, mas, para que ninguém duvidasse, também o apontava, dizendo: Eis o Cordeiro de Deus; é dele que eu falei (Jo 1,29-30).
    Mas que faltaria à luz dos homens, ou que vantagem veria em providenciar para si o testemunho de um tão grande arauto em nossas pobres assembléias? A fim de que, explica, todos cressem por meio dele (Jo 1,7). Entenda-se: para crerem que este, e não outro, o mesmo Jesus, filho de Maria e de José, como se falava, era desde o princípio o Verbo de Deus, o Deus Verbo, a luz eterna. Era esta, com efeito, a intenção de sua caridade, que não buscava o próprio interesse, mas o nosso. Era esta a intenção da luz: que todos crêssemos e assim nos aproximássemos dela para sermos iluminados. Nós exultamos e damos graças por tão grande benevolência de Deus.

     


    DOS SERMÕES DE SÃO BERNARDO, ABADE
    Leitura para o 2º domingo do Advento - ano C
    Toda a carne verá a salvação de Deus
     
    Repara bem no tempo em que veio o Salvador. Pois ele não veio no início, nem no meio, mas no fim dos tempos. Isto não foi feito de modo fortuito, mas a divina Sabedoria dispôs sabiamente trazer o seu auxílio no momento mais necessário, não ignorando a tendência dos filhos de Adão à ingratidão. Já se fazia tarde e o dia declinava, o Sol de Justiça se havia posto quase por completo, tornando-se muito fraco o seu brilho e o seu calor na terra. Também a luz do conhecimento de Deus se tornara fraca, e a abundância da iniqüidade havia esfriado o ardor da caridade.
    Já não aparecia nenhum anjo, nem profeta algum falava; retiraram-se, vencidos pelo desânimo ante a excessiva dureza e obstinação dos homens. Então eu, o Filho, disse: Eis que eu venho (Sl 39,8). A eternidade interveio oportunamente, quando mais prevalecia o mundo temporal. Pois, para não falar de outras coisas, a paz do mundo era tão grande naquele tempo, que para o recenseamento de todo o orbe bastou o edito de um único homem.
    Já conheceis tanto a pessoa que vem, como seu lugar de origem e sua destinação; tampouco ignorais o motivo e o momento de sua vinda. Resta saber uma coisa: o caminho por onde vem, e isto merece ser investigado com igual diligência, para que possamos dignamente acorrer ao seu encontro. Contudo, do mesmo modo que veio uma vez sobre a terra, visível em sua carne, para operar a salvação, assim também ele vem todos os dias, invisível e em espírito, para salvar as almas, como está escrito: o Cristo Senhor é um espírito diante de nós (cf. Lm 4,20). E para saberes que este advento espiritual é oculto: À sua sombra viveremos entre as nações. Por conseguinte, convém que o enfermo, se não pode ir tão longe ao encontro do médico, ao menos procure erguer a cabeça e levantar-se à sua chegada.
    Não te é necessário, ó homem, atravessar mares, penetrar nas nuvens ou transpor montanhas. Não é muito longo o caminho que te é mostrado: corre ao encontro do teu Deus dentro de ti mesmo. Pois ao teu alcance está a Palavra, em tua boca e em teu coração (Rm 10,8). Avança até à compunção do coração e à confissão dos lábios, para que ao menos saias do lamaçal de tua mísera consciência, pois não é lugar digno de que nele entre o autor da pureza. Estas coisas são ditas com relação aquele advento pelo qual cada alma é iluminada com um poder invisível.

     


    DOS SERMÕES DE SÃO BERNARDO, ABADE
    Leitura para o 1º domingo do Advento - ano C
    Esperamos o Salvador
     
    É justo, irmãos, que celebreis com toda devoção o advento do Senhor, cheios de gozo por tanta consolação, admirados de tanta condescendência, abrasados de tanto amor. Não penseis apenas no advento em que o Senhor veio buscar e salvar o que estava perecendo, mas também naquele no qual virá e nos levará consigo. Meditai, pois, continuamente nestes dois adventos, ruminando em vossos corações quanto nos deu no primeiro e quanto nos promete no segundo.
    É tempo, irmãos, de começar o julgamento pela casa de Deus. Qual será o fim dos que se recusam a obedecer ao Evangelho? (1Pd 4,17) Qual será o julgamento dos que neste julgamento não se mantêm de pé? Todos os que evitam ser julgados pelo juízo que agora ocorre, no qual o príncipe deste mundo é lançado fora, aguardem, ou melhor, temam o Juiz pelo qual serão também eles lançados fora com o seu príncipe. Porém, se agora nos julgamos com exatidão, esperemos confiantes como Salvador o Senhor Jesus Cristo, que transfigurará o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso (Fl 3,21). Então os justos resplandecerão, de modo que doutos e indoutos os possam ver: brilharão como o sol no Reino de seu Pai (Mt 13,43).
    Quando vier o Salvador, transfigurará o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso, se antes o nosso coração tiver sido transfigurado e conformado à humildade do coração dele. Por isso, dizia também: Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração (Mt 11,29). Considerai nestas palavras dois tipos de humildade: uma do conhecimento e outra do afeto, também denominada «do coração». Pela primeira, reconhecemos que nada somos, e a aprendemos de nós mesmos e da nossa fraqueza; pela segunda, calcamos a glória do mundo, e nos é ensinada por aquele que se humilhou a si mesmo, tomando a forma de servo, e que, tendo fugido quando procurado para ser feito rei, ofereceu-se voluntariamente ao ser procurado para tantos opróbrios e para o ignominioso suplício da cruz.

     


    DAS HOMILIAS DE SÃO GREGÓRIO PALAMAS, BISPO
    Leitura para o XXXIII domingo comum - ano B correspondente ao evangelho do dia (Mc 13,24-32)
    Oxalá também nós na eternidade nos encontremos reunidos
    com a multidão dos que foram salvos
     
    Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino preparado para vós desde a criação do mundo (Mt 25,34). Todos os ressuscitados ouvirão da boca do próprio rei dos céus estas palavras; são os que com fé sincera creram em nosso Senhor Jesus Cristo, manifestando a sua fé nas obras, vigiando sobre si mesmos ou então purificando-se das manchas do pecado mediante a confissão e a penitência, e exercendo a temperança, a castidade, a caridade, a esmola, a justiça e a verdade, virtudes estas contrárias aos vícios. Deste modo, os que obtiveram por sorte o pacífico reino celeste, reinarão com Cristo; viverão para sempre na inefável luz que desconhece ocaso e não é interrompida pela noite; convivem com os santos nas indizíveis delícias do seio de Abraão, onde não há dor, nem lutos, nem gemidos.
    A messe das espigas inanimadas é feita conjuntamente por muitos segadores; a das espigas espirituais, a humanidade, é feita por um único ceifeiro, que da incredulidade recolhe para a fé os que recebem os arautos do evangelho. Os segadores dessa messe são os Apóstolos e seus sucessores e os doutores segundo as necessidades da Igreja. A respeito deles disse o Cristo: o ceifeiro recebe o salário e ajunta frutos para a vida eterna (Jo 4, 36). Tanto maior recompensa espiritual recebem de Deus os doutores, quanto maior é o número dos fiéis que congregam para a vida eterna. Mas existe também outra messe: a transferência de cada um de nós desta vida para a futura. Neste caso, os segadores são os anjos que, de certo modo, excedem os Apóstolos, pois, uma vez recolhida a messe, escolhem e separam os bons dos maus, como o trigo do joio; levam os bons ao reino e enviam os maus ao inferno.
    A manifestação destas realidades já se faz presente segundo o evangelho de Cristo, que nos proporciona a oportunidade e as palavras. Oxalá também nós, que já somos o povo eleito de Deus, nação santa, Igreja do Deus vivo, segregados dos ímpios e dos sem religião, sejamos no século futuro separados do joio e unidos à multidão dos resgatados, no mesmo Cristo Senhor nosso que é bendito para sempre. Amém.

     


    DOS SERMÕES DE SÃO BERNARDO, ABADE
    Leitura para o domingo, 9 de novembro de 1997, quando se celebra a Festa da Dedicação da Basílica do Latrão, Catedral de Roma e, portanto, "Mãe e cabeça de todas as igrejas". Tem esta festa precedência sobre a celebração do domingo
    É a festa da casa do Senhor, do templo de Deus
     
    Hoje, meus irmãos, celebramos ainda uma solenidade, e solenidade importante. Ouçamos: é a festa da Casa do Senhor, do Templo de Deus, da Cidade do Rei Eterno, da Esposa de Cristo. Será que alguém duvida que a Casa de Deus seja santa, quando lemos: À tua casa convém a santidade (Sl 92, 5)? Assim é santo o seu templo, admirável na justiça; esta santa cidade, também João dá testemunho de ter visto: Vi - diz ele - a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do céu de junto de Deus, preparada como uma esposa ornada para o esposo (Ap 21,2).
    Detendo-nos pelo menos um pouco nesta alta visão, procuremos a Casa de Deus, o Templo, a Cidade, busquemos a Esposa. Não o esqueci, é claro, mas o digo com medo e reverência: somos nós. Mas no coração de Deus, por deferência sua, e não por dignidade nossa. Não usurpemos o que é de Deus, não queira o homem engrandecer a si mesmo (cf. Sl 9, 20). Pois Deus humilharia aquele que se exaltar, atribuíndo a si o que Deus fez.
    Lembremo-nos também que ele chama sua casa «casa de oração», o que certamente corresponde à visão profética segundo a qual devemos ser alimentados pelo pão dos lágrimas, e nas lágrimas, isto é, em nossas orações, receber bebida (cf. Sl 79, 6). Aliás, conforme o mesmo profeta, a esta casa convém a santidade, quer dizer: as lágrimas da penitência sejam acompanhadas pela continência e a pureza, e deste modo a casa se transforme em templo de Deus. Sede santos, diz ele, porque eu sou santo, o Senhor vosso Deus (Lv 19,2). E o Apóstolo diz: Não sabeis que os vossos corpos são um templo do Espírito Santo, que habita em vós? (1 Cor 6,19). Se alguém violar o templo de Deus, Deus o fará perecer (1Cor 3,17).
    Perguntamos, porém, se esta santidade já é suficiente. Também a paz é necessária, como testemunha o Apóstolo dizendo: Procurai a paz e a santidade, sem a qual ninguém verá a Deus (Hb 12,14). É esta paz que leva os irmãos concordes a unir-se numa casa, edificando a nosso Rei, verdadeiro e pacífico, uma cidade que seja chamada Jerusalém, isto é, visão de paz. Por isto, meus irmãos, se consta assim que pela abundante refeição do grande Pai de família somos uma casa, se pela santidade somos um templo de Deus, se pela comunhão da vida somos a cidade do Rei supremo, se pelo amor somos a esposa do Esposo imortal, não será demasiado que eu chame esta solenidade de «nossa solenidade»! E não nos admiremos que esta festa se celebre na terra; pois é celebrada também nos céus. Se, como diz a Verdade - e disto não se pode ter dúvida - há alegria no céu, entre os anjos de Deus, por um pecador que faça penitência (cf. Lc 15,10), então haverá muito maior alegria pela penitêcia de tantos pecadores. Alegremo-nos, por conseguinte, com os Anjos de Deus, com o próprio Deus, e celebremos esta solenidade de hoje, com ação de graças, porque quanto mais ela é da nossa casa, tanto mais deverá ser fervorosa.

     


    DO LIVRO DE SANTO AGOSTINHO, BISPO, SOBRE OS DEVERES PARA COM OS MORTOS
    Comentário para o dia de Finados
    Deveres prestados ao corpo morto
     
    Os cuidados relativos ao enterro, a escolha da sepultura, a pompa dos funerais, são antes um consolo para os vivos que um proveito para os mortos. Contudo não devemos desprezar os corpos dos que morreram, sobretudo os dos justos e fiéis, dos quais as almas se serviram santamente como instrumentos na práticas de todas as boas obras.
    Se uma veste ou anel de um pai, e outros objetos do mesmo gênero, são tão mais caros aos descendentes quanto maior sua afeição para com os pais, de modo algum podemos menosprezar seus corpos, pois os corpos nos estão mais íntima e estreitamente unidos que qualquer vestimenta. Eles não fazem parte dos ornamentos ou dos instrumentos que nos são trazidos de fora, mas da própria natureza do homem. Assim, sabemos com que piedosa solicitude eram realizados outrora os funerais dos justos, a celebração das exéquias, a preparação dos túmulos; eles próprios muitas vezes, durante a sua vida, haviam ordenado a seus filhos que sepultassem ou transferissem seus corpos.
    Um amor que se recorda e que reza, testemunhado aos mortos por aqueles que lhe são caros, é sem dúvida de grande proveito para os que, durante sua vida corpórea, mereceram que tais coisas lhes fossem úteis após esta vida. Mas, se por motivo de força maior, não houver possibilidade de sepultar os corpos ou de enterrá-los em lugar sagrado, não se deve por isso esquecer as súplicas em favor das almas dos mortos. Por todos aqueles que morreram na comunhão cristã e católica, a Santa Igreja se encarrega de fazer essas orações, mesmo sem mencionar o nome de cada um, numa comemoração geral, a fim de que, como terna mãe de todos nós, preste esse socorro aos que não tenham pais, filhos, parentes ou amigos. Mas, se omitirmos estas súplicas, de uma fé e de uma piedade esclarecidas, creio que nada adiantaria às almas terem seus corpos sepultados em lugares sagrados.
    Sendo assim, não imaginemos poder atingir os mortos de que cuidamos senão pelo santo sacrifício do altar, pelas orações e esmolas. Se bem que não aproveitem a todos pelos quais os fazemos, mas somente àqueles que em vida mereceram que isso lhes fosse proveitoso. Todavia, como não podemos saber quais sejam, é preciso que façamos tais coisas por todos os batizados, a fim de que não seja esquecido nenhum daqueles a quem tais benefícios possam atingir. É melhor que sejam supérfluos para aqueles aos quais não podem aproveitar nem prejudicar, que virem a faltar àqueles que podem beneficiar-se deles. Realizamos estas coisas com mais solicitude pelos parentes, a fim de obtermos que também se realizem em nosso favor.
    Porém, tudo o que se realiza para o sepultamento do corpo não constitui uma ajuda para a salvação, mas apenas um dever de humanidade, decorrente do amor que nos proíbe odiar a própria carne. Assim, devemos cuidar, quanto pudermos, do corpo do nosso próximo, quando partiu aquele que o ocupava. E, se até aqueles que não crêem na ressurreição agem desse modo, muito mais devemos fazê-lo os que cremos, para que esses deveres prestados ao corpo morto, mas chamado a ressuscitar e a viver eternamente, sejam como um testemunho da mesma fé.

     


    DO TRATADO «EXORTAÇÃO AOS PAGÃOS» DE CLEMENTE DE ALEXANDRIA

    (Comentário a Mc 10,46-52, evangelho do XXX domingo do Tempo Comum - ano B)

    Acolhamos a luz e tornemo-nos discípulos do Senhor
     
    O mandamento do Senhor é transparente, ilumina os olhos (Sl 118,9). Recebe Cristo, recebe a visão, recebe a luz para conhecer ao mesmo tempo Deus e o homem. O Verbo pelo qual somos iluminados é mais desejável do que o ouro, do que muito ouro refinado; mais doce do que o mel escorrendo dos favos (Sl 18,11). Como poderia não ser desejável aquele que proporcionou aluz à mente envolta em trevas e tornou mais luminosos e mais vivos os olhos da alma? Se não houvesse sol, haveria somente noite em toda parte, apesar das estrelas. Do mesmo modo, se não tivéssemos conhecido o Verbo nem sido iluminados por ele, seríamos como aves criadas sem luz, para depois sofrermos a morte.
    Abramo-nos, pois, à luz, para possuirmos Deus. Acolhamos a luz, para nos tornarmos discípulos do Senhor. Ele prometeu ao Pai: Anunciarei o teu nome aos meus irmãos, no meio da assembléia te louvarei (Sl 21,23). Glorifica-o e fala-me de Deus, teu Pai. Tuas palavras me trazem salvação. Teu cântico me ensinará que até agora tenho errado o caminho ao buscar a Deus.
    Mas quando és tu, Senhor, que me conduzes à luz e por meio de ti encontro a Deuse por ti abro-me ao Pai, então me torno coherdeiro, contigo, porque não te envergonhaste de me chamar irmão (cf. Hb 2,11).
    Cuidemos de não esquecer a verdade, afastemos de nós a ignorância, e, dissipadas as trevas que ofuscam como nuvens nossos olhos, contemplemos o verdadeiro Deus, elevemos imediatamente a voz, aclamando: Salve, ó luz! Pois a nós, que estávamos sepultados nas trevas e envoltos na sombra da morte, apareceu a luz do céu, mais pura do que o sol e mais cheia de alegria do que esta vida. Essa luz é a vida eterna e dela vivem todas as coisas que dela participam. A noite, ao contrário, fugiu da luz, e, ocultando-se temerosa, cedeu o lugar ao dia do Senhor.Difundiu-se, por toda parte, aquela luz que não pode extinguir-se, e o ocaso deu lugar à aurora. Isto significa a nova criação. O Sol de Justiça que, em seu curso, domina todas as coisas, ilumina todo gênero humano, sem distinção, segundo o exemplo do Pai, que faz brilhar o sol sobre todos os homens e os asperge com o orvalho da verdade. Ele transportou o poente para o nascente e crucificou a morte transformando-a em vida.
    O divino agricultor implantou no céu o homem arrancado à morte, transformando audaciosamente o corruptível em incorruptível, o terrestre em celeste. Trouxe a boa nova, incitando os povos ao bem, evocando à memória as normas de uma vida reta, dando-nos uma herança çdivina e imensa que ninguém pode arrebatar-nos. Com uma doutrina celeste, santificou o homem colocando em sua mente a lei e escrevendo-a em seu coração (cf. Jr 31,33). De que lei se trata? Todos me conhecerão, desde o menor até o maior, diz o Senhor, pois eu perdoarei sua iniquidade e não me recordarei mais de seu pecado (Jr 31,34).
    Acolhamos as lei da vida, obedeçamos ao chamado de Deus. Acolhamo-lo para que ele nos seja propício. Ofereçamos-lhe, embora não tenha necessidade disso, uma alma bem disposta, como agradável ação de graças pela sua habitação. A Deus, por cuja bondade aqui habitamos, tributemos adoração e amor.

     


    DAS HOMILIAS DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, BISPO

    (Comentário a Mc 10,32-45, evangelho do XXIX domingo do Tempo Comum - ano B)

    Não é tempo de coroas e de prêmios, mas de lutas
     
    Chegando Jesus a Jerusalém, aproximou-se dele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos Tiago e João, dizendo-lhe : Dize que estes meus dois filhos se assentem um à tua direita e outro à tua esquerda (Mt 20,21). Outro evangelista (Mc 10,35) diz terem sido os filhos que fizeram esse pedido a Cristo. Mas não há desacordo, nem é o caso de nos determos nessas minúcias. Tendo mandado a mãe à frente, após ter ela falado e preparado o terreno, fizeram também o pedido, sem saber o que diziam. Na verdade, embora apóstolos, eram ainda muito imperfeitos, como filhotes de pássaros a girar em torno do ninho, antes de lhes nascerem as penas.
    É muito útil sabermos que, antes da Paixão, estavam mergulhados em grande ignorância a ponto de censurá-los o Senhor, dizendo: Nem mesmo vós tendes entendimento? (Mt l5,16) Ainda não entendeis nem compreendeis (Mc 8,17) que não estava falando de pão quando vos disse: acautelai-vos do fermento dos fariseus? (Mt 16,11). E mais tarde: Tenho ainda muita coisa a dizer-vos, mas não sois capazes de compreender agora (Jo 16,12).
    Não vemos que certamente nada sabiam da ressurreição? E o evangelista o acentua dizendo: Ainda não tinham compreendido que, conforme a Escritura, devia ressuscitar dos mortos (Jo 20,9). E se não sabiam isso, com mais razão ignoravam outras coisas, como, por exemplo, o que se refere ao reino dos céus, à nossa origem e ascensão ao céu. Ainda apegados à terra, não podiam elevar-se às alturas. Esperavam, convictos, que de um dia para o outro, reconstituisse ele o reino de Jerusalém, uma vez que não eram capazes de compreender outra coisa. Outro evangelista também o indica, afirmando que pensavam já estar próxima a vinda do reino, que imaginavam semelhante aos reinos terrenos, e acreditavam estar-se preparando para instaurá-lo e não para a cruz e para a morte. Não conseguiram compreender essas coisas apesar de as terem ouvido muitas vezes.
    Não tendo, pois, chegado a um claro e exato conhecimento da verdade, acreditavam estar a caminho de um reino terreno, certos de que ele reinaria em Jerusalém. E estando perto dele, na estrada, aproveitaram a ocasião para dirigir-lhe tal pedido. Afastando-se do grupo dos discípulos, como se tudo dependesse de sua vontade, pedem-lhe um lugar privilegiado e que lhes fossem atribuídos cargos importantes. Achavam que as coisas chegavam a seu fim, que tudo estava terminado, e viera o tempo das coroas e dos prêmios. Era o cúmulo da ignorância.
    Depois do pedido que fizeram, ouçamos a resposta de Jesus: Não sabeis o que pedis (Mt 20,22). Não era o momento de coroas e prêmios, mas de batalha, de luta, de fadigas, de suores, de provações e combates. A frase não sabeis o que pedis significa tudo isto. Ainda não experimentastes os cárceres, ainda não entrastes em campo para combater.
    Podeis beber o cálice que eu vou beber, ou ser batizados com o batismo com que serei batizado? (Mc 10,38). Neste momento chama cálice e batismo à sua cruz e à sua morte. Cálice porque as bebe avidamente; batismo porque com elas purifica a terra. Não só deste modo a redimia, mas também pela ressurreição, que não lhe foi custosa. Do cálice que vou beber também bebereis, e com o batismo com que vou ser batizado, sereis batizados (Mc 10,39), diz ele, chamando assim à sua morte. Na verdade Tiago teve a cabeça cortada pela espada e João como que passou por várias mortes. Porém sentar à minha direita ou à minha esquerda, não me cabe concedê-lo, mas é para aqueles para quem foi preparado (Mc 10,40). Vós morrereis, sereis condenados à morte e obtereis a honra do martírio. Quanto a ser o primeiro, não me cabe concedê-lo, mas é para aqueles para quem foi preparado.

     


    DAS HOMILIAS DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, BISPO
     

    (Oratio 3 adversus Iudaeos: PG 48, 867-868)

    Por que razão jejuamos nestes quarenta dias? Outrora, principalmente no tempo em que Cristo se entregou à morte, muitos se aproximavam dos santos mistérios temerariamente e sem discernimento. Por conseguinte, quando os pais compreenderam quanto prejuízo resultaria dessa aproximação temerária, determinaram quarenta dias de jejum, preces, escuta da Palavra de Deus e assembléias religiosas. Isto para que nesses dias todos nós, diligentemente purificados pela oração, pela esmola, pelo jejum, pelas vigílias e lágrimas, pela confissão e por outras ações, segundo a nossa capacidade, nos aproximemos dos santos mistérios com a consciência pura.
    É evidente que, por este seu empenho, realizaram eles algo de grande e excelente ao nos inculcarem o hábito do jejum. Com efeito, mesmo se cessarmos de pregar e proclamar o jejum o ano todo, ninguém dará atenção a nossas palavras. Basta porém que chegue o tempo da Quaresma e embora ninguém exorte, ninguém aconselhe, até as pessoas muito negligentes serão estimuladas e aceitarão o conselho e a exortação oferecidos para este tempo.
    Se, portanto, alguém te pergunta o motivo por que jejuas, não digas: por causa da Páscoa, nem por causa da cruz. Pois não é por causa da Páscoa, nem por causa da cruz que jejuamos, mas por causa de nossos pecados, porque vamos nos aproximar dos santos mistérios. A Páscoa não é ocasião de jejum, nem de luto, mas de alegria e exultação.
    Na verdade, a cruz destruiu o pecado, foi a expiação do mundo, a reconciliação do ódio inveterado; ela abriu as portas do céu, tornou amigos os que eram inimigos, reconduziu-nos ao paraíso, colocou nossa natureza à direita do trono de Deus, concedeu-nos com largueza inúmeros outros dons. Portanto, não convém chorar ou amargurar-se, mas alegrar-se e regozijar-se por causa de tudo isso.
    Por essa razão, disse também Paulo: Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz do nosso Senhor Jesus Cristo (Gl 6,14). E ainda: A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores (Rm 5,8).
    João afirma claramente: Deus amou tanto o mundo. Como? pergunto. E deixando tudo mais, assumiu a cruz. Como dissesse: Deus amou tanto o mundo, acrescentou: que deu o seu Filho unigênito para ser crucificado, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16). Por conseguinte, se a cruz é ocasião de caridade e de glória, não vamos dizer que choramos por sua causa. Não choramos por causa dela, mas, ao contrário, por causa de nossos pecados. Por isso é que também jejuamos.

     


    DOS TRATADOS DE SANTO AGOSTINHO, BISPO
     

    (Tract. 33,7-8: CCL 36,309-310)

    Estejam atentos aqueles que no Senhor amam a sua bondade e temem a sua verdade. Realmente o Senhor é piedade e retidão (Sl 24,8). Gostas de que ele seja bom; temes, porque ele é reto. Em sua bondade ele disse: Calei-me, mas porque é justo, acrescentou: Hei de calar-me sempre? (Is 42,14; cf. LXX). O Senhor é misericordioso e compassivo (Sl 85,15). Sim, é verdade. Acrescenta ainda: lento para a cólera (Sl 85,15), e prossegue: e rico em misericórdia (Sl 85,15); mas teme o que é dito em último lugar: e cheio de verdade (Sl 85,15). Sim, aqueles que ele suporta agora como pecadores, ele os julgará por terem-no desprezado. O Senhor é bom, o Senhor é lento para a ira, o Senhor é misericordioso, mas o Senhor é também justo e cheio de verdade.
    Ele concede tempo para te corrigires, mas preferes desfrutar dessa trégua a te converteres. Foste mau ontem, sê bom hoje: passaste este dia no mal, ao menos amanhã muda de conduta. Esperas sempre e prometes a ti mesmo muita misericórdia de Deus, como se aquele que te prometera o perdão na penitência tivesse te prometido uma vida ainda mais longa. Como saberás o que te está reservado para amanhã? Tens razão ao dizer em teu coração: «Quando eu me corrigir, Deus perdoará todos os meus pecados». Não podemos negar que Deus prometeu seu perdão aos que se corrigirem e se converterem. Mas, na realidade, no Profeta, onde lês que Deus prometeu o perdão a quem se corrige, não lês que ele te prometeu uma vida longa.
    Os homens se acham, assim, em perigo dos dois lados, esperando como desesperando; duas coisas opostas, dois sentimentos contrários. Quem foi decepcionado em sua esperança? Aquele que diz: «Deus é bom, Deus é misericordioso, posso fazer o que quiser, o que me é agradável. Vou soltar as rédeas às minhas paixões, vou satisfazer os desejos de minha alma. Por quê? Porque Deus é misericordioso, porque Deus é bom, porque Deus é cheio de benevolência». Esse se acha em perigo por causa da esperança. Mas há os que desesperam, os que, após terem caído em pecados graves, acham que não podem mais ser perdoados caso se arrependam. Consideram-se como que definitivamente destinados à condenação e dizem em si mesmos: «Já que seremos condenados, por que não fazer tudo o que quisermos?».

     
     
     


    Leitura Monástica
    A DIMENSÃO MISSIONÁRIA DA VIDA MONÁSTICA
     
     
    Por ocasião do Dia Mundial das Missões, a ser celebrado no domingo, 19 de outubro - ocasião em que o Papa João Paulo II estará proclamando a Padroeira das Missões, Santa Teresa do Menino Jesus, Doutora da Igreja - achamos interessante divulgar alguns trechos de recente alocução do Santo Padre. Falando a monjas italianas de várias Ordens de clausura, no dia 28 de setembro de 1997, na Catedral de S. Pedro, em Bolonha, por ocasião do 23º Congresso Eucarístico Nacional da Itália, disse o Papa:
    "A vossa missão é alimentar e sustentar a ação pastoral da Igreja com o precioso contributo da contemplação, da oração e do sacrifício, que continuamente ofereceis nos vossos mosteiros, cuja silenciosa presença manifesta aos homens do nosso tempo o início do Reino de Deus.
    Assim como a Igreja, também a Comunidade monástica nasce da Eucaristia, se alimenta com o sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor e está para Ele constantemente orientada. Cada dia a liturgia convida-vos a contemplar, através do lado trespassado de Cristo na Cruz, o mistério do Amor eterno do Pai, para depois o testemunhardes na vossa existência totalmente oferecida a Deus. A vós Jesus revela o mistério do Seu amor, para que O guardeis como Maria, no silêncio fecundo da fé, tornando-vos juntamente com Ela colaboradoras na obra da salvação.
    Caríssimas Irmãs, a vossa vida, recolhida e conservada no mistério da Trindade, torna-vos partícipes do íntimo diálogo de amor que o Verbo manteve de maneira ininterrupta com o Pai, no Espírito Santo.
    Deste modo, o vosso quotidiano "sacrificio laudis", unido ao cântico constituído pelas vossas existências de pessoas consagradas na vocação claustral, antecipa já sobre esta terra algo da eterna liturgia do céu. A contemplativa, afirmava a Beata Isabel da Trindade, "deve estar sempre ocupada na ação de graças. Cada um dos seus atos, dos seus movimentos, cada pensamento seu e aspiração, ao mesmo tempo que a enraizam de modo mais profundo no amor, são como um eco do Sanctus eterno" (Escritos, Retiro, 10,2).
    A Eucaristia é o dom que Cristo fez à sua Esposa, na hora de deixar este mundo para retornar ao Pai. Queridas Irmãs, a comunidade cristã reconhece na vossa vida "um sinal da união exclusiva da Igreja-Esposa com o seu Senhor" (Vita consecrata, 59). O mistério do caráter esponsal, que pertence à Igreja na sua integridade (cf. Ef 5,23-32), assume nas vocações de especial consagração um relevo particular, que atinge a sua mais eloquente expressão na mulher con agrada: com efeito, pela sua própria natureza, ela é figura da Igreja, virgem, esposa e mãe, a qual mantém íntegra a fé dada ao Esposo gerando os homens para a vida nova no batismo.
    Na religiosa de clausura, depois, precisamente porque está empenhada em viver em plenitude o mistério esponsal da união exclusiva com Cristo, "realiza-se o mistério celeste da Igreja" (Santo Ambrósio, De institutione virginis, 24,255). Ao mistério do "corpo dado" e do "sangue derramado", que toda a Eucaristia representa e atualiza, a claustral responde com a oblação completa de si mesma, renunciando completamente "não só às coisas, mas também ao espaço, aos contatos, a tantos bens da criação" (Vita consecrata, 59). A clausura constitui uma maneira particular de "estar com o Senhor", participando no Seu aniquilamento numa forma de pobreza radical, mediante a qual se escolhe Deus como "o Único Necessário" (cf. Lc 10, 42), amando-O exclusivamente como o Tudo de todas as coisas. Desse modo os espaços do mosteiro claustral alargam-se para horizontes imensos, porque são abertos ao amor de Deus que abraça todas as criaturas.
    A clausura, portanto, não é só um meio de imenso valor para conseguir o recolhimento, mas um modo sublime de participar na Páscoa de Cristo. A vocação claustral introduz-nos no Mistério eucarístico, favorecendo a vossa participação no Sacrifício redentor de Jesus para salvação de todos os homens.
    À luz destas verdades manifesta-se o vínculo estreitíssimo que existe entre contemplação e missão. Mediante a união exclusiva com Deus na caridade, a vossa consagração torna-se fecunda de maneira misteriosa, mas real. Esta é a vossa modalidade típica de participar na vida da Igreja, o contributo insubstituível para a sua missão, que vos torna "colaboradoras do próprio Deus e apoio dos membros débeis e vacilantes do seu inefável Corpo" (Santa Clara de Assis, Terceira Carta a Santa Inês de Praga, 8).
    Na vossa "forma de vida" torna-se visível, também aos homens do nosso tempo, a face orante da Igreja, o seu coração inteiramente possuído pelo amoe por Cristo e repleto de gratidão pelo Pai. De cada mosteiro eleva-se incessantamente a oração de louvor e de intercessão pelo mundo inteiro, do qual sois chamadas a acolher e compartilhar sofrimentos, expectativas e esperanças.
    A vossa vocação contemplativa constitui também um jubiloso anúncio da proximidade de Deus e, ao mesmo tempo, a Sua presença amorosa ao lado de cada pessoa, especialmente se for pobre e desorientada.
    A vossa vida, que com a sua separação do mundo se expressa de modo concreto e eficaz e proclama a primazia de Deus, constitui um apelo constante à preeminência da contemplação sobre a ação, daquilo que é eterno sobre o que é temporâneo. Ela propõe-se, por conseguinte, como uma representação e uma antecipação da meta, para a qual caminha a comunidade eclesial: a futura recapitulação de todas as coisas em Cristo.
    Quanto tudo isto é verdadeiro, testemunha-o de modo significativo o exemplo de Santa Teresa de Lisieux, da qual recordamos este ano o primeiro centenário da morte, e que no próximo dia 19 de outubro terei a alegria de proclamar Doutora da Igreja. A sua breve existência, transcorrida no escondimento, continua a falar-nos do fascínio da busca de Deus e da beleza da completa doação de si ao Seu amor. Na sua sede ardente de cooperar na obra da redenção, ela perguntava-se, como sabeis, qual era a sua missão específica na Igreja. Nenhuma opção a satisfazia plenamente, até ao dia em que, iluminada interiormente, compreendeu que a Igreja tinha um coração, e que este coração ardia de amor: "No coração da Igreja, minha mãe - ela decidiu então - serei o amor". Para realizar esta singular vocação ao amor, é preciso não se deixar enganar pela sabedoria mundana; só aos pequeninos, com efeito, o Pai revela os seus mistérios, entrando no coração deles que, segundo uma bonita expressão de Santa Clara de Assis, é "mansio et sedes", "morada e permanência" da Majestade divina (cf. Tercedira Carta a Santa Inês, 21-26).
    As vossas comunidades claustrais, com os seus próprios ritmos de oração e de exercício da caridade fraterna, nas quais a solidão é impregnada pela suave presença do Senhor e o silêncio dispõe a alma à escuta das Suas sugestões interiores, são o lugar onde cada dia vos formais para este conhecimento amoroso do Verbo do Pai. De coração faço votos por que a vossa vida seja penetrada por esta constante tensão para Deus, por uma incessante oblação eucarística que transforme a existência em total holocausto de amor, em união com Cristo, para a salvação do mundo."
    Papa João Paulo II

    EDITORIAL DE FEVEREIRO/98
    A PARÁ-OIKÍA (PARÓQUIA) DO CRISTÃO
     
     
    O cristão utiliza os vocábulos "paróquia, pároco, paroquiano" sem talvez se dar conta de todo o alcance desses termos. Na verdade, são portadores de profundo significado.
    Com efeito, paróquia vem do grego pará-oikía,o que significa "casa ou posada (oikía) ao lado (pará)". Tal é a tenda que o viandante ergue quando faz uma parada na estrada para repousar; não entra na cidade, mas acampa ao lado (ou fora) da cidade, porque não é cidadão da mesma, nem pretende ali fixar residência; ele quer ir adiante; por isto é paróikos.
    O vocábulo é muito caro à linguagem bíblica: o povo de Deus e cada um dos seus membros são tidos como viandantes ou peregrinos sobre a terra, em demanda da Cidade Definitiva, cujo Arquiteto e Construtor é o próprio Deus (Hb 11,10). O autor da epístola aos Hebreus chega a dizer: Não temos aqui uma cidade estável, mas procuramos a futura (Hb 13,14). Com muito acerto o cristão percebe que este mundo não pode ser o destino supremo do homem; as contradições aqui existentes acenam a uma realidade melhor, em que o Bem e o Mal serão reconhecidos como tais. Consciente disso, São Pedro se refere aos tempos da nossa paroikía, vocábulo que se traduz geralmente por "exílio": Portai-vos com temor durante o tempo da vossa paroikía (1Pd 1,17). Na verdade, a cidadania do cristão está nos céus, donde ele espera ansiosamente o Salvador, que o levará para a glória (Fl 3,20).
    As mesmas convicções se expressam nitidamente na literatura cristã dos primeiros séculos. Assim, as Atas do Martírio de São Policarpo (+156) saúdam os leitores destinatários com as palavras: A Igreja de Deus que é pároca em Esmirna á Igreja de Deus que é pároca em Filomélio. "Ser pároco", no caso, significa "ser viandante acampado a caminho da meta definitiva". Esse mesmo documento refere-se a todas as paróquias (assentamentos de caminheiros) da Igreja Católica. Um pouco mais tarde, no século III, um cristão anônimo escrevia a Diogneto, dizendo-lhe: Os cristãos habitam a sua pátria, mas como pároikoi (viandantes). De tudo participam como cidadãos, mas tudo suportam como estrangeiros. Toda terra estrangeira é pátria para eles, e toda pátria lhes é terra estrangeira (5,5).
    Tal vocabulário passou para a linguagem católica posterior, mas foi perdendo o seu significado originário tão importante. É oportuno reavivar nos cristãos a consciência de que tudo passa neste mundo: passa a figura deste mundo (1Cor 7,31). Isto não dispensa os fiéis, pároikoi de trabalhar zelosamente na construção de um mundo melhor, mas abre horizontes, e ajuda a olhar para o futuro que trará a resposta cabal aos anseios dos homens, resposta que nenhuma obra meramente terrestre, por mais bela que seja, jamais poderá propiciar.
    E.B.

    EDITORIAL DE SETEMBRO/97
    «SENHOR, ONDE ESTÁS?»
     
     
    O sofrimento é muitas vezes o grande enigma dos homens: por que..., para que existe? Onde fica Deus?
    Em vez de se deixar levar pelas emoções, o cristão, diante de tal questionamento, põe a razão e a fé para funcionar. Estas ensinam que Deus não pode ser o Autor dos males que afligem os homens, pois, por definição, Deus é o Santo e o Perfeito. O mal só pode provir das criaturas limitadas... necessariamente limitadas, pois, se não o fossem, seriam deuses. Cada qual é dotada da sua maneira própria de agir.
    O Senhor não quis fazer um mundo artificial, policiado a todo momento, de modo que o homem seria uma marionete no teatro da história teledirigida por um teatrólogo todo-poderoso. Essa peça de teatro poderia ser bonita, mas teria uma nota negativa: a sufocação da liberdade de criaturas livres por sua própria natureza e espontaneamente desejosas de exercer a sua liberdade.
    Sendo assim, o Senhor Deus concebeu uma outra modalidade de enredo da história. Sim; Ele deixa as criaturas agir segundo a sua natureza: as irracionais, conforme as leis da Física; as racionais, segundo as opções da sua liberdade. Isto é mais nobre e magnânimo do que esmagar a liberdade de quem foi feito para ser livre. Como se compreende, porém, a liberdade dá sua "mancadas" ou pratica lances falsos (é claro, porém, que nem tudo é falho, mas muita coisa estupenda ocorre por opção das criaturas livres). O papel nobre de Deus, no caso, será o de fazer que os próprios males das criaturas contribuam para o bem das mesmas. É Sto. Agostinho quem diz: «Deus nunca permitiria o mal, se Ele não tivesse recursos para tirar do mal bens ainda maiores». Com outras palavras: Ele preferiu utilizar o mal em favor do bem a impedir soberanamente o mal.
    A Sagrada Escritura é toda perpassada por esta concepção. Já em seu primeiro livro encontra-se a história de José vendido por seus irmãos a estrangeiros e condenado ao extermínio. Diz finalmente José, feito Primeiro-Ministro do Faraó do Egito, aos seus irmãos que se lhe apresentam como escravos: «Não tenhais medo algum! O mal que tínheis a intenção de fazer-me, o desígnio de Deus o mudou em bem a fim de cumprir o que se realiza hoje: salvar a vida a um povo numeroso. Não temais; eu vos sustentarei, bem como a vossos filhos» (Gn 50,18-21).
    Estas palavras são como um clichê que percorre toda a mensagem bíblica e culmina na figura de Jesus Cristo. Este foi vendido por seus irmãos e condenado a morrer, mas Ele pode dizer: «Estive morto, mas eis que vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da região dos mortos» (Ap 1,17s).
    O mesmo clichê se aplica a cada discípulo de Cristo. A cruz que ele carrega é parte da Cruz de Cristo; é o lenho da vida, que faz passar da morte para a plenitude bem-aventurada. Eis por que o cristão não se abate, mas sabe que nada lhe acontece fora do sábio plano da Providência, que nunca permitiria o mal se não tivesse recursos para tirar do mal bens ainda maiores.
    E.B.

    EDITORIAL DE JUNHO/97
    «POR CAUSA DO SEU GRANDE AMOR...»
     
     
    O mês de junho é dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Esta devoção tomou vulto especial por ocasião das aparições de Jesus a Sta. Margarida Maria Alacoque (+1690), na época em que o jansenismo atemorizava os fiéis, propondo-lhes um Deus que não queria a salvação de todos os homens, mas apenas a dos eleitos. Em réplica a esta concepção, Jesus apresentou o seu Coração, símbolo do amor de Deus por toda a humanidade, amor tão forte que assumiu o que é do homem para dar-lhe o que é de Deus.
    São Paulo explana esse amor com muita ênfase ao recordar a situação de gentios e judeus antes de Cristo: estavam mortos sob o domínio do pecado... «Mas Deus, rico em misericórdia, por causa do seu grande amor...» O "mas Deus" é adversativo; inverte o quadro sombrio da morte, tornando-o luminosa perspectiva de vida. Essa reviravolta é devida ao amor de Deus; o Apóstolo faz questão de realçar bem o amor gratuito: «Deus que é misericordioso, por causa do grande amor... a nós, que estávamos mortos» (Ef 2,1-5). A morte, no caso, não era apenas ausência de vida, mas era a revolta e a inimizade para com Deus. Nada havia no homem que pudesse provocar a benevolência divina. Mas precisamente nisto consiste o amor de Deus: ele não precisa de ser motivado pela amabilidade do seu objeto; ao contrário, é esse amor que cria a amabilidade do objeto. O homem não é amado por Deus porque seja bom e amável, mas é bom e amável porque Deus o ama...
    Amando-nos, Deus «nos tornou vivos em Cristo» (Ef 2,5). Como nos tornou vivos? - Enviando-nos o Filho, que assumiu o que é do homem no seio da Virgem; «trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano» (Gaudium et Spes nº 22); a seguir, morreu na Cruz, ressuscitou e nos deixou Batismo e Eucaristia para participarmos da vitória de Cristo. Assim fomos salvos. Esta palavra, na linguagem religiosa, talvez esteja inflacionada e empalidecida. Para entendê-la, pensemos no que acontece na vida do dia-a-dia, quando alguém é arrancado das garras da morte (morte corporal); pensemos no que ocorre quando os bombeiros salvam alguém das chamas de um incêndio ou quando a Defesa Civil retira vivo alguém soterrado pelos escombros de uma casa que desabou! Como aí é claro e quase palpável o conceito de salvação! Sem dúvida, a vida cotidiana está cheia de parábolas ou de situações que são imagens daquilo que acontece no plano superior ou espiritual. Fomos salvos não para morrer finalmente, mas para uma vida ainda mais preciosa do que a vida terrestre..., salvos para a vida eterna. E salvos pela graça, gratuitamente.
    Entende-se então que Jesus apareça neste mês de junho sob o símbolo do Coração a recordar a verdade básica do Cristianismo ou a extraordinária façanha do amor de Deus, façanha esquecida ou empalidecida na mente de muitos fiéis. Recordando-a, o Senhor pede uma resposta à altura do dom de Deus: «Eis o Coração que muito amou os homens, mas deles só tem recebido ingratidão».
    E.B.

    EDITORIAL DE MAIO/97
    «ALEGRA-TE, CHEIA DE GRAÇA»

    Os fiéis católicos têm por hábito saudar a Virgem Maria com as palavras do anjo "Chaîre Kecharitoméne" (Lc 1,28), que são geralmente traduzidas por "Ave Maria, cheia de graça". Todavia, o texto grego diz literalmente: "Alegra-te..." e não "Ave" ou "Salve". A diferença de traduções é importante, pois o convite à alegria dirigido a Maria faz eco ao mesmo convite dirigido freqüentemente, no Antigo Testamento, à Filha de Sião ou ao povo de Israel (cf. Is 12,6; 44,23; 49,13; 54,1...). O motivo da alegria proposta é a vinda do Messias e da salvação a ser realizada por Ele. A Filha de Sião assim interpelada é tida como a Mãe que dará à luz o Messias (Jr 4,31; Mq 4,10). De modo especial vem ao caso o texto de Sofonias 3,14-18 como pano de fundo do anúncio do anjo a Maria:
    Sf 3,14-18: «Alegra-te, Filha de Sião. O Senhor está no meio de ti. Não temas, Sião. O Senhor teu Deus está em teu seio como Salvador, o Senhor Deus de Israel».
    Lc 1,28-33: «Alegra-te, cheia de graça. O Senhor está contigo... Não temas, Maria. Conceberás em teu seio... E o chamarás Jesus (Salvador), e reinará».
    Recolocando, pois, a saudação do anjo sobre o seu fundo de Antigo Testamento, verifica-se algo de muito profundo: Maria, interpelada por Gabriel, vem a ser a representante, por excelência, da Filha de Sião; é a autêntica Mãe do Messias. Daí a exortação à alegria, que São Lucas tanto recomenda em seu Evangelho (cf. Lc 1,14.28.41.44.58; 2,10; 10,17-23; 15,6.9.10.23.32; 24,21.54...). Desponta a aurora da salvação; não há porque temer (observação também feita aos pastores em Lc 2,10). Maria, grávida, vai ter com Isabel, cujo filho «exulta de alegria no seio materno» (Lc 1,41.44).
    Assim toda a história do Antigo Testamento conflui para Maria Santíssima. Ela é o ponto final que compendia em si a expectativa dos Patriarcas, as angústias dos justos à espera do Messias, a paciência do povo de Deus... E ela responde ao Senhor que lhe fala, com as palavras "Génoitó moi" (Faça-se em mim), verbo no modo optativo, que significa: «Oxalá realize o Senhor em mim a sua obra conforme a palavra do anjo» (Lc 1,38). Esta resposta exprime ardente desejo ou prece e plena disponibilidade para o serviço do Senhor, ainda que apresentado misteriosamente. Diante do inédito, Maria se curva, porque «para Deus nada é impossível» (Lc 1,37). Aliás, já no Antigo Testamento, o Senhor Deus revelou que a salvação do homem é possível, mesmo quando parece inexeqüível (cf. Gn 18,14; Jr 32,21).
    É, pois, com razão que a Igreja se volta para Maria neste mês de maio, venerando-a em sua grandeza humilde, e pedindo-lhe que continue a exercer o seu papel de Mãe do Messias, pois Este tem um Corpo prolongado, que é a comunidade dos fiéis, ou seja, cada cristão congregado na Comunhão dos Santos.
    «Alegra-te, Filha de Sião, cheia de graça...!»

     
    E.B.

    EDITORIAL DE ABRIL/97
    «CANTAI UM CÂNTICO NOVO» (Sl 96,1)

    O mês de abril é todo perpassado pelos ecos da Páscoa, celebrada aos 30/03 pp. Na vigília da Ressurreição do Senhor, os cristãos renovaram as suas promessas de Batismo, recordados de que pelo Batismo participaram da morte de Jesus ao pecado e da sua ressurreição como novo Adão. Ser batizado é realmente ser nova criatura, enxertada em Cristo, feita filho de Deus no FILHO. Faz-se necessário, porém, renovar periodicamente a consciência desta grande verdade, visto que a natureza, lerda como é, tende a levar sempre à rotina e à acomodação. Sto. Agostinho (+430) dirigia-se aos cristãos recém-batizados na vigília de Páscoa em termos que até hoje conservam pleno valor:
    «Ó irmãos, ó filhos, ó novos rebentos da Igreja Católica, ó geração santa e celestial, que renascestes em Cristo para uma vida nova! Ouvi-me, ou antes, ouvi através do meu convite: Cantai ao Senhor um cântico novo. "Já canto", dir-me-eis. Sim, ouço que cantais. Mas oxalá a vossa vida não dê tesemunho contra a vossa língua!»
    Cantai com a voz, cantai com o coração, cantai com a boca, cantai com a vida: "Cantai ao Senhor um cântico novo" (Sl 96,1). Perguntais-me o que deveis cantar a respeito daquele a quem amais. Sem dúvida, é acerca daquele a quem amais que vós desejais cantar. Quereis saber então que louvores haveis de cantar? Já o ouvistes: Cantai ao Senhor um cântico novo. E que louvores? Cantai os vossos louvores na assembléia dos santos. O maior louvor do cântico é o próprio amor. Quereis tributar louvores a Deus? Sede vós o cântico que haveis de cantar. Vós sois o Seu maior louvor, se viverdes santamente.»
    Estas palavras de Sto. Agostinho lembra oportunamente que a riqueza do cristão consiste em sua fidelidade incondicional a Deus; sua vida, ainda que modesta, é um cântico ao Senhor:
    «Não deixeis de viver santamente, e louvareis sempre a Deus. Deixais de O louvar quando vos afastais da justiça e do que Lhe agrada. Se nunca vos desviardes do bom caminho, ainda que se cale a vossa língua, clamará a vossa vida e o ouvido estará perto do vosso coração. Porque, assim como os nossos ouvidos escutam as nossas palavras, assim os ouvidos de Deus escutam os nossos pensamentos» (Sto. Agostinho).
    E, cantando a Deus por uma vida santa, o cristão canta também aos seus irmãos. Não há dúvida, aquilo de que o mundo hoje mais necessita, é o testemunho de vivências coerentes e corajosas, decididas a amar a Verdade e a morrer por ela no comezinho de cada dia ou também no páreo sangrento da perseguição. Quem assim procede é uma flor rara, que realmente proclama a novidade da Páscoa ou da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. - Ser arauto de tal mensagem é a maior dignidade que alguém possa almejar neste mundo. Seja cada cristão uma nova criatura num mundo sedento de "novidades"!

     
    E.B.

    Carta enviada para O GLOBO
    O ABORTO É HOMICÍDIO

    Em resposta ao artigo publicado sobre a Igreja e o aborto, desejo observar que toda a argumentação em favor do aborto cai por terra desde que se considere que o aborto é um homícidio..., e homicídio tal como não ocorria nem mesmo nos campos de concentração nazistas (onde havia câmaras de gás e fuzilamentos). No aborto a criança é dilacerada, despedaçada...; tem uma tesoura fincada no seu pescoço; o seu cérebro é sugado, de modo a causar o colapso do bebê, que vem finalmente arrancado do seio materno. E isto tudo é cometido geralmente a pedido da mãe ou com o consentimento dela. Tal prática fere não somente a criança, mas também o senso humanitário de qualquer criatura mentalmente sadia; fere principalmente o senso maternal da mulher. Muito mais nobre, da parte da mãe, é não matar o filho, deixá-lo nascer e entregá-lo a um casal ou a uma instituição (se não o quer ou não o pode educar). Aliás, quem é contrário à pena de morte para um criminoso, com mais razão deve ser contrário à pena de morte para uma criança inocente. Quanto à posição da Igreja frente ao aborto através dos séculos, o fato é que a Igreja sempre considerou ilícito o aborto, mesmo quando se pensava que a animação do feto se dava no 40º ou 80º dia; seria sempre o morticínio de um ser humano em formação.


    EDITORIAL DE MARÇO/97
    «COM CLAMOR E LÁGRIMAS... FOI ATENDIDO»

    Março de 1997 termina com o Tríduo Sacro ou os dias em que se comemoram a Paixão, a Morte e a Ressurreição do Senhor Jesus. São os dias mais densos do ano litúrgico, cujo conteúdo se encontra compendiado nas palavras do Apóstolo: "Jesus, nos dias de sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, e foi atendido por causa da sua reverência" (Hb 5,7).
    Estas palavras começam por recordar a oração do Senhor Jesus posto em agonia no Horto das Oliveiras pouco antes de ser preso. Então, antevendo os horrores da Paixão que o aguardava, pediu ao Pai que o dispensasse de beber o cálice. Os autores sagrados frisam bem o aspecto humano de Jesus; Ele pediu, suplicou, exprimindo sua angústia mediante clamor, lágrimas e suor de sangue (cf. Lc 22,44). Ele quis compartilhar tudo o que é humano, inclusive o pavor do sofrimento e da morte, para poder ser o Sacerdote perfeito, verdadeiro homem e verdadeiro Deus (cf. Hb 2,17;4,15). Ocorre, porém, que Jesus, por mais repugnância que sentisse pelo cálice, subordinou seu pedido à vontade do Pai: "Faça-se a tua vontade, e não a minha" (Mc 14,36).
    Continua o autor de Hebreus: "E foi atendido por causa da sua reverência". - É espontâneo perguntar: como foi atendido, se padeceu e morreu tão atrozmente? A resposta não é difícil. Jesus pediu, acima de tudo, que se cumprisse a vontade do Pai a seu respeito. Ora o desígnio do Pai era ainda mais grandioso do que simplesmente isentar Jesus da morte de Cruz. Consistia, sim, em fazer de Jesus o Senhor da morte e da vida. Ele veio para morrer (cf. Jo 12,27), e morrer para ressuscitar, ou seja, para ferir mortalmente a própria morte ou para tirar a esta o sinal negativo de sanção devida ao pecado e torná-la um canal para a plenitude da vida. Ele mesmo diz no Apocalipse: "Estive morto, mas eis que vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da Morte e do Hades (região dos mortos)". (Ap 1,18).
    O caso de Jesus é modelar para todos os homens. O Senhor Jesus passou pelos momentos mais difíceis de uma vida humana; soube, porém, colocar sua vontade abaixo da vontade do Pai. Assim também todo cristão tem o direito de pedir a Deus que o livre dos males que o afetam; peça-o, porém, no intuito de cumprir em tudo o desígnio do Pai. Se não for atendido como sugere, nem por isto terá sido inútil a sua oração. Receberá mais e melhor do que sugeriu, pois o plano de Deus é mais amplo e sábio do que os planos dos homens. - Possa a celebração do Tríduo Sacro avivar nos cristãos a consciência de que a Páscoa tem duas facetas inseparáveis uma da outra: Cruz e Ressurreição. E leve os cristãos a orar sempre com Jesus e como Jesus, para participar da vitória de Cristo!

    E.B.

    EDITORIAL DE FEVEREIRO/97
    «ENQUANTO TEMOS TEMPO...»

    O tempo é o dom de Deus básico, sem o qual não há outros dons. Sim, é no tempo que nos é dado praticar o bem, trabalhar, lutar, merecer... O tempo pode parecer insípido e até molesto para quem o vive no dia-a-dia; há mesmo quem procure "matar" o tempo em frívolos passa-tempos.
    Muito rica é a conceituação de tempo que a Escritura Sagrada nos oferece. Ela no-lo mostra como
    - caminhada de peregrinos que deixam o relativo em demanda do Absoluto ou da pátria definitiva (cf. 1Pd 1,7; Hb 11,13-16; 2Cor 5,8s);
    - semeadura, cuja colheita ocorrerá no além, de modo que quem semeia pouco, colherá pouco, e quem semeia muito, colherá muito (cf. Gl 6,7s; 2Cor 9,6). Cada segundo do nosso tempo tem seu eco na vida definitiva; é no tempo que construímos nossa eternidade.
    - algo premente, porque breve e fugidio (2Cor 7,1)... O tempo passa e não volta, de modo que é preciso aproveitar o HOJE de Deus: «Enquanto ainda se diz HOJE» (Hb 3,13), «HOJE se ouvirdes a sua voz...» (Hb 3,7). O homem não sabe quantos HOJE ainda terá, pois o desfecho terrestre é de incerta data (1Ts 5,1). Com outras palavras: o tempo quantitativo (mais dias, mais semanas, mais meses, mais anos...) há de ser também tempo qualitativo; exige qualidades correspondentes; possa o cristão crescer não somente em número de anos passageiros, mas também em méritos e valores definitivos;
    - antecâmara da vida plena, de tal modo que na terra aprontamos nossa vesta nupcial para a ceia da vida eterna (cf. Ap 21,2). Este aprontar não pode deixar de ser laborioso, atribulado, pois nada de grande se faz sem fadiga. Todavia, as momentâneas tribulações desta vida não têm proporção com o peso de glória que elas nos preparam para a pátria definitiva (cf. Ef 5,16; Rm 8,11; 2Cor 4,17);
    - exílio, que deve despertar no cristão o anseio da mansão definitiva, pois vivemos da fé, e não da visão face-a-face da Beleza Infinita (cf. 2Cor 5,6s);
    - moratória, que a paciência de Deus nos concede em vista de uma conversão, sempre mais radical (cf. Rm 2,4; 2Pd 3,9). Ele conhece a fragilidade humana e diariamente lhe renova a sua graça e misericórdia, a fim de que o fiel hoje proceda melhor ainda do que ontem.
    Pois bem. Estas idéias voltam à mente dos cristãos com ênfase especial no santo tempo da Quaresma. É o Apóstolo quem escreve: «Exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão... Eis agora o tempo favorável por excelência, eis agora o dia da salvação» (2Cor 6,1s). O cristão saberá aproveitar, cada ano mais conscientemente, o chamado de Deus, lembrando-se de que o Senhor não quer corações tristes e constrangidos, mas «Deus ama a quem dá com alegria» (2Cor 9,7).

    E.B.

    EDITORIAL DE DEZEMBRO/96
    «PROSSIGO PARA O ALVO» (Fl 3,14)

    Em Fl 3,7-14, São Paulo fala da sua conversão do judaísmo ao Cristianismo. Diz então: «Corro para ver se O (Cristo) alcanço, pois que também eu já fui alcançado por Cristo Jesus» (Fl 3,12). Com efeito; na estrada de Damasco Paulo foi alcançado (ou melhor, foi agarrado) por Cristo. A imagem quer lembrar que Paulo ia, apressado, a Damasco a fim de lá perseguir o Cristo nos cristãos (cf. At 9,4); mas o Senhor Jesus lhe foi ao encalço, correu mais rapidamente, agarrou-o e fê-lo mudar de mente; Paulo continuaria a procurar o Cristo, mas não mais como perseguidor e, sim, como discípulo. Tal episódio foi decisivo para a vida do Apóstolo: doravante seria ele o heróico atleta de Cristo, correria para mais e mais descobrir e possuir o Cristo.
    Eis uma bela imagem da vida cristã: o atleta no estádio esforça-se com todo o seu fôlego em demanda da palma da vitória. Essa corrida tem um alvo transcendente, para o cristão: chegar à visão de Deus face-a-face (cf. 1Cor 13,12). Tal meta imprime dinâmica à marcha do atleta: a vida cristã é essencialmente progresso em prol de uma união com Deus cada vez mais estreita. Mais ainda do que o atleta no estádio, o cristão não tem o direito de parar um só instante em atitude complacente ou satisfeita; dir-lhe-ia S. Agostinho: «Si dixeris: "Sufficit", et peristi" - Se disseres: "Basta", já pereceste" (Sermão 169,15,18). Cada passo dado à frente é um impulso em demanda de maior santidade ou de um amor a Deus sempre mais íntimo. Não há estacionamento na estrada que aproxima o cristão daquilo «que o olho jamais viu, o ouvido jamais ouviu, o coração do homem jamais percebeu» (1Cor 2,9). O desejo da vida eterna e a esperança da bem-aventurança celeste são os grandes propulsores da vida do cristão.
    A figura da corrida é muito válida, mas não deve fazer esquecer que a meta almejada pelo cristão não é apenas algo de futuro ou que esteja pela frente; ela é também o aprofundamento de uma realidade incompletamente possuída para chegar à posse perfeita; ainda mais do que tendência, a vida cristã é crescimento, e crescimento em profundidade.
    Nessa demanda da perfeição, o Apóstolo diz: «Esquecendo-me do que está para trás e avançando para o que está à frente, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto» (Fl 3,13s). Olhar para o passado, no caso, não é simplesmente recordar o passado (isto não é vedado ao cristão), mas é o olhar que leva ao relaxamento ou ao esmorecimento do ideal. Há, porém, um olhar para o passado que é construtivo, pois recorda os benefícios recebidos do Senhor ao longo dos anos e dos dias, para encontrar aí um estímulo ao progresso espiritual, como o encontraram S. Agostinho em suas Confissões e S. Teresa de Lisieux em sua História de uma Alma.
    Estas grandes verdades, tiradas da Escritura e da Tradição, sejam motivo de reflexão para nós, que terminamos mais um ano e sentimos a corrida do tempo. Corramos com o tempo, sim, como quem procura crescer para chegar à visão de Deus face-a-face.

    E.B.

    EDITORIAL DE NOVEMBRO/96
    «VIVER É CRISTO, MORRER É LUCRO...»

    É com estas palavras que o Apóstolo Paulo, feito prisioneiro e ameaçado de martírio, encara a vida e a morte.
    "Viver é Cristo"... Isto quer dizer que, tudo o que a palavra "vida" significa, o Apóstolo o encontra em Jesus Cristo. Se viver implica estar na verdade, Paulo encontra em Cristo a VERDADE; se viver implica estar no amor, Paulo encontra em Cristo o AMOR; se viver é alegria, Paulo encontra em Cristo a fonte de sua ALEGRIA, pois é ramo da videira Cristo (cf. Jo 15,5). Por conseguinte, também o que se chama "morte", já não é morte; é vida mais plena, mais rica, a verdadeira vida, pois é a entrada na alegria do Senhor (cf. Mt 25,21); é a união perfeita com Cristo não apenas pela fé, mas, sim, na visão face-a-face. O que o olho não viu, o que o ouvido não ouviu, o que o coração jamais percebeu (1Cor 2,9) o Apóstolo o antecipa na vida presente, a fim de o usufruir plenamente na vida futura.
    "Morrer é lucro"... São Paulo dizia numa passagem em que, após exprimir a natural aversão à morte, ele superava tal sentimento, numa visão de fé: Enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa morada, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão... Sim, estamos cheios de confiança, e preferimos deixar a mansão deste corpo para ir morar junto do Senhor (2Cor 5,7s).
    A consciência de que a morte é um lucro levava Paulo ainda a confessar: Sinto ardente desejo ou mesmo avidez (epithymía) de partir, ou melhor, (analýsai) romper minhas amarras (como uma nave que se solta), desmontar minha tenda (como um pelotão que desmonta seu acampamento), para estar com Cristo (Fl 1,23). "Com Cristo"... eis duas palavras que insinuam timidamente o inefável da outra vida e que São Paulo repete freqüentemente, sabedor de que nada pode traduzir adequadamente o que é o encontro face-a-face com a Beleza Inifinita (ver 1Ts 4,17; 5,10; 2Ts 2,1; Rm 14,8).
    A idéia de que a morte é vida plena já fora aventada pelo poeta trágico e teatrólogo grego Eurípedes (480-406 a.C.), que interrogava: Quem sabe se viver não é morrer, e morrer não é viver?. - O pressentimento de Eurípedes foi ridicularizado pelos seus contemporâneos, mas tornou-se plena verdade em Cristo. Já o pensador pagão sabia que a vida presente não preenche cabalmente o que todo homem entende por "vida"; deve haver algo mais, em que a sede de Verdade e Vida seja saciada.
    Pois bem, a atitude de São Paulo perante vida e morte foi a dos justos cristãos de todos os tempos. S. Inácio de Antioquia (+107), referindo-se ao Espírito Santo, escrevia: "Uma água viva clama dentro de mim: "Vem para o Pai". O cristão hoje pode repetir as palavras de São Paulo. Tenha consciência de que viver é Cristo e morrer é lucro, é passar da fé para a visão, das sombras para a plena luz, do exílio para a pátria!

    E.B.

    EDITORIAL DE OUTUBRO/96
    «SE NÃO VOS TORNARDES COMO CRIANÇAS...»

    O mês de outubro, além de ser o mês do Rosário, é também o mês da criança.
    A criança, segundo Jesus, é um símbolo religioso muito significativo: «Se não vos tornardes como as crianças, não entrareis no Reino dos Céus» (Mt 18,2).
    E como a criança é símbolo e modelo?
    Geralmente se pensa na pureza dos pequenos; são inocentes em vários sentidos e, por isto, representam um grande valor para os mais velhos. Há, porém, outro aspecto importante na criança, talvez menos explanado: a criança acredita... acredita naquilo que pai e mãe lhe dizem; acredita na capacidade e autoridade dos genitores e neles confia. Ora, esta atitude da criança é modelar para os adultos. Chamados a ser filhos de Deus, são chamados a ouvir o Pai Celeste.
    O Pai também tem a sua Palavra... O cristão, quando ainda pequeno, dá-lhe fé, fé tranqüila, que suscita confiança e alegria. Quando, porém, se faz adulto, muitos começam a titubear ou mesmo perdem a fé. Parece que crer em Deus é loucura ou escândalo (cf. 1Cor 1,23); os desapontamentos, as decepções e os traumas da vida levam a pensar que ilusória é a idéia de um Pai no céu, providente e solícito. Deixam de ser crianças frente a Deus; criticam e racionalizam, como quem sabe melhor do que o Pai.
    Ora, a bom propósito o Senhor Jesus exalta a criança, que acredita candidamente e confia. O cristão não crê apenas em criaturas, por mais fidedignas que sejam. Ele crê e confia em Deus, que é a Primeira Verdade e o Sumo Bem; sem dúvida, ele crê com uma fé que vai amadurecendo e deixando de lado fantasias e crendices. Acontece, porém, que no decorrer dos tempos a história apresenta aparentes desajustes, que desconcertam e levam a descrer.
    Em tais momentos, lembre-se o cristão da parábola de Mt 20,1-16: o patrão escandaliza seus operários, porque, além de pagar a cada um o que lhe é devido, dá gratuitamente, tirando do próprio bolso, sem lesar alguém. A quem reclama, diz o senhor: «Não te faço injustiça... Será que teu coração se torna mau, porque eu sou bom?» (Mt 20,15). Deus, o Pai Celeste, por ser Deus, não pode falhar; admitir um Deus falho é o mesmo que não crer em Deus; é incoerência; por definição, Ele é a Suma Sabedoria e a Santidade Perfeita. Por conseguinte, o homem não entende a Deus não porque Ele seja menos justo do que a criatura, mas, ao contrário, porque ultrapassa longe os limites da sabedoria e justiça das criaturas.
    Disto se segue valiosa conclusão: quem reflete sobre o problema da fé, verifica que a criança é modelo para os adultos em todo o decorrer da vida destes. Se alguma vez o filho se pode desiludir dos pais na terra, jamais o filho de Deus terá fundamento objetivo para se desiludir do Pai Celeste. Este merece a fé e a confiança incondicionais de seus filhos inteligentes e cultos, mas também felizes por terem a candura de uma criança que crê e confia em quem o merece.

    E.B.

    REENCARNAÇÃO E IGREJA ANTIGA

    Eis o teor de uma carta publicada pelo jornal O GLOBO, edição de 18/8/96, p. 6:
    Em vista de declarações publicadas a respeito da Igreja e a reencarnação, convém esclarecer o seguinte:
    A Igreja nunca professou a reencarnação. Existem testemunhos de Clemente de Alexandria (+215), Ireneu de Lião (+202), Enéias de Gaza (+520) e outros autores que rejeitam peremptoriamente a reencarnação, baseando-se aliás nas Escrituras Sagradas; estas professam uma só passagem do homem sobre a terra (Hb 9,27). Acontece, porém, que, a partir do século V, uma corrente de monges do Egito, da Palestina e da Síria, pouco letrados, passaram a acreditar na reencarnação; eram chamados "origenistas", pois seguiam seu mestre Orígenes (+254), que propusera como simples hipótese uma teoria próxima à reencarnacionista. Logo os abades São Sabas e Gelásio censuraram tal corrente, cujas idéias foram finalmente condenadas pelo Sínodo Permanente de Constantinopla, em 543. O Papa Vigílio aprovou a rejeição da tese, visto que esta é incompatível com a noção de um Deus que salva o homem pela morte e ressurreição de Jesus Cristo. A reencarnação foi ainda repetidamente rejeitada pelos Concílios Gerais de Lião (1274) e Florença (1439), como também pelo do Vaticano II (1965, Lumen Gentium, nº 48).

    E.B.

    EDITORIAL DE SETEMBRO/96
    SEMEAR PARA COLHER

    A S. Escritura compara a vida presente a uma semeadura, cujo fruto será colhido na vida futura. É São Paulo quem o diz: «O que o homem semeia, ele o colherá (Gl 6,7). Esta imagem é muito sugestiva. Com efeito,
    1) A semeadura é essencialmente relativa à colheita; é preparação desta e só tem sentido em vista da colheita. Ora, o ser humano, envolvido como está num turbilhão de coisas coloridas e sonoras, corre o perigo de ser por estas assoberbado, de modo a considerar a vida presente como a principal, ficando a vida futura muito vaga e insignificante; seria algo de que se trataria quando os bens temporais já não mais satisfizessem ao seu usuário. Sim, a cortina dos valores temporais tende a sobrepujar a criatura humana, levando-a, por vezes, a esquecer a reta escala de valores.
    Ora, a sabedoria, conforme a Escritura, consiste em que vejamos o aquém em função do além. O critério para julgar o aquém é o além. É o que lembra a parábola do rico insensato: teve uma colheita de trigo tão farta que se preocupou unicamente com a maneira de a conservar; construiu grandes celeiros, nos quais armazen