
DO TRATADO "SOBRE A TRINDADE", DE SANTO HILÁRIO, BISPO
Leitura para o IV domingo da Páscoa - ano C
A unidade natural dos fiéis em Deus, encarnação do Verbo e o sacramento da Eucaristia
Realmente o Verbo de fez carne (Jo 1, 14) e de fato nós comemos o Verbo feito carne, no alimento do Senhor. Como, então, não julgar que permanece em nós com a sua natureza aquele que, nascendo homem, tornou a natureza da nossa carne inseparável de si mesmo e uniu a natureza da sua carne com a natureza divina, no sacramento que nos comunica a sua carne? Deste modo somos todos uma só coisa: o Pai que está em Cristo e Cristo que está em nós.
Está, pois, em nós por sua carne e nós estamos nele, uma vez que está em Deus, com ele, aquilo que nós somos.
Ele é quem atesta até que ponto estamos nele pelo sacramento da comunhão da carne e do sangue quando afirma: E este mundo já não me vê; mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis; porque eu estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós (Jo 14,19.20).
Se queria que entendêssemos apenas a união das vontades, por que distinguiu um certo grau e ordem, segundo os quais devia consumar-se a unidade? Certamente para que acreditássemos que, estando ele no Pai pela natureza divina e nós nele por seu nascimento corporal, ele está em nós pela ação misteriosa dos sacramentos.
É como se nos fosse ensinada a unidade perfeita que se realiza pelo Mediador: permanecendo nós nele, ele permanece no Pai e, permanecendo ele no Pai, permanece também em nós. Deste modo, poderemos chegar até à unidade com o Pai, pois ficaremos nele naturalmente, ele que está no Pai naturalmente, segundo o nascimento e que ficará em nós naturalmente.
Quão natural seja em nós esta unidade ele o atestou assim: Quem come minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele (Jo 6,56). Ninguém estará nele a não ser aquele em quem ele estiver, uma vez que só tem a carne que ele assumiu quem come de sua carne.
Mais acima já ensinara o sacramento desta perfeita unidade: Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim também o que come a minha carne viverá por mim (Jo 6,57). Portanto vive pelo Pai. E do mesmo modo como vive pelo Pai, nós vivemos por sua carne.
Presume-se que toda comparação se adapta à maneira de ser da inteligência, quer dizer: entende-se aquilo de que se trata de acordo com o exemplo que é proposto. Esta é, portanto, a causa de nossa vida: em nós, feitos de carne, temos a Cristo que permanece pela carne; e mediante sua humanidade vivemos daquela vida que ele recebe do Pai.
Liv. 8,13-16
Última revisão: 16/05/98
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