DA CONSTITUIÇÃO APOSTÓLICA «PAENITEMINI», DO PAPA PAULO VI

Comentário ao Evangelho do 3º Domingo da Quaresma, Ano C (Lc 13,1-9)

Fazei penitência e crede no Evangelho

Antes de iniciar o seu ministério, Cristo, que em sua vida fez o que ensinou, passou quarenta dias e quarenta noites em oração e jejuou, inaugurando sua missão pública com esta alegre mensagem "O Reino de Deus está perto", à qual logo acrescentou o mandamento: Fazei penitência e crede no Evangelho (Mc 1,15). Estas palavras constituem, de certo modo, o resumo de toda a vida cristã.
Ao Reino anunciado por Cristo só podemos chegar pela "metánoia", isto é, através da total mudança e renovação interior do homem todo - de todo o seu sentir, julgar e dispor - que nele se efetuam à luz da santidade e caridade de Deus, santidade e caridade que nos foram plenamente manifestadas e comunicadas no Filho.
O convite do Filho para a "metánoia" torna-se ainda mais indeclinável quando não apenas o prega, mas nos dá ele próprio o exemplo. Cristo é realmente o modelo supremo dos penitentes: quis sofrer a pena não dos seus pecados, mas dos pecados dos outros.
Diante de Cristo, o homem é iluminado por luz nova, e então reconhece tanto a santidade de Deus como a gravidade do pecado; através da palavra de Cristo lhe é transmitida a mensagem que convida à conversão e concede o perdão dos pecados, dons que obtém plenamente no Batismo. Este sacramento, com efeito, configura-o à Paixão, à Morte e à Ressurreição do Senhor, e coloca toda a vida futura do batizado sob o selo deste Mistério.
Seguindo, por isto, o Mestre, todo cristão deve renegar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e participar dos sofrimentos de Cristo; tornando-se imagem de sua morte, será capaz de meditar a glória da Ressurreição. Seguindo, além disto, o Mestre, deverá não mais viver para si, mas sim para aquele que o amou e se entregou por ele, devendo também viver para seus irmãos, completando em sua carne o que falta às tribulações de Cristo... em favor de seu corpo, que é a Igreja (Cl 1,24).
Além disto, estando a Igreja intimamente ligada a Cristo, a penitência de cada cristão repercute em toda a comunidade eclesial: com efeito, não é só no seio da Igreja que ele recebe, pelo Batismo, o dom fundamental da "metánoia", como esse dom é também restabelecido e revigorado nos membros do Corpo de Cristo que caíram em pecado, pelo sacramento da Penitência. Aqueles, pois, que se aproximam do sacramanto da Penitência recebem da misericórdia de Deus o perdão das ofensas que lhe fizeram, e ao mesmo tempo se reconciliam com a Igreja, à qual feriram com o pecado, mas que coopera para a sua conversão com a caridade, com o exemplo e a oração. Enfim, é na Igreja que a pequena obra penitencial imposta a cada um no sacramento tornou participante, de modo especial, da infinita expiação de Cristo, enquanto, por disposição geral da Igreja, pode o penitente unir à própria satisfação sacramental qualquer outra ação, padecimento ou sofrimento.
Sendo assim, o dever de trazer no corpo e na alma a morte do Senhor abrange toda a vida do batizado, em qualquer instante e expressão.





Última revisão: 14/03/98
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