
DO TRATADO DE UM AUTOR DO SÉC. XII SOBRE A PAIXÃO E RESSURREIÇÃO DO SENHOR
Comentário para a I Semana da Páscoa (Jo 20,11-18)
Eis que vou aparecer-te também do lado de fora, para levar-te para dentro,
a fim de que encontres dentro quem fora procuras
Viu dois anjos, vestidos de branco, sentados no lugar onde o corpo de Jesus fora colocado; um à cabeceira e outro aos pés. Mulher - dizem - por que choras? Quem procuras? (Jo 20,12-13). Bem sabeis, anjos boníssimos, por quem chorava e a quem buscava. Por que, chamando-a, fazê-la chorar de novo? Mas já estava perto o gozo da consolação inesperada, e toda a força do sofrimento de pronto se desfaz.
Voltou-se e viu Jesus de pé. Mas não sabia que era Jesus (Jo 20,14). Ó carinhoso e grato espetáculo de amor! Ele, que é buscado e desejado, ao mesmo tempo se oculta e manifesta. Oculta-se para ser procurado com mais ardor; para, buscado, ser achado com alegria; para, encontrado, ser retido com solicitude. E retido, não possa retirar-se antes de ser introduzido no quarto do seu amor, onde estabeleça morada. Com tal arte brinca no mundo a Sabedoria e suas delícias é estar com os filhos dos homens (cf. Prov 8,30-31).
Mulher, por que choras? Quem procuras? (Jo 20,15). Possuis aquele que buscas, e o ignoras? És dona de verdadeira e terna alegria, e estás chorando? Tens dentro de ti quem fora procuras. Verdadeiramente está junto ao sepulcro, chorando do lado de fora. A tua mente é o meu sepulcro. Aí descanso: não morto, mas vivo para sempre. A tua mente é o meu horto. Com razão julgaste ser eu um jardineiro. Pois sou o segundo Adão; eu trabalho no jardim do paraíso e monto-lhe guarda. O teu choro, o teu amor o teu desejo são obra minha: tens-me dentro de ti e não sabes; por isso é que me procuras fora. Eis que vou aparecer também do lado de fora, a fim de levar-te para dentro, a fim de que encontres dentro quem fora procuras.
Maria (Jo 20,16): eu te conheço pelo nome, aprende tu a conhecer-me pela fé. Rabbuni, isto é, Mestre! (ibid.) É como se dissesse: ensina-me a procurar-te, a tocar-te, a ungir-te.
Não me retenhas (Jo 20,17) - diz ele - como ao homem e ao mortal que outrora tocaste e ungiste. Ainda não subi ao meu Pai (ibid.), ainda não crestes que sou igual, coeterno e consubstancial ao Pai. Crês e me tocarás. Vês o homem, por isso não crês; pois não cremos naquilo que estamos vendo. Não vês a Deus. Crê e verás: crendo, tocar-me-ás; como aquela mulher que tocou a fímbria das minhas vestes e imediatamente curou-se. Por quê? Porque tocou-me com sua fé. Toca-me com essa mão; busca-me com esses olhos; e correndo com esses pés, apressa-te em chegar a mim pois não estou longe de ti. Sou um Deus que se aproxima; sou palavra na tua boca, palavra no teu coração. O que estará mais perto do homem do que o seu próprio coração? Lá me encontra, qualquer um me encontra. As coisas exteriores, realmente, são visíveis: também elas são obra minha, mas são transitórias e caducas. Ao contrário, eu, que sou seu artífice, habito no mais profundo dos corações puros.
Cap. 5,38
Última revisão: 05/05/98
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