DOS SERMÕES DE SANTO AGOSTINHO, BISPO

Comentário ao Evangelho do III domingo da Páscoa - ano C (Jo 21,1-19)

Quando interrogava a Pedro, o Senhor interrogava também a nós

Quando ouves o Senhor dizendo: Pedro, tu me amas? (Jo 21,16), lembra-te de um espelho e procura ver-te nele. Pois que outra coisa Pedro aí fazia se não representar a Igreja? Por isso, quando interrogava a Pedro, o Senhor nos interrogava também a nós, interrogava a Igreja. Para saberes que Pedro era figura da Igreja, recorda aquela passagem do Evangelho: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja e as portas do inferno não a vencerão. Eu te darei as chaves do Reino dos céus (Mt 16,18-19).
É um homem só que as recebe. Quais sejam as chaves do Reino dos céus ele explicou assim: O que ligares na terra será ligado nos céus e o que desligares na terra será desligado nos céus (Mt 16,19).
Mas, se apenas a Pedro é que isso se disse, somente Pedro é que fez isso: morreu e partiu. Quem, portanto, liga e quem desliga? Ouso afirmar que também nós temos essas chaves. Que digo? Que nós ligamos e desligamos? Também vós ligais, também vós desligais. Pois quem é ligado é separado de vosso consórcio; e quando é separado do vosso consórcio, é ligado por vós. E quando é reconciliado é desligado por vós, pois também vós rogais a Deus por ele.
Porquanto todos amamos a Cristo e somos seus membros. E quando ele confia as ovelhas aos pastores, o número total dos pastores é reduzido ao corpo do único pastor. Pois para compreenderes que o número total dos pastores é reduzido a um só corpo de um único pastor, eis que certamente Pedro é pastor, realmente pastor é Paulo, verdadeiramente João é pastor, pastor é Tiago, pastor é André, pastores os demais Apóstolos, sem nenhuma dúvida. Mas então, como é que é verdade que haverá um só rebanho e um só pastor (Jo 10,16)? Ora, se é verdade que haverá um só rebanho e um só pastor, todo o inumerável número de pastores se reduz ao corpo de um único pastor. Mas aí estais também vós: sois seus membros.
Oprimia esses membros o famoso Saulo, antes perseguidor e depois pregador, anelando matança, para afastar da fé. Mas todo o seu ímpeto foi desfeito por uma só palavra. Que palavra? Saulo, Saulo, por que me persegues? (At 9,4). Contra quem está sentado no céu, o que podia ele fazer? Em que o prejudicava sua palavra? Em que o ofendia seu clamor? Contra ele nada era possível fazer e contudo clamava: Tu me persegues. E, quando clamava: Tu me persegues, dava a entender que somos seus membros. Destarte, o amor de Cristo a quem amamos em vós, o amor de Cristo a quem igualmente vós amais em nós por entre tentações, por entre trabalhos, por entre suores, por entre misérias, por entre gemidos, nos conduzirá a esse lugar em que não há nenhum sofrimento, nenhuma miséria, nenhum gemido, nenhum suspiro, nenhuma perturbação, onde ninguém nasce e ninguém morre, onde ninguém teme a ira do poderoso já que está unido à face daquele "que tudo pode".




Sermão Guelferbitano 16,2-3






Última revisão: 16/05/98
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