Monge
 
 
 

 

20 de abril

5º DOMINGO DA PÁSCOA (ano A)

Leitura do dia: Jo 14, 1-12

Do Comentário sobre o Evangelho de São João, de Santo Agostinho, bispo

Ele vai a si, por si próprio; nós a ele, por ele; e juntos, com ele, vamos ao Pai

Eu sou o caminho. Os discípulos conheciam o caminho, ainda que julgassem ignorá-lo, pois conheciam Jesus. Mas por que dizer: Eu sou o caminho, a verdade e a vida? (Jo 14, 6). Porque tendo dado a conhecer seu caminho, restava ao Senhor dizer para onde se dirigia: para a verdade e a vida. Passando por si mesmo, a si mesmo ele ia. E nós para onde vamos senão a ele? Por qual caminho, senão por ele? Ele, portanto, vai a si, por si próprio; nós a ele, por ele; e juntos, com ele, vamos ao Pai. Eu vou ao Pai (14, 12), disse em outro lugar, como diz agora: Ninguém vai ao Pai senão por mim (Jo 14, 6).

            Dize-me, pois, Senhor, eu te peço, como podes ir a ti mesmo? Será que te deixaste para vir a nós, tu que não vieste por ti mesmo, mas que foste enviado pelo Pai? Tu te aniquilaste, eu sei, tomando a forma de escravo; mas sem deixar a forma de Deus, para poder depois retomá-la. Entretanto, tu vieste, vieste não somente até os nossos olhos mortais, mas às nossas mãos de homens. Como, senão segundo a carne? Por tua carne sim, tu vieste, permanecendo onde estavas. Por tua carne também é que voltaste para teu Pai, sem deixar esse mundo, aonde vieste. Se, portanto, vieste e voltaste através de tua carne, tua carne é o caminho, não apenas o caminho que conduz a ti, mas aquele por onde vens, e pelo qual retornas. Pois, é fazendo essa carne passar da morte à vida, que foste para a Vida, a Vida que és tu.

            Quereis uma analogia, ainda que distante e muito imperfeita? Vou buscá-la, para tentar compreender alguma coisa a respeito de Deus, naquilo que dele depende de modo mais íntimo: meu espírito e o vosso.

            Eu mesmo, que não passo de um homem como vós, se me calo, permaneço em mim. Mas, se falo, e me compreendeis, passo, de certo modo, para vós, sem, no entanto, deixar-me. Venho a vós, sem deixar o lugar de onde parti. Quando, daqui a pouco, eu me calar, voltarei, de certo modo, a mim mesmo, mas também permanecerei, de certo modo, convosco, na medida em que puderdes conservar
em vós o que agora escutais de minha boca. Pois bem: se a imagem de Deus criada por ele possui tal privilégio, o que não poderá fazer a Imagem incriada, a Imagem nascida de Deus, que é o próprio Deus? O que não poderá esse Verbo cujo corpo, caminho de sua vinda e de sua partida, não se dissipou como o som de minha palavra, mas permanece onde já não pode morrer, onde a morte não tem mais poder sobre ele? (cf. Rm 6, 9).  

In Ioannis Evangelium, Tractatus 69, 2-4
Corpus Christianorum Latinorum 36, 500-502





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Última revisão: 25/04/2008
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