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23 de abril
2º DOMINGO DA PÁSCOA (ano B)
Leitura do dia: Jo 20, 19-31
Os apóstolos são amados
pelo Senhor,
embora sendo igualmente enviados ao mundo para sofrer
A primeira dificuldade que se apresenta, nessa leitura do Evangelho, é saber como, após a ressurreição, o corpo do Senhor podia ser verdadeiro e entrar na casa onde se encontravam os discípulos, estando as portas fechadas. Mas, é preciso considerar que a atividade divina nada teria de admirável se fosse compreendida pela razão, e a fé não teria mérito nenhum, se a razão humana lhe fornecesse argumentos de convicção.
As obras de nosso Redentor, em si mesmas absolutamente incompreensíveis, são compreendidas mais perfeitamente quando comparadas a outras obras. Assim, a fé em fatos maravilhosos é confirmada por outros fatos ainda mais admiráveis!
Com efeito, o corpo do Senhor, que penetrou onde se encontravam os discípulos, estando as portas fechadas, é o mesmo que, pelo seu nascimento, se tornou visível aos olhos humanos ao sair do seio inviolado da Virgem. Que há, pois, de surpreendente no fato de ter entrado, após sua ressurreição, num recinto de portas fechadas, para viver eternamente, aquele que vindo ao mundo para morrer, saiu do seio da Virgem sem tê-lo violado? Mas, porque a fé dos que viam esse corpo visível estava em dúvida, apresenta-lhes imediatamente suas mãos e seu lado; oferece-lhes, para ser apalpado, o corpo que havia entrado, estando as portas fechadas.
Nosso Redentor, de modo admirável e inconcebível, fez ver um corpo que, após sua ressurreição, se tornara ao mesmo tempo incorruptível e palpável. Mostrando-o incorruptível, convidava os discípulos a pensarem na condição futura; apresentando-o palpável, fortalecia-lhes a fé. Mostrou-se, portanto, incorruptível e tangível, para provar que, depois da ressurreição, conservava a mesma natureza, embora tendo outra glória.
E disse-lhes: A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio (Jo 20, 21). Isto é, como o Pai que é Deus me enviou como Deus, também eu que sou homem vos envio como homens. O Pai enviou seu Filho determinando que ele se encarnasse pela redenção do gênero humano. Quis que ele viesse ao mundo para sofrer a paixão, sem, no entanto, deixar de amar o Filho vindo para sofrer essa mesma paixão. O Senhor não envia para as alegrias do mundo os apóstolos que escolheu, mas os envia do mesmo modo como ele próprio foi enviado: para as tribulações do mundo. O Filho, embora seja enviado para sofrer, é amado pelo Pai. Também os apóstolos são amados pelo Senhor, embora sendo igualmente enviados ao mundo para sofrer. É por isso que se diz: Como o Pai me enviou, também eu vos envio. Quer dizer: quando vos envio para o meio dos ataques dos perseguidores, eu vos amo com aquele mesmo amor com que meu Pai me ama, ao permitir que viesse ao mundo para sofrer a paixão.
Por conseguinte, caríssimos irmãos, temei e refleti com toda a atenção. Estamos celebrando as solenidades pascais; mas é preciso vivê-las de modo a merecermos chegar às festas eternas. Todas as festas que celebramos no tempo são passageiras. Cuidai então, ao celebrar essas solenidades, para não serdes afastados das solenidades eternas. De que adiantaria celebrar as festas humanas se faltarmos às festas dos anjos? A presente solenidade é apenas sombra da solenidade futura. Esta, nós a celebramos todos os anos, a fim de chegarmos àquela que não é anual, mas sem fim.
Homilia 26 in Evangelia, liber I,
1-2.10
(Patrologia Latina 76, 1197-1198.1202-1203)