Monge
 
 
 
 

30 de abril

3º DOMINGO DA PÁSCOA (ano B)

Leitura do dia: Lc 24, 35-48

Do Comentário sobre a I Carta de São João, de Santo Agostinho, bispo

Oremos para que Cristo se digne igualmente abrir a nossa inteligência

            Convém ouvir, com muita atenção, todos os textos das Sagradas Escrituras que são lidos para a nossa instrução e salvação. Devemos, sobretudo, reter na memória aqueles textos mais decisivos no combate aos hereges, cujas ciladas não cessam de armar contra os que são mais fracos ou mais negligentes. Lembrai-vos de que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo morreu e ressuscitou por nós: foi entregue por causa de nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação (Rm 4, 25).
 

            Ouvistes há pouco a narração dos dois discípulos que o Senhor encontrara no caminho, e como seus olhos não o reconheceram. Quando os encontrou, eles estavam sem confiança na redenção operada por Cristo. Acreditavam que o Senhor tinha sofrido e morrido como um homem qualquer. Não faziam idéia de que, como Filho de Deus, haveria de viver para sempre. Julgavam que ele morrera como um dos profetas, de uma morte que não deixava esperança de ressurreição. Assim eram suas palavras, como acabastes de ouvir, se prestastes atenção.

            Então, Jesus abriu-lhes o sentido das Escrituras, começando por Moisés e percorrendo todos os profetas, mostrando-lhes que tudo quanto sofrera, fora predito. Agiu desse modo para que sua ressurreição não trouxesse mais perturbação à fé, tornando-a mais difícil ainda, caso os acontecimentos a seu respeito não houvessem sido preditos com antecedência. Certamente, a firmeza da fé em Cristo torna-se maior, pelo fato de tudo quanto aconteceu ao Senhor ter sido predito.

            Os discípulos só o reconheceram na fração do pão. Realmente, quem não come nem bebe sua própria condenação, reconhece a Cristo na fração do pão.

Mais tarde, os Onze também pensaram ver um espírito. Jesus deixou-se tocar, ele que se deixou crucificar; entregou-se a seus inimigos para ser crucificado, e a seus amigos para ser tocado. Entretanto, era médico de todos, da impiedade de uns e da incredulidade de outros. Por isso, como ouvistes na leitura dos Atos dos Apóstolos, milhares acreditaram em Cristo, dentre os que o haviam matado. Se mesmo os que o mataram vieram depois a crer nele, como permaneceriam incrédulos aqueles que duvidaram apenas um instante?

Há um fato, porém, sobre o qual peço sobremaneira a vossa atenção, e que deveis guardar presente na memória. Diante de erros insidiosos, Deus quis colocar o fundamento das Escrituras. Contra elas, ninguém que, de algum modo, se considere cristão, ouse falar.

O Senhor não julgou que era suficiente dar apenas seu corpo a tocar. Para confirmar os corações na fé, acrescentou as Escrituras. Ele tinha em vista a nós, que viríamos no futuro; nós que não teríamos seu corpo para tocar, mas algo para ler.

Se, portanto, os discípulos acreditaram porque puderam tocar e apalpar o corpo do Senhor, o que poderemos nós fazer? Cristo já subiu aos céus. Não voltará senão no fim dos tempos, para julgar os vivos e os mortos. Sobre o que repousará vossa fé, a não ser sobre esse fundamento que ele nos dá para apoio da fé dos discípulos quando o tocam?

Com efeito, Jesus revelou-lhes o sentido das Escrituras e mostrou-lhes que era necessário Cristo padecer e realizar tudo o que, acerca dele, fora predito na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos. Aí se encontra reunido todo o conjunto do Antigo Testamento. O nome de Cristo ressoa em todos esses textos das Escrituras, mas sob a condição de encontrar ouvidos que entendam.

            E o Senhor lhes abriu a inteligência, a fim de que entendessem as Escrituras. Oremos para que ele se digne igualmente abrir-nos a inteligência.

In I Epistolam Ioannis, Tractatus 2, 1
 (Sources Chrétiennes 75, 151-152)

 

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Última revisão: 04/04/2006
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