Monge
 
 
 

 

30 de setembro

26º DOMINGO DO TEMPO COMUM (ano C)

Evangelho do dia: Lc 16, 19-31

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo

A verdadeira vida está junto de Abraão

               Havia um homem rico, diz nosso Senhor, e um pobre, chamado Lázaro (Lc 16, 19). O nome do rico estava na boca do dos homens, que não sabiam o do pobre; mas o Senhor diz o nome do pobre e cala o do rico.

               Quando o pobre morreu, os anjos o levaram para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado (Lc 16, 22). O outro talvez nem tenha tido as honras do enterro.

               Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe Abraão, com Lázaro a seu lado (Lc 16, 23), aquele mesmo Lázaro que ele havia desprezado à porta de sua casa. Pai Abraão, disse ele, tem compaixão de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas (Lc 16, 24). Mas recusa-se, agora, a esse homem a misericórdia que outrora recusou. Constata-se assim a palavra de São Tiago: O julgamento vai ser sem misericórdia para quem não praticou misericórdia (Tg 2, 13).

               E eis que agora o rico, que no tempo oportuno não quis ter compaixão do pobre, se compadece – demasiado tarde! – de seus cinco irmãos. Pai, eu te suplico, manda então Lázaro à casa de meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Que ele os avise, para que não venham também eles para este lugar de tormento (Lc 16, 27-28). E Abraão responde: Eles têm Moisés e os Profetas! Que os escutem! (Lc 16, 29). Os Profetas? O rico, durante sua vida, até zombava deles, e seus irmãos também. Todos os seis estavam de acordo: “Será que ainda vivemos depois da morte? Sabemos que todo mundo é levado um dia para o cemitério. Mas quem voltou de lá para dizer-nos o que se passa?”

               Lembrando-se de ter mantido tal conversa com seus irmãos, ele quer que Lázaro vá até eles, pois assim já não poderão dizer: “Ninguém voltou para contar-nos!” Porém é inteiramente justa a resposta que recebe: Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, mesmo se alguém ressuscitar dos mortos, não acreditarão (Lc 16, 31). E foi realmente isso que aconteceu. Os judeus que não ouviram Moisés e os Profetas, também não acreditaram em Cristo ressuscitado.

               Lembra-te de que durante a vida recebeste teus bens (Lc 16, 25). A vida onde agora vês Lázaro, não é “tua vida”; e teus bens, tu já os tiveste. Estes que agora desejas de tão longe, não têm contigo relação alguma. Tu recebeste em “tua vida”, os bens que então consideravas como tais, sem crer e sem esperar que houvesse outros. Naquela existência que julgaste ser a única, ser a “tua vida”, recebeste tudo, sem esperar e crer numa outra vida. Durante a vida recebeste teus bens.

               E Lázaro, por sua vez, seus males (Lc 16, 25). Teus bens, Lázaro não os teve. Contudo, ele não perdeu coisa alguma, porque o Senhor, falando dos males, não diz, dessa vez, que ele os recebera durante a vida. Para o pobre, na realidade, a verdadeira vida está em outro lugar, junto de Abraão, onde a esperava. Aqui na terra, Lázaro não vivia: estava morto. Para ele se realizara o que diz o Apóstolo: Morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus (Cl 3, 3).

               Sermo 41, 4-5
(Patrologia Latina 38, 249-250

 


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Última revisão: 20/09/2007
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